Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano recuaram em meio a dados abaixo do esperado da atividade nos Estados Unidos, que, por sua vez, elevaram as apostas de corte de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) até setembro.
No fechamento, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2025 tinha taxa de 10,380%, de 10,395% no ajuste de sexta-feira, e o DI para janeiro de 2026, taxa de 10,78%, de 10,79%. A do DI para janeiro de 2027 projetava 11,13%, de 11,14%, e a do DI para janeiro de 2029, 11,60% (de 11,62%).
Os juros chegaram a abrir cerca de 10 pontos-base nas máximas da manhã, refletindo ajustes depois do Focus. Subiram as medianas de IPCA para 2024 (3,86% para 3,88%), 2025 (3,75% para 3,77%) e 2026 (3,58% para 3,60%), a despeito de um aperto também nas estimativas para a Selic em 2024, de 10,00% para 10,25%, e 2025, de 9,00% para 9,18%. Todas elas estão acima da meta de 3%. Ou seja, mesmo com uma postura mais cautelosa do BC, o mercado acredita que a desancoragem vai se acentuar.
“As estimativas de juros mais elevados refletem aspectos externos, como a perspectiva de um processo lento de redução dos juros nos EUA, e internos, como a força do mercado de trabalho, que vem indicando aperto adicional, os riscos fiscais e a desancoragem das expectativas de inflação”, diz o analista da Tendências Matheus Ferreira.
Ao longo da sessão, o mercado foi digerindo o Focus e o exterior foi se sobrepondo na curva a partir da divulgação dos indicadores americanos ainda pela manhã, com destaque para o PMI Industrial medido pelo Instituto para Gestão da Oferta (ISM, na sigla em inglês), que caiu a 48,7 em maio, ante previsão de alta a 49,7. À tarde, as vendas de DI se intensificaram quando a taxa da T-Note passou a testar níveis abaixo de 4,40%. O alívio foi favorecido ainda pela queda do dólar, que à tarde se acomodou na casa de R$ 5,23, ante máximas a R$ 5,26 pela manhã, mesmo num dia negativo para commodities.
Leonardo Cappa, estrategista da Traad, vê potencial de alta para os DIs, relacionada às perspectivas fiscais e à questão da desancoragem, na medida em que crescem as dúvidas sobre qual será o perfil do novo BC a partir de 2025, quando terá terminado o mandato de Roberto Campos Neto. “Vejo os DIs subindo um pouco além, com o risco de decisões do Copom mais pró-governo, mais apertadas e um viés mais expansionista”, afirma Cappa, que não descarta que o juro básico possa chegar a 8% no próximo ano.
O cenário externo, a desancoragem das expectativas e o risco fiscal foram temas de discussão nas reuniões de diretores do Banco Central hoje com o mercado, em São Paulo, segundo apurou o Broadcast. No primeiro encontro do dia, com o Focus tendo acabado de sair do forno, o comportamento esperado para a inflação em 2025 foi bastante discutido, com a maioria acreditando num número mais perto de 4% do que de 3,5%. Na segunda reunião, o foco foi uma possível perda de credibilidade da política econômica num cenário de deterioração das contas públicas.
No encontro da tarde, economistas apontaram que a política fiscal tem sido a responsável pela desancoragem das expectativas e manifestaram a opinião de que a autoridade monetária já não tem mais espaço para continuar cortando a taxa Selic.