Menos ficção e mais economia automatizada: avanço da automação global favorece tese de robótica como próximo passo da inteligência artificial (IA), segmento dominado pela Nvidia. (Imagem: AdobeStock)
A Nvidia (NVDC34) foi a primeira empresa a alcançar US$ 5 trilhões em valor de mercado um marco que sinalizou o teto do ciclo de valorização da companhia. Desde aquele outubro de 2025, o papel entrou em fase de correção e hoje a empresa é avaliada em cerca de US$ 4,3 trilhões — uma queda de aproximadamente 14%. Para alguns agentes do mercado não seria mais possível buscar crescimento em empresas como Nvidia, que puxaram a tese de inteligência artificial (IA), mas de buscar novas narrativas, como robótica e computação quântica.
“As oportunidades para ganhos relevantes continuam concentradas em tecnologia. Mas são em áreas como robótica e computação quântica que podem surgir as Nvidias do futuro. Agora, identificar qual empresa ocupará esse espaço é extremamente difícil”, afirma Bruno Corano, CEO da Corano Capital.
A lógica que sustenta os limites de expansão da Nvidia indica de que para a companhia continuar nos valores de hoje teria, ao menos, de crescer mantendo a margem de lucro acima de 60% durante décadas. Até agora ela vem mostrando essa força. Desde 2021 a empresa opera com uma mediana de margem de lucro bruto de 64,9%, mas a história mostra que sempre aparecem concorrentes no mundo da tecnologia.
A Google (Alphabet, GOGL34) com seus chips customizados (TPUs) começa a incomodar e valorizou mais de 65% em 12 meses, contra 24% da companhia comandada por Jensen Huang. “Nos anos 2000, todo mundo dizia que a internet dependia da Cisco e suas ações, na crise, caíram 87% e nunca mais recuperaram. A Cisco continua sendo uma boa empresa, mas qualquer um vende roteador hoje em dia”, compara Corano.
Com aportes de US$ 200 bi, empresas de IA atraem novos investidores; veja recomendações
Por que a robótica surge como próxima fronteira da IA
Para Bruno Yamashita, analista de Alocação e Inteligência da Avenue, a robótica deve herdar a evolução da IA. Desde o lançamento do ChatGPT em 2022, considerado o ponto de inflexão da tecnologia, outras segmentações dentro da cadeia de suprimento de IA generativa – tipo de inteligência artificial focada na criação de conteúdos – foram sendo beneficiadas.
A Nvidia foi a principal delas com os suas unidades de processamento gráfico (GPUs), circuito eletrônico especializado em realizar cálculos matemáticos em alta velocidade. A empresa nasceu para revolucionar os jogos, mas evoluiu para se tornar a líder em processamento de IA e data centers.
A expansão dos data centers marca a segunda fase da IA generativa, depois que o mercado entendeu que essa é uma tecnologia que veio para ficar, ao trazer mais eficiência para as empresas e estimular o surgimento de novos modelos de linguagem. “Com os agentes de IA ganhando cada vez mais corpo, acaba entrando a cena robótica, principalmente do lado industrial e muito puxado pela Ásia”, comenta Yamashita.
China, Coreia do Sul e Japão são países que buscam automação forte na parte industrial com robôs. “Eu diria que não só para 2026, como para os próximos anos, a robótica vai começar a ganhar mais espaço, seja na parte de automação de indústria, seja na de carros autônomos, com empresas já ganhando uma certa relevância e reconhecimento no mercado”, aponta.
Apesar do potencial, alguns gestores sugerem cautela, pois a tese da robótica ainda precisa ser tratada com bastante seletividade. Luciano Boudjoukian França, sócio-fundador e gestor da Paramis Avantgarde Asset Management, concorda que a IA e robótica têm potencial estrutural relevante na produtividade e redução de custos, especialmente em áreas como automação industrial, logística, manufatura avançada e, no médio prazo, até saúde.
“Por outro lado, muitas companhias ainda estão em fase de investimento pesado, com geração limitada de caixa e valuation (valor de mercado) exigente. Portanto, são empresas cujas teses podem ser validadas no longo prazo, mas que exigem atenção à execução, à escala e ao retorno sobre capital. Não se pode confundir inovação com viabilidade econômica.”
Esse é um posicionamento semelhante ao de Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad.
Na visão dele, os segmentos de robótica e computação quântica ainda estão em um estágio incipiente, cuja viabilidade de crescimento depende de uma combinação fundamentos, como aplicabilidade prática, necessidade de capital para a utilização e os benefícios reais da adoção dessas tecnologias em escala.
“Embora o aumento de demanda seja provável, ele pode não ser imediato. Tentar apontar vencedores agora é extremamente complexo devido à nebulosidade de adoção”.
No entanto, algumas empresas chamam atenção de quem acompanha esses nichos, caso de Bruno Corano, que cita a D-Wave Systems (QBTS), líder em sistemas computacionais quânticos e softwares na bolsa de valores de Nova York (NYSE), pioneira no fornecimento de computadores e circuitos quânticos.
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Essa tecnologia tem capacidade de processar dados exponencialmente mais rápido que supercomputadores e tem aplicações promissoras também na IA e machine learning(aprendizado de máquina, também outro tipo de inteligência artificial).
A Nvidia investiu US$ 2 bilhões na CoreWeave para expandir a infraestrutura de IA até 2030 e anunciou novos modelos de inteligência artificial voltados ao monitoramento climático. (Imagem: Adobe Stock)
Em robótica ele cita a Tesla (TSLA34), que, no entanto, confirma a tese de longo prazo para esse nicho. O CEO da companhia, Elon Musk, afirmou no dia 20 que a produção inicial do robotáxi Cybercab e do robô Optimus deverá avançar em ritmo lento, antes de ganhar escala e velocidade.
Outra empresa citada pelo executivo é a Kodiak AI (KDK, Nasdaq), companhia americana de caminhões autônomos “que já está opera com índices excepcionais de viabilidade, economia e segurança”, diz Corano. Por outro lado, embora a empresa venha reportando forte crescimento de receita, ainda opera no prejuízo.
ETFs permitem exposição ao tema sem escolher vencedores
A consultoria Gartner, referência mundial em aconselhamento em tecnologia da informação e negócios, colocou a “Physical AI” entre as top 10 tendências de tecnologia para 2026. Nas palavras da Gartner, a “IA física” traz a inteligência para o mundo real, impulsionando robôs, drones e tecnologia inteligente para impacto operacional.
Embora seja um tema distante para os brasileiros, a aplicação de IA em robótica é foco de inúmeros fundos de índice (ETFs) fora do Brasil que acompanham as principais desenvolvedoras ao redor do mundo. É possível investir por ETFs no avanço da automação global, com diversificação, inclusive geográfica, sem apostar em uma única empresa. Veja como investir em ETFs de IAnesta matéria.
Fundo temático que busca capturar o crescimento da robótica e da inteligência artificial, investindo em empresas ligadas à automação industrial, robôs não industriais e veículos autônomos. O objetivo é acompanhar o desempenho do índice Indxx Global Robotics & Artificial Intelligence Thematic, antes de taxas e despesas.
Um dos ETFs mais antigos e representativos do setor, com ampla exposição global à robótica e automação. Os ETFs da ROBO Global acompanham índices desenvolvidos pela VettaFi.
Fundo busca acompanhar, antes de taxas e despesas, o desempenho de preço e rendimento do índice Nasdaq CTA Artificial Intelligence and Robotic, que reúne empresas ligadas à inteligência artificial, robótica e automação em setores como tecnologia e indústria. O portfólio replica majoritariamente as ações que compõem o índice.
15,19%
0,96%
0,65%
Os que estão entre os mais conhecidos são os produtos da Robo Global, gestora especializada em ETFs temáticos de inovação. O ETF ROBO (Global Robotics and Automation Index) foi a primeira estratégia do mundo a acompanhar esse segmento em 2013.
A carteira da ROBO contém menos “ficção científica” e mais economia automatizada, mas também geopolítica. Recentemente passou a incluir como um de seus principais papeis a Ondas (ONDS, Nasdaq), companhia que anunciou em dezembro novos pedidos de compras de seus sistemas integrados de drones autônomos e plataformas robóticas terrestres para clientes governamentais da área de segurança.
O portfólio vai de robótica pura, a exemplo de fabricantes de robô industrias como a Siemens (SIE, Alemanha), passando por hardwares (máquinas) de área médica como Globus Medical (G2ME34) ; área de logística, Autostore (AUTO, Noruega) e robótica móvel, como a Joby Aviation (JOBY, NYSE).
Como investir em robótica sem sair do Brasil
Empresas de semicondutores a exemplo da Nvidia; de sensores, como a Keyence (6861, Tóquio); e de lasers, IGP Photonics (I1PG34), também fazem parte da carteira da Robo Global. Das 78 empresas investidas, 25 delas são americanas, 20 japonesas, 8 alemãs e há também chinesas (a exemplo da Xiaomi). Também fazem parte do portfólio 5 companhias taiwanesas e 4 suíças. O restante são de Canadá, Suécia, Finlândia, Reino Unido e Israel.
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Para investir nesse ETF, o investidor precisa ter conta em corretora com acesso ao mercado internacional. Mas dá para acessar o tema sem precisar tirar o dinheiro do Brasil.
O ETF da gestora Global X Robotics & AI (BOTZ, Nasdaq) pode ser acessado pela B3 com o código BOTZ39. O objetivo é parecido com a ROBO, ao procurar investir em companhias que se beneficiam da adoção e utilização de robôs e IA, indústria, automação e também robôs não industriais e veículos autônomos. A diferença é que está muito concentrada em Nvidia, Fanuc Corp (6954, Tóquio), empresa japonesa de robos industriais, e em ABB Group (A1BB34), multinacional sueco-suíça do setor de engenharia elétrica.