Juntas, Alphabet, dona do Google, Amazon, Microsoft e Meta – empresa-mãe do Facebook – devem gastar cerca de US$ 650 bilhões com projetos relacionados à IA neste ano, um salto de 60% em relação aos US$ 400 bilhões estimados para 2025. As projeções de despesas de capital cada vez maiores colocaram Wall Street numa espécie de túnel do tempo, de volta a 1990, quando a bolha estourou e levou a maior economia do mundo à recessão.
O temor foi reforçado pela Amazon, que, em paralelo aos números trimestrais, anunciou planos de investir US$ 200 bilhões em toda a companhia neste ano, sendo a maior parte no negócio de nuvem (AWS), para responder à alta demanda. O mercado esperava bem menos, algo como US$ 50 bilhões.
“Estamos monetizando a capacidade o mais rápido possível. Temos ampla experiência em entender os sinais de demanda no negócio da AWS e, em seguida, transformar essa capacidade em um forte retorno sobre o capital investido”, disse o CEO da Amazon, Andy Jassy, em teleconferência com analistas e investidores, ontem.
Seus comentários não foram suficientes para acalmar o mercado diante dos gastos de capital acima de outros pesos pesados da tecnologia como Google e Microsoft. As ações da Amazon perderam cerca de US$ 200 bilhões em valor de mercado de ontem para hoje, exatamente a cifra que a companhia pretende gastar neste ano, de acordo com a FactSet. Se considerada a liquidação mais ampla no setor de tecnologia, suas ações viram evaporar US$ 420 bilhões desde segunda-feira, dia 02, último pregão em que os papéis fecharam em alta.
“O aumento nos gastos permanecerá como uma preocupação enquanto os investidores digerem a orientação e provavelmente precisarão ver retornos mais tangíveis antes de recuperar o conforto”, diz o analista da WedBush, Daniel Ives.
Em relatório prévio à temporada de balanços, o JPMorgan estimou que a indústria de IA precisa gerar US$ 650 bilhões em receitas para entregar um retorno na casa dos 10% até 2030. Trata-se do mesmo montante que as big techs pretendem investir somente neste ano.
Para o CEO do deVere Group, Nigel Green, embora as preocupações do mercado sejam compreensíveis, o capital está sendo investido em uma camada fundamental que sustenta tudo o que as big techs fazem e farão no futuro. Ou seja, os gastos são para o longo prazo. “Manter a relevância requer escala. O mercado pode não gostar da escalada competitiva, mas para as empresas envolvidas, ficar parado não é uma opção”, diz o gestor.
Tanto é que, na outra ponta, o temor de uma disrupção causada por IA desencadeou o que Wall Street está chamando de “Armagedom do setor de software“. O segmento perdeu 29% em valor de mercado desde os picos de setembro, conforme o Goldman Sachs. Metade do tombo ocorreu em meio aos balanços do quarto trimestre, divulgados na semana passada.
O estrago não parou por aí. Ações em indústrias intensivas em dados, incluindo mídia, educação e serviços empresariais, assim como alguns gestores de ativos e grandes bancos americanos também foram alvos da forte liquidação de ações realizada em Wall Street desde a semana passada.
“Após anos de foco na identificação de ações com maior potencial de exposição à IA, as preocupações com a disrupção empurraram os investidores de volta para indústrias da economia real, incluindo aquelas alavancadas aos sinais recentes de aceleração do crescimento econômico”, diz o Goldman Sachs, em relatório a clientes.
No setor de software, os múltiplos caíram de 35 vezes o preço sobre lucro (P/L) futuro no fim do ano passado para 20 vezes. Trata-se do nível absoluto mais baixo desde 2014 e o menor prêmio em relação à média das ações do S&P 500, que reúne as maiores empresas do mundo com ações listadas, desde 2010, conforme o Goldman Sachs.
Apesar disso, as margens de lucro atuais e as estimativas de crescimento de receita estão nos patamares mais elevados em ao menos duas décadas e acima da média das ações de outros segmentos do índice. “A queda nas avaliações indica uma expectativa de que essas estimativas também diminuirão”, alerta o analista do Goldman Sachs Ben Snider.
Mas, na sua visão, o pior pode já ter sido superado. “Nenhuma ação foi poupada, mas acreditamos que Snowflake, MongoDB, Datadog e JFrog serão as primeiras ações a subir após a poeira assentar”, projetam os analistas do Bank of America, Koji Ikeda e George McGreehan. O quarteto já esboçava um movimento de recuperação nesta sexta-feira, liderado pela SnowFlake, mas com exceção da Jfrog.
Operadores em Wall Street ponderam que a bateria de dados econômicos prevista para os próximos dias deve manter os investidores sob alerta após a liquidação tech das duas últimas semanas. O relatório payroll, principal termômetro do mercado de trabalho americano, e o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) de janeiro serão divulgados na próxima semana, após o atraso causado pela paralização parcial que paralisou a máquina pública nos EUA.