Como a inteligência artificial está mudando a educação financeira no Brasil, segundo Nathalia Arcuri, Marilia Fontes e Nath Finanças
Especialistas destacam como a IA já organiza finanças pessoais, acelera análises de investimentos, evita decisões impulsivas e democratiza o acesso ao mercado financeiro
Da esquerda para direita, Nathalia Arcuri, Marilia Fontes e Nathalia Rodrigues; ferramentas de inteligência artificial ganham espaço na educação financeira, auxiliando brasileiros na organização do orçamento e na tomada de decisões de investimento. (Foto: reprodução/Instagram)
A presença da inteligência artificial (IA) no mercado financeiro brasileiro já não saiu da previsão e virou realidade cotidiana. Dos aplicativos de educação financeira às plataformas de análise de investimentos, a tecnologia se tornou um novo eixo de apoio — e também de debate — entre especialistas. Três das principais vozes do setor, Nathalia Arcuri, Marilia Fontes e Nathalia Rodrigues, ajudam a mapear como a IA tem sido usada, quais oportunidades abre e quais riscos ainda impõem cautela.
Nathalia Arcuri, fundadora do Me Poupe!, compara a tecnologia a uma espécie de “companheiro disciplinador” das finanças pessoais. “A inteligência artificial pode ser esse copiloto que ajuda o investidor a enxergar o que antes passava despercebido”, afirma. Para ela, a IA pode cruzar dados, identificar padrões e até antecipar cenários, algo que “não substitui o aprendizado financeiro, mas ajuda a tomar decisões mais conscientes”.
A influenciadora reforça que, no ambiente da educação financeira, esse apoio chega especialmente por meio da automatização de tarefas básicas. “Muita gente já usa automações inteligentes sem perceber”, diz, citando ferramentas comuns nos bancos e nos aplicativos de controle de gastos. No Me Poupe!, ela explica, o cliente pode pagar contas automaticamente, registrar metas e até receber lembretes personalizados pelo WhatsApp. A lógica, segundo Arcuri, baseia-se em aliviar o peso operacional sobre o usuário e liberar energia para decisões mais estratégicas, sem perder o controle do orçamento.
Além da praticidade, a fundadora do Me Poupe! também destaca o potencial democratizador.
“A IA tem um enorme potencial de democratizar o acesso a ferramentas que antes eram restritas a quem tinha conhecimento técnico ou consultores”, explica.
Segundo ela, o aplicativo da Me Poupe! permite investir com simplicidade, categorizando despesas e sugerindo produtos “com a mesma segurança da poupança, mas com potencial de rendimento até três vezes maior”.
A IA como copiloto na carteira
Enquanto Arcuri foca na educação financeira e na organização pessoal, Marilia Fontes, sócia-fundadora da Nord Investimentos, analisa o papel da IA como aliada na construção de carteiras. Para ela, a tecnologia pode funcionar como “excelente copiloto financeiro” principalmente na etapa inicial: o screening de oportunidades. “Se eu quero montar uma carteira de dividendos, por exemplo, a IA consegue calcular o dividend yield [rendimento de dividendos, em português] e me entregar uma lista das maiores pagadoras”, explica. A triagem economiza tempo — mas não substitui a análise humana. “Mesmo assim, eu vou ter que analisar. A IA não captura, por exemplo, se a empresa está pagando dividendo com resultado caindo.”
Fontes também enxerga potencial revolucionário para a educação financeira, especialmente pela personalização. Segundo ela, já existem IAs preparadas para atuar como “professoras” que se adaptam ao ritmo e às necessidades de cada pessoa, ampliando o alcance desse tipo de conteúdo.
Quando o assunto é mercado profissional, no entanto, a sócia-fundadora da Nord adota postura mais cautelosa. Na sua consultora de investimentos, a IA ainda é usada majoritariamente para comunicação: “escrever relatórios, adaptar linguagem e produzir conteúdo”, e não para análise de ativos.
O motivo? Limitações importantes.
“A IA alucina e não considera tudo. Ela não analisa governança, não acompanha a empresa por anos, não vê o que está fora do balanço”, explica.
Entre os riscos, destaca ainda o uso indiscriminado de dados, além de advertir que recomenda apenas ferramentas sérias, como a plataforma BridgeWise, que realiza o primeiro filtro e ranqueia ações segundo critérios quantitativos.
A IA como educadora financeira: faz sentido?
Já Nathalia Rodrigues, criadora da Nath Finanças e CEO do Instituto Mulheres no Mercado Financeiro, traz outro ângulo: o das finanças populares. Ela enxerga na tecnologia uma forma de ampliar o acesso à organização financeira, especialmente para pessoas com dificuldades de manter registros ou de compreender seus próprios padrões de consumo. “A IA pode ser esse mecanismo para organizar contas básicas da melhor maneira”, afirma.
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Nathalia lançou recentemente uma IA própria — batizada também de Natália — treinada com seus conteúdos, livros e materiais produzidos ao longo dos anos. A ideia é que o usuário tenha uma auxiliar personalizada, capaz de registrar gastos, lembrar contas a pagar, estruturar orçamento e acompanhar receitas e despesas “como se fosse uma funcionária”. A influenciadora faz questão de diferenciar IAs genéricas das treinadas por especialistas: “Uma pega dados aleatórios; a outra oferece orientação baseada na metodologia e nos valores da pessoa que você já acompanha.”
Além de usá-la para revisar textos e evitar interpretações duvidosas, Nathalia já emprega sua IA como apoio na própria rotina financeira. Ela relata que a ferramenta lembra vencimentos recorrentes – como contas nos dias 10 e 25 – e organiza informações. No entanto, ela mesma ainda não utiliza a IA para recomendações de investimentos. “Para isso, eu precisaria ter todo o meu conteúdo treinado especificamente. Hoje, ela só traria ideias genéricas”, afirma, reforçando que nesse campo “não substitui o ser humano”.
Quais os riscos da IA no seu bolso?
Para a Nath Finanças, o maior risco da inteligência artificial nas finanças é a ausência de transparência. Se a IA tem conflitos de interesse, como publicidade embutida ou parcerias com instituições financeiras, o usuário precisa saber. Do contrário, alerta, a recomendação pode estar enviesada sem que a pessoa perceba. Outra preocupação ronda o tratamento de dados sensíveis, que sua própria IA evita armazenar. “Se você tem acesso à renda, gastos e hábitos de consumo de alguém, isso precisa estar protegido. O usuário precisa saber para onde essas informações vão.”
No fim, apesar de diferentes estilos e alcances, as três especialistas convergem em três pontos centrais:
A IA pode, sim, ser um grande copiloto financeiro;
Ela não substitui o conhecimento humano, mas funciona como ferramenta sem julgamento final;
Segurança, transparência e personalização são essenciais para que a tecnologia ajude, e não engane.
Entre entusiasmo e prudência, o consenso é que a inteligência artificial abre novas portas. Mas o usuário precisa aprender a entrar nelas, com consciência, informação e autonomia.