“O contágio entre os países parece ter diminuído consideravelmente à medida que os investidores aprendem mais sobre as economias e mercados de forma individualizada”, afirmou Tombini, atual representante do Banco de Compensações Internacionais (BIS) para as Américas – uma espécie de banco central dos bancos centrais.
Segundo ele, tal mudança se deve a várias iniciativas, que vão desde a publicação de dados até a interações regulares com investidores. No entanto, algumas situações de estresse como a pandemia, exemplificou, mostram que ter uma base de investidores não é suficiente e podem exigir que os bancos centrais façam intervenções nos mercados para fornecer liquidez.
Tombini, que foi presidente do BC durante os dois mandatos da ex-presidente Dilma Rousseff, reforçou o coro sobre a importância de os países da América Latina controlarem a inflação e também os programas de metas. “A inflação baixa e estável ajuda a reduzir o custo do financiamento para os governos”, disse ele, acrescentando que a mudança para a emissão de moeda local em prazos longos seria “impensável” sem o sucesso das metas de inflação.
O representante do BIS disse ainda que o nível de dívida dos países da América Latina é elevado, mas administrável. “Exceto na Argentina, a sustentabilidade da dívida não é atualmente um problema nas grandes economias latino-americanas”, afirmou.
Apesar disso, Tombini alertou que uma dívida soberana mais alta pode reduzir o espaço para políticas, tornando mais difícil lidar com choques futuros e implicar a política monetária. Ele ainda disse que as economias da América Latina precisam estar atentas quanto à importância de manter as contas públicas em bases sólidas, ou seja, com consolidação fiscal e a adoção de regras fiscais confiáveis, estimular o potencial de crescimento e fazer reformas.
“Além das reformas fiscais, isso requer reformas do lado da oferta que liberem o potencial de crescimento e melhorem o clima para o investimento privado crucialmente necessário”, afirmou Tombini. Segundo ele, os bancos centrais também têm papel importante quanto à gestão inteligente da dívida soberana.
Na visão de Tombini, os países latino-americanos fizeram grandes progressos na gestão de sua dívida soberana e o próximo desafio é a digitalização. Ponderou, contudo, que os benefícios do processo de tokenização serão obtidos apenas se os bancos centrais e outras entidades trabalharem juntos e garantirem a interoperabilidade. “Poderíamos nos encontrar à beira de mais uma revolução nos mercados de valores mobiliários”, concluiu.
O ex-presidente do BC participou de painel na reunião Anual de 2023 da Associação de Pesquisa do Banco Central (Cebra, na sigla em inglês), na sede do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de Nova York. A Cebra, baseada na Suíça, conecta pesquisadores de 60 bancos centrais, instituições financeiras internacionais e da academia.