O Brasil vive uma explosão de plataformas de apostas, altamente sofisticadas e desenhadas para capturar quem está emocionalmente mais exposto. E é justamente quem está construindo identidade, autonomia e propósito que se torna o alvo preferencial desse modelo: a juventude.
Jovens que lidam diariamente com incertezas, cobranças e comparações encontram nasbets uma promessa rápida de vitória, quando a vida real ainda lhes cobra um tempo de espera que parece insuportável.
Mas essa história não começa na juventude. Começa na infância.
O filme nacional Salve Rosa, recém-lançado na última quinzena de outubro, dirigido por Susanna Lira, com produção da Panorâmica Filmes em parceria com a ELO Studios e a Paramount Pictures Brasil, faz um forte chamado e alerta à exploração do trabalho infantil pela própria família. Influenciadores mirins transformam a espontaneidade em performance.
A vida deixa de ser brincadeira e vira conteúdo. A popularidade se converte em capital, antes de a maturidade emocional dar conta dessa equação.
Avançamos para a adolescência com um sistema emocional frágil e um sistema econômico instável. A Geração Z cresce entre métricas de visibilidade e medo da irrelevância; entre a exigência de ser protagonista e a dificuldade real de se inserir em um mercado que oferece poucos vínculos, muitos cortes e uma dose generosa de ansiedade.
Quando o futuro parece incerto, o curto prazo vira anestesia. As apostas online prometem, em segundos, o que a vida real demora a entregar: a sensação de vitória. Só que essa vitória é química, instantânea e perigosa.
Não é falta de caráter; é falta de ferramentas emocionais para lidar com a instabilidade.
A pergunta não pode ser “por que eles apostam?”, mas sim “o que falta para que eles não precisem apostar?”.
Como psicóloga e educadora financeira, vejo nesse debate uma oportunidade de construir repertório: porque a saída existe, mas não está em julgar comportamentos isolados. Está em mudar o contexto.
Precisamos de três movimentos ao mesmo tempo:
1- Proteger a infância do mercado
Criança não tem que performar. Tem que explorar, errar, se reconhecer sem que estejam sendo filmadas. É preciso estabelecer limites claros para a exposição infantil e acompanhar os efeitos psicológicos de uma vida pública precoce.
2- Ensinar jovens a lidar com incertezas
A geração que cresceu com o “tudo para ontem” precisa aprender a navegar “o que virá depois”. Autogestão, finanças pessoais, inteligência emocional, construção de propósito e senso de comunidade são as habilidades que sustentam o longo prazo.
3- Responsabilizar, proibir e punir quem lucra com a vulnerabilidade
Famílias, educadores, empresas e governo precisam agir, se unir e se alinhar. Se por um lado culpar o indivíduo é fácil e confortável, por outro, transformar o contexto dá trabalho e exige uma atuação firme do Estado.
O governo liberou o mercado de apostas online sem estrutura de controle adequada e agora enfrentamos uma epidemia de vulnerabilidade. O vício em apostas é antes de tudo um tema de saúde mental e não moralização individual.
Quando o Estado libera um mercado de alto risco sem garantir proteção, ele se torna corresponsável pelo dano. Agora, precisa corrigir o curso: regular com firmeza, restringir o que adoece, acompanhar os canais de acesso, financiar tratamento e dar prioridade a políticas que defendam a juventude antes que ela precise ser resgatada; e antes que as vítimas sejam apontadas como culpadas, como já vimos acontecer em outras dependências, inclusive as químicas.
Se queremos que a Geração Z faça boas escolhas, precisamos oferecer boas alternativas.
Se queremos que ela construa futuro, precisamos devolver tempo de formação.
Se queremos que ela prospere, precisamos garantir pertencimento e orientação.
O desenvolvimento humano dos nossos jovens não é uma aposta, é uma responsabilidade. E, quando ela é cumprida, o futuro deixa de ser risco e volta a ser promessa.