

Os juros futuros se equilibraram entre a queda e a estabilidade ao longo da sessão desta sexta-feira (4), mostrando resiliência em comparação ao comportamento do real e das ações domésticas, que sucumbiram ao nervosismo externo. A decisão da China de retaliar os EUA replicando a tarifa de 34% às importações americanas deflagrou nova onda de pessimismo sobre a economia global, com queda nos rendimento dos títulos de renda fixa de dívida pública do governo norte-americano (Treasuries). Alinhada à curva americana, as taxas locais também caíram até o miolo da curva, mas em magnitude bem menor em função da disparada do dólar, que voltou a romper R$ 5,80.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2026 fechou em 14,65%, de 14,786% no ajuste de ontem, e a do DI para janeiro de 2027, em 14,19%, de 14,40% ontem. O DI para janeiro de 2029 terminou com taxa de 14,03%, de 14,17%, tendo na mínima da sessão, a exemplo de outros contratos, cruzado a linha dos 14%, caindo a até 13,92%. As taxas para o DI para janeiro de 2027 e janeiro de 2029 encerraram a sessão no piso do ano. Em relação à sexta-feira passada, todas as taxas cederam, com destaque para as intermediárias.
O anúncio da China alimentou o temor da escalada tarifária, que derrubou as bolsas e as curvas globais pelo segundo dia, apesar do payroll dos EUA ter mostrado criação de postos de trabalho em março muito acima da esperada – 228 mil ante consenso de 140 mil.
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“É com o início das respostas dos países afetados que a gente vai conseguir compreender melhor os desdobramentos efetivos, porque vão refletir um novo equilíbrio global. O cenário é muito fluido, com pontas soltas, e há expectativa de queda de atividade e pressões inflacionárias de curto prazo, e bastante incidentes sobre os Estados Unidos”, resumiu o diretor de Investimentos da Azimut Wealth Management, Leonardo Monoli.
Os rendimentos dos Treasuries chegaram a ceder mais de 10 pontos-base, espelhando a busca por segurança e também a percepção de que o Federal Reserve poderia, para evitar uma recessão, ser mais agressivo no ciclo de queda de juros, justamente o que Trump parece estar buscando. “Corte os juros, Jerome, e pare de fazer política!”, escreveu o republicano em publicação na rede Truth Social. O presidente do Federal Reserve, por sua vez, admitiu que, para ele, “atualmente, não há clareza do caminho apropriado para a política monetária”. Depois disso, o recuo dos yields dos Treasuries perdeu força e a taxa da T-Note de 10 anos voltava a ser negociada em 4% no fim do dia.
Para o Brasil, o efeito é indireto, na avaliação do diretor da Azimut, via queda dos preços de commodities. Hoje o petróleo voltou a tombar, em torno de 7%, com perdas de até 10% na semana. “A inflação doméstica pode arrefecer em parte devido à recente queda acentuada dos preços das commodities em reais, ainda que hoje o dólar tenha tido um gap para cima”, disse. Para Monoli, caso o equilíbrio entre o preço do real do câmbio e as commodities mas prevaleça, pode ajudar o trabalho do Banco Central. “Nessa linha, o BC precisaria muito possivelmente de apenas mais um ajuste na Selic”, avalia.
Desde ontem, os investidores vêm ajustando suas apostas na direção de uma política monetária menos conservadora por parte do Comitê de Política Monetária (Copom). Cresce a probabilidade de uma alta da Selic de 25 pontos-base na reunião de maio e não de 50 pontos, que era consenso até antes do anúncio do tarifaço. Também vem ganhando espaço a percepção de que a Selic terminal pode ficar até de 15% e que a taxa poderá começar a ser reduzida no segundo semestre.
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