Segundo a XP, a maioria das variáveis relevantes para a decisão do Copom “ficou praticamente inalterada” em relação à última reunião. O câmbio segue em torno de R$ 5,35, as expectativas de crescimento e inflação pouco variaram no Boletim Focus e, apesar da desaceleração econômica, o mercado de trabalho continua aquecido, com taxa de desemprego em mínimas históricas.
Esse conjunto de fatores leva a casa a concluir que o Comitê não está nem mais nem menos confiante quanto à convergência da inflação para a meta de 3%.
Do lado mais benigno, a XP destaca que a inflação corrente segue relativamente bem-comportada. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) anualizado voltou para dentro do intervalo de tolerância da meta, enquanto os núcleos de inflação oscilam entre 3,5% e 4,0%.
Além disso, os preços ao produtor permanecem em deflação, o que tende a ajudar a inflação ao consumidor nos próximos meses. Por outro lado, a atividade econômica desacelera apenas de forma gradual, e indicadores recentes do mercado de trabalho surpreenderam para cima, o que ainda limita uma leitura mais confortável sobre o hiato do produto.
No cenário internacional, a XP chama atenção para a alta recente das commodities no início de 2026, movimento que pode reduzir a contribuição da desinflação global observada nos últimos trimestres. Ainda assim, o balanço geral das informações desde dezembro é visto como neutro, sem alterações relevantes na leitura do Comitê sobre o cenário inflacionário.
Esse pano de fundo se reflete nas projeções do modelo do Banco Central. A XP espera que a estimativa de inflação para 2026 permaneça em 3,5%, mas que a projeção para o terceiro trimestre de 2027 (horizonte relevante da política monetária) recue de 3,2% para 3,1%, principalmente devido à melhora das expectativas inflacionárias. A mediana do Focus para o IPCA de 2026, por exemplo, caiu de 4,16% para 4,00%, enquanto as projeções para 2027 também cederam, ainda que sigam acima da meta.
Diante desse quadro, a XP avalia que o Copom deve manter a Selic em 15% agora, mas sinalizar que a política monetária pode se tornar menos restritiva adiante. Uma possibilidade levantada pela casa é que o comunicado passe a reforçar a necessidade de uma política contracionista, mas não mais “significativamente contracionista“, expressão utilizada nas comunicações recentes. Isso abriria margem para um corte já na reunião de março, sem que o Comitê se comprometa explicitamente com esse movimento.
Ao mesmo tempo, a XP pondera que o Banco Central deve preservar um tom cauteloso. A sinalização, segundo a casa, não deve ser interpretada como um “plano de voo” fechado para cortes de juros, mantendo a ênfase em uma postura dependente dos dados, como vem reforçando o presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo.
No cenário-base da XP, o ciclo de flexibilização começa em março, com cinco cortes consecutivos de 0,50 ponto percentual, levando a Selic a 12,50%, antes de uma pausa para reavaliação no segundo semestre. A continuidade do processo, porém, dependerá do quadro fiscal a partir de 2027. “A extensão do ciclo de afrouxamento dependerá das perspectivas de reformas fiscais”, avalia a casa, que projeta juros em 11% ao fim de 2027 em seu cenário central.