

O Nasdaq encerrou esta sexta-feira (4) em queda de 5,82%, estendendo as perdas da véspera, quando já havia tombado 5,97%, na sua pior performance diária desde março de 2020. A onda de queda fez o índice entrar no que o mercado financeiro chama de “bear market” – frase, que em tradução livre, significa “mercado de urso”. A expressão é usada para definir períodos negativos para a Bolsa de Valores.
Paula Zogbi, gerente de Research da Nomad, explica que, oficialmente, o termo entra em uso quando um índice apresenta uma queda de 20% ou mais em relação ao seu pico recente. “O movimento é mais brusco do que a chamada correção, que ocorre para uma queda a partir de 10% em relação ao pico. O ‘bear market’ pode ser prolongado, como ocorreu em 2022, ou durar pouco tempo”, afirma.
Desde 20 de janeiro, data da posse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o Nasdaq acumula uma desvalorização de 20,59%, segundo dados de Einar Rivero, CEO e sócio-fundador da Elos Ayta Consultoria. Apenas nos últimos dois dias, que sucederam o anúncio do pacote de tarifas do republicano, o tombo foi de 11,44%.
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O Dow Jones também não escapou da turbulência. O índice já recuou 11,9% desde a posse presidencial e desabou 9,26% apenas nos últimos dois pregões. No fechamento desta sexta-feira, a queda foi de 5,5%, agravando a perda de 3,98% registrada na sessão anterior.
Já o S&P 500, referência para o mercado americano, acumula uma retração de 15,38% desde 20 de janeiro. Nos últimos dois dias, a queda chega a 10,53%, sendo 5,97% apenas na sessão mais recente, um desempenho ainda pior do que o recuo de 4,84% registrado no dia 3 de abril.
O que fez Nasdaq entrar em bear market?
Zogbi explica que, desde o início do mandato de Trump, as medidas econômicas ventiladas – e, cada vez mais, confirmadas – em torno de tarifas e fechamento de fronteiras comerciais contribuíram para esse cenário. Tudo se intensificou com o anúncio de quarta-feira (2), quando o republicano apresentou tarifas recíprocas elevadas para diferentes países.
Nesta sexta-feira, a China anunciou retaliação às medidas, ampliando a visão de que uma guerra comercial mais generalizada está por vir, o que alimenta ainda mais o sentimento de aversão a risco. O país asiático irá aplicar, a partir do próximo dia 10, uma tarifa de 34% sobre todos os produtos importados dos EUA. Além disso, o Ministério do Comércio da China disse ter adicionado 11 empresas americanas à sua lista de “entidades não confiáveis”.
Com os anúncios, as Bolsas de Valores globais derreteram. “Nesse cenário, companhias ‘de crescimento’, como as empresas de tecnologia, são as mais afetadas, já que o preço das ações desse segmento está fortemente relacionado a projeções de crescimento futuro. Por isso, o Nasdaq é um índice que sofre mais diretamente os efeitos das mudanças de projeções para o crescimento da atividade americana”, explica Zogbi.
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As Sete Magníficas, gigantes da tecnologia dos Estados, viram seu valor de mercado reduzir em US$ 802 bilhões nesta sexta-feira. Juntas, Apple (AAPL), Microsoft (MSFT), Amazon (AMZN), Nvidia (NVDA), Alphabet (GOOGL), Meta (META) e Tesla (TSLA) já perderam US$ 4,26 trilhões desde o início do novo governo, de acordo com dados da Elos Ayta Consultoria. Considerando todas as empresas americanas listadas em Bolsa, o “estrago” foi de US$ 9,8 trilhões no período.
Nem mesmo os dados do payroll (relatório oficial de emprego dos EUA) foram suficientes para retomar o otimismo dos mercados. A economia americana criou 228 mil empregos em março, em termos líquidos, segundo relatório publicado pelo Departamento do Trabalho do país. Analistas consultados pelo Projeções Broadcast esperavam geração de 90 mil a 180 mil vagas, com mediana de 140 mil.
Em relatório, a Ágora Investimentos destaca que a “guerra comercial” pega a economia americana em uma situação saudável, com crescimento robusto, mercado de trabalho resiliente, consumo aquecido e inflação acima de 2%, mas não descontrolada. Isso não muda, porém, as conclusões da corretora.
“Os estragos serão enormes. Existem grandes chances de recessão nos Estados Unidos, menor crescimento global e aumento dos preços aos consumidores. O Brasil foi menos afetado pelas tarifas com uma taxa de 10%, o que pode oferecer uma vantagem competitiva em relação aos outros mercados emergentes. No entanto, é nosso dever frisar que nenhum país ganha com guerra comercial, pois é um jogo de soma negativa. Nesse sentido, não vemos razões para celebração”, destaca.
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