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Para onde vai o dólar após Trump aumentar tarifas contra a China?

Analistas afirmam que uma eventual reação da China seria o principal risco, já que as tarifas anunciadas hoje foram precificadas na sexta-feira (10)

Bruno Andrade é repórter do E-Investidor
Por Bruno Andrade e  Isabela Ortiz 

15/10/2025 | 15:00 Atualização: 15/10/2025 | 15:35

Veja o que o mercado projeta para o dólar após Trump confirmar novas tarifas para a China (Foto: Adobe Stock)
Veja o que o mercado projeta para o dólar após Trump confirmar novas tarifas para a China (Foto: Adobe Stock)

O dólar recua nesta quarta-feira (15) mesmo após os Estados Unidos anunciarem tarifas de até 150% contra a China — medida que agrava a guerra comercial e eleva o risco global. Analistas ouvidos pelo E-Investidor avaliam que a queda da moeda americana tende a continuar diante do cenário de corte de juros. No entanto, uma eventual reação da China pode alterar a trajetória do dólar no curto prazo.

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Por volta das 14h30, o dólar caía 0,45%, a R$ 5,4566. O governo dos EUA anunciou uma nova rodada de tarifas de 100% a 150% sobre produtos chineses ligados aos setores marítimo, logístico e de construção naval. A ação busca “reduzir a dependência de fontes chinesas” e “fortalecer a segurança econômica e de cadeias de suprimentos” do país, segundo documento que será publicado amanhã no Federal Register, o diário oficial dos EUA.

Conforme o texto, as novas tarifas entram em vigor em 9 de novembro e abrangem uma ampla gama de equipamentos usados em portos e transporte intermodal. Entre os produtos afetados estão guindastes “ship-to-shore” (STS), aqueles usados para descarregar contêineres de embarcações, e chassis intermodais e suas partes, como trailers e semi-reboques empregados no transporte de cargas marítimas e ferroviárias. A tarifa também se aplica a equipamentos “fabricados, montados ou contendo componentes de origem chinesa”, inclusive aqueles produzidos “por empresas controladas ou substancialmente influenciadas por nacionais chineses“.

  • Dólar cai com mercado à espera do Livro Bege após Powell sinalizar cortes de juros nos EUA

Na visão de Felipe Corleta, sócio da Brazil Wealth, o cenário de tensão comercial com a China tem valorizado mais ouro e outras moedas defensivas como o franco suíço e o euro. Nesta quarta (15), o ouro subia 1,18% e era negociado a US$ 4.212,46 por onça troy. No ano, o ouro sobe 58,23%. Segundo Corleta, a commodity também tem batido recordes sucessivos em meio aos temores sobre as questões fiscais dos Estados Unidos. Além disso, boa parte dessas tarifas anunciadas hoje já foram precificadas pelo mercado.

“O dólar também não possui força no pregão de hoje pelo fato de ter disparado na sexta-feira, quando o presidente americano anunciou que colocaria essas tarifas. Desse modo, o mercado já havia precificado essas tarifas quando a moeda disparou 2,5% no dia 10 de outubro”, argumenta Corleta.

Para Hudson Bessa, especialista na Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (FIPECAFI), a tendência é de desvalorização do dólar, reflexo da política econômica do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ao impor tarifas e não resolver os problemas ficais americanos, fragiliza a economia local.

“Diante desse cenário, a tendência é de queda da moeda americana. No entanto, momentos de forte turbulência podem causar disparada da moeda, mesmo com esse cenário atual. Isso porque não há nenhum país no ocidente que supra a demanda do dólar”, afirma Bessa.
  • Ouro atinge novo recorde com tensão EUA-China e aposta de corte de juros do Fed

Expectativas de corte de juros pelo Fed também puxa queda do dólar

Para João Soares, cofundador do Grupo Rio Negro Investimentos, outro fator que puxa o dólar para baixo é a expectativa de corte de juros nos EUA. Ontem, o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, alertou que os riscos negativos para o mercado de trabalho americano aumentaram, segundo os dados mais recentes disponíveis.

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Em discurso durante o encontro anual do National Association for Business Economics (NABE), o dirigente afirmou que, embora a taxa de desemprego tenha permanecido baixa até agosto, os ganhos de emprego “desaceleraram fortemente”, reflexo, em parte, da queda na imigração e da menor participação na força de trabalho.

Powell avaliou que o mercado de trabalho está “menos dinâmico e um pouco mais fraco”, e que o ritmo de contratações e demissões permanece baixo. Segundo ele, tanto as famílias quanto as empresas relatam percepções em declínio sobre disponibilidade de vagas e dificuldade de contratação. Nesse contexto, disse o presidente do Fed, “os riscos negativos para o emprego parecem ter aumentado”, alterando o equilíbrio de riscos monitorado pela autoridade monetária.

O Fed tem um mandato duplo de controlar a inflação e manter a geração de emprego ativa. Um ciclo de aperto monetário aponta preocupação com a inflação, já um ciclo de afrouxamento monetário significa uma preocupação com a geração de emprego. Ou seja, as falas de Powell foram vistas como um reforço para o corte de juros na próxima reunião de 29 de outubro. Atualmente, 95% do mercado precifica corte de 0,25 ponto porcentual pelo Fed na reunião do fim deste mês, segundo dados da CME Group.

“Quando o Fed corta juros, há uma tendência de baixa do dólar, pois os investidores buscam retornos mais em países juros mais altos, incluindo o Brasil”, reforça Soares.

O que esperar do do dólar após as novas tarifas de Trump?

Os analistas dizem que o investidor só deve encontrar uma piora no cenário de câmbio caso haja alguma retaliação da China contra os Estados Unidos. Thiago Azevedo, sócio da Guardian Capital, explica que o dólar pode chegar a R$ 4,70 em 2026 caso os cortes de juros esperados pelo Fed se concretizem em um cenário sem grande sustos ou retaliações tarifárias por parte da China.

“Já se houver uma escalda tarifária, com a China respondendo às tarifas, o investidor pode esperar uma disparada do dólar, e a moeda americana pode ultrapassar os R$ 5,60”, afirma Azevedo.

Os demais analistas possuem uma visão ainda mais pessimista. Angelo Belitardo, gestor da Hike Capital, estima que a moeda pode ir para a faixa do R$ 6,20 caso a China responda Trump com um tom duro. O mesmo patamar é apontado por Felipe Corleta. “Esse cenário conta ainda com a piora do quadro fiscal no Brasil, caso aconteça apenas a piora da guerra tarifária, vemos o dólar por volta dos R$ 5,80”, aponta Belitardo.

Por outro lado, uma não reação da China tende a manter o dólar na tendência de queda. Belitardo acredita que no cenário benigno o dólar poderia ir para R$ 5,10 ao fim de 2025 e até R$ 4,80 ao fim de 2026. “Esse número seria puxado por uma calmaria no mercado internacional, uma política fiscal organizada e um diferencial de juros entre os Estados Unidos e o Brasil atrativo”, argumenta.

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Já Claudia Moreno, economista do C6 Bank, projeta uma taxa de câmbio de R$ 5,50 para o fim de 2025 e R$ 6,00 para 2026. O motivo para o banco ver uma alta do dólar no futuro próximo está mais associado às questões brasileiras do que ao ambiente externo de guerra comercial. Claudia Moreno salienta que o Brasil tem uma dívida pública elevada, e a expectativa é que ela continue crescendo.

“Existe uma relação histórica: quanto maior for a dívida do governo, mais o câmbio tende a se depreciar. Isso ocorre porque os investidores percebem maior risco em investir em moeda local, reduzindo a entrada de dólares no país e pressiona a taxa de câmbio”, explica Moreno, do C6.

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