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Siglas em chamas: Woke, ESG, MEI e DEI – o que está em jogo?

Essas siglas não são apenas rótulos ou modismos, mas princípios que norteiam nossas ações e decisões

Por Ana Paula Hornos

22/02/2025 | 6:00 Atualização: 21/02/2025 | 16:50

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Em vez de se prender a siglas ou se alinhar a extremos, devemos buscar o equilíbrio. (Foto: Adobe Stock)
Em vez de se prender a siglas ou se alinhar a extremos, devemos buscar o equilíbrio. (Foto: Adobe Stock)

Vivemos tempos em que siglas como ESG (Ambiental, Social e Governança), DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) e MEI (Mérito, Excelência e Inteligência) são lançadas ao vento, muitas vezes sem a devida compreensão de seus significados profundos. Enquanto uns clamam pelo fim da agenda “woke” (de pautas identitárias e de diversidade), outros defendem fervorosamente os princípios do ESG. Mas, afinal, quem sairá vencedor dessa batalha? A resposta é simples: ninguém.

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Essas siglas, por si só, são apenas representações de valores que deveriam ser intrínsecos a qualquer sociedade ou empresa que almeja prosperar de forma sustentável e ética. Reduzi-las a rótulos ou modismos é desconsiderar a essência do que realmente importa: os princípios que norteiam nossas ações e decisões.

Consciência socio-ambiental acima dos modismos

Recentemente, a vice-presidente executiva de pessoas da Vale (VALE3), mencionou que “a cultura woke está perdendo espaço” e que um novo movimento, chamado MEI, estaria ganhando força. Segundo ela, ao contrário do DEI, que foca na diversidade como elemento-chave, o MEI enfatizaria uma combinação de mérito, altos padrões de desempenho e habilidades intelectuais. Essa visão reflete um debate mais amplo no mundo corporativo sobre o equilíbrio entre diversidade, inclusão e desempenho.

Há um ponto crucial nessa discussão: quando conceitos como mérito e alto desempenho são aplicados de forma excessivamente atrelada a indicadores financeiros e pacotes de remuneração de executivos, podem gerar decisões imediatistas, focadas apenas na maximização de resultados quantitativos de curto prazo, sem considerar impactos de longo prazo do ponto de vista humano, social, ambiental, ético e especificamente financeiros.

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E é assim que tragédias como o rompimento da barragem de Brumadinho, ocorrido em 2019, acontecem: quando a pressão por performance e metas supera o valor da vida e da sustentabilidade em seu sentido amplo. Eventos como esse, nos lembram que nenhuma sigla ou discurso substitui a necessidade de equilíbrio nas agendas, ambidestria na tomada de decisões composto por diversos e múltiplos olhares, responsabilidade real e compromisso genuíno com a segurança, a vida humana e o meio ambiente.

O desastre em Minas Gerais, que resultou na morte de mais de 270 pessoas e causou impactos ambientais irreversíveis, ilustra como a ausência de práticas sólidas de governança pode ter consequências devastadoras – humanas, sociais, ambientais e financeiras.

O que está por trás do “MEI”

Agora, avaliemos a versão americana da sigla MEI: Mérito, Excelência e Inteligência. Curioso e irônico notar que, no Brasil, a mesma sigla remete ao microempreendedor que batalha pela sobrevivência, muitas vezes porque não conseguiu um emprego e luta para não cair na informalidade.

Para essa análise, evitarei discutir meritocracia, pois é um conceito que costuma gerar debates acalorados. Também não me aprofundarei na ideia de excelência, já que sua definição é subjetiva e varia conforme as perspectivas individuais. Mas, ao focarmos no “I” de Inteligência, encontramos uma dimensão mais concreta e científica, que vai além do cognitivo.

Howard Gardner, em sua Teoria das Inteligências Múltiplas, destaca diversas formas de inteligência, como a interpessoal, intrapessoal, musical, linguística, corporal-cinestésica, naturalista e espacial.

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Será que executivos e governantes, ao exaltarem o “I” do MEI, estão se referindo ao quociente de inteligência (QI)? Vale lembrar que uma pessoa com alto QI pode ter baixa inteligência emocional, o que pode resultar em impaciência e intolerância, afetando negativamente suas interações sociais e profissionais.

E se o critério for o QI, especificamente a inteligência lógico-matemática, não haverá vencedor maior do que a Inteligência Artificial (IA), não é verdade? Afinal, até a IA depende da multiplicidade das inteligências humanas para existir!

Valorizar apenas uma faceta da inteligência é limitar o potencial humano e ignorar a riqueza da diversidade de capacidades que possuímos. E isso não seria inteligente! Ser verdadeiramente inteligente e utilizar bem o “I” do MEI significa justamente ser inclusivo, diverso e justo – o que, ironicamente, nos leva de volta ao DEI!

O reflexo do passado no futuro

Ao nos fixarmos em siglas e rótulos, corremos o risco de simplificar demais questões complexas e fomentar divisões desnecessárias.

A história nos ensina que polarizações extremas resultam em destruição e prejuízos incalculáveis. As limpezas étnicas durante a Segunda Guerra Mundial e o genocídio em Ruanda são exemplos claros de como a intolerância e a falta de equilíbrio geram tragédias humanas e colapsos sociais.

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No mundo corporativo, a ausência de responsabilidade social, ambiental e de governança pode levar a desastres como os de Brumadinho e das Americanas, afetando não apenas a reputação das empresas, mas também sua sustentabilidade financeira.

E essa questão está indo além das fronteiras: como está ocorrendo nos EUA sob a gestão Trump, ao permitir que empresas americanas atuem sem tantas restrições éticas em outros países, abre-se um precedente perigoso. Isso reforça a ideia de que valores como governança e integridade estão sendo relativizados conforme a conveniência política e econômica, o que, no fim, prejudica a confiança nos negócios e na sociedade.

Portanto, em vez de nos prendermos a siglas (Woke, ESG, MEI e DEI) ou nos alinharmos a extremos, devemos buscar o equilíbrio. Os valores que essas siglas representam são fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa, ética e sustentável. Não se trata de vencer uma guerra de narrativas, mas de integrar esses princípios em nossas vidas e organizações, reconhecendo que, sem eles, todos perdemos.

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