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Payroll divide mercado e reacende debate sobre juros: o que o Fed pode fazer agora

Relatório de emprego traz sinais mistos, com vagas abaixo do esperado, desemprego menor e salários mais fortes, mantendo incertezas sobre novos cortes de juros pelo Fed

Por Isabela Ortiz

09/01/2026 | 12:53 Atualização: 09/01/2026 | 13:00

Relatório de emprego dos EUA trouxe sinais contraditórios e reforçou a cautela do Fed sobre o início de um ciclo mais rápido de cortes de juros. (Foto: Adobe Stock)
Relatório de emprego dos EUA trouxe sinais contraditórios e reforçou a cautela do Fed sobre o início de um ciclo mais rápido de cortes de juros. (Foto: Adobe Stock)

O payroll, relatório de emprego dos Estados Unidos, divulgado nesta sexta-feira (9) trouxe um conjunto de sinais mistos que voltaram a alimentar o debate sobre o rumo da política monetária do Federal Reserve (Fed). Embora a criação de vagas tenha ficado abaixo das projeções do mercado, caindo para 4,4% em dezembro de 2025, ante 4,5% em novembro, outros indicadores do mercado de trabalho vieram mais fortes do que o esperado. Isso explica a reação ambígua dos ativos e a divergência de leituras entre analistas.

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Na avaliação de Rafael Yamano, economista sênior da SulAmérica Investimentos, o ponto central do relatório não está necessariamente no número de novos postos de trabalho, mas na taxa de desemprego.

“Os dados de emprego nos Estados Unidos trouxeram sinais contraditórios: a criação de vagas ficou abaixo do esperado (50 mil ante 70 mil), enquanto a taxa de desemprego veio menor do que o consenso (4,4% contra 4,5%)”, afirma.

Segundo ele, o mercado tem dado mais peso ao desemprego diante das incertezas sobre o nível efetivo de imigração e, portanto, sobre qual seria o chamado “payroll de equilíbrio” da economia americana.

Esse olhar mais atento à taxa de desemprego também se justifica pelo movimento recente do indicador. O Fed vinha demonstrando preocupação com a alta acumulada nos últimos meses, quando o desemprego passou de 4,1% em junho para 4,6% em novembro.

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A revisão do dado de novembro para 4,5%, somada à leitura mais baixa de dezembro, ajuda a aliviar parte desse receio.

Ainda assim, Yamano ressalta que “esse nível de desemprego mais baixo fortalece os argumentos da ala hawkish [postura econômica agressiva, priorizando a alta de juros] do FOMC [Federal Open Market Committee] para postergar novos cortes de juros“, já que o mercado de trabalho segue relativamente apertado.

Reações negativas do mercado pressionam o Fed

Para Gabriel Mollo, analista de investimentos da Daycoval Corretora, o payroll surpreendeu negativamente em relação às expectativas e tende a pressionar o Fed.

“O payroll veio bem diferente do que nós estávamos esperando. A mediana do mercado era uma projeção de 66 mil novos empregos e, na verdade, foram 50 mi”, afirma.

Na leitura do analista, esse resultado pode incentivar a tomada de risco pelos investidores, com impacto positivo para bolsas e negativo para o dólar.

“Acreditamos que a partir de agora o mercado pode começar a subir, o índice já começou a melhorar e o dólar deve voltar caindo com os investidores buscando tomar risco diante dessa possibilidade maior de que o Fed corte juros nas próximas reuniões”, diz.

Uma análise mais detalhada do relatório, no entanto, sugere que o quadro é menos benigno para uma flexibilização rápida da política monetária.

Salários chegam a 3,8%

Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, chama atenção para outros componentes do dado que reforçam a resiliência do mercado de trabalho americano. “O crescimento dos salários, um dado crucial para a dinâmica da inflação, surpreendeu positivamente, acelerando de 3,6% para 3,8%”, afirma.

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Segundo Cruz, a composição do relatório também ajuda a explicar por que o Fed tende a manter cautela.

O avanço do emprego segue concentrado em setores tradicionais, como restaurantes e saúde, sem sinais de distorções relevantes ou movimentos atípicos. Mesmo com a leitura “confusa” dos últimos meses, agravada pela ausência dos dados de outubro, o conjunto das informações ainda aponta para um mercado de trabalho aquecido.

Esse cenário enfraquece a narrativa que ganhou força anteriormente, de que haveria uma deterioração rápida do emprego que exigiria cortes agressivos de juros.

Nesse contexto, perdem força também declarações mais contundentes em favor de um afrouxamento monetário acelerado.

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Cruz cita, por exemplo, a fala recente de Steve Vermeer, dirigente do Fed indicado por Donald Trump, que chegou a defender uma redução de até 1,5 ponto percentual nos juros para evitar uma piora abrupta do emprego.

“O mercado de trabalho, neste momento, não sinaliza a necessidade dessa urgência no afrouxamento monetário”, afirma o estrategista.

Pelo contrário, fatores estruturais (como a pressão sobre a imigração, uma das principais fontes de mão de obra nos Estados Unidos) tendem a manter a oferta de trabalhadores mais restrita, o que dificulta uma desaceleração mais intensa do mercado de trabalho.

O payroll reforça a leitura de que o Fed segue diante de um cenário delicado: embora haja sinais pontuais de moderação na atividade, o mercado de trabalho ainda não oferece conforto suficiente para uma sequência rápida de cortes de juros. É justamente essa ambiguidade que explica a volatilidade recente dos ativos e a divergência de expectativas entre investidores e analistas sobre os próximos passos da política monetária americana.

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