Começo de ano é aquela época em que todo mundo vira gestor de si mesmo.
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Começo de ano é aquela época em que todo mundo vira gestor de si mesmo.
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Você decide que vai dizer não a tudo que não presta e sim ao que realmente importa.
O problema é que dizer “não” costuma ser mais simples do que sustentar um “sim” quando ele começa a exigir mais do que intenção.
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Dizer “não” resolve uma situação específica. Fecha uma porta, encerra uma conversa, interrompe um padrão.
Já dizer “sim” exige algo mais trabalhoso: sustentar uma direção ao longo do tempo, mesmo quando o contexto muda e o entusiasmo diminui.
O “não” delimita. O “sim” compromete.
Existe algo poeticamente enganoso nessa ideia de “ano novo, vida nova”. Dizer não soa como promessa: limpo, elegante, compartilhável. Sustentar um sim se parece mais com convivência diária: menos empolgante no discurso, muito mais decisiva na prática.
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A Geração Z sente isso de forma intensa. Não por falta de vontade, mas porque cresceu em um ambiente que valoriza escolhas rápidas, recompensas imediatas e trocas constantes. Muitos jovens dizem: “quero foco”, “quero independência”, “quero fazer o que amo”. O desejo é legítimo. O que falta, muitas vezes, é estrutura emocional para sustentar o sim quando ele deixa de ser prazeroso.
E então entram os pais, verdadeiros especialistas em torcida organizada emocional. Acreditam, incentivam, dizem “vai dar certo” com a melhor das intenções. E isso é bom. Às vezes, acreditam até mais do que o próprio filho.
Mas, movidos por amor, fazem o que todo coração parental bem treinado faz ao menor sinal de tropeço: amortecem. Não por falta de fé, mas por excesso de cuidado.
Mas o apoio chega tão rápido que a frustração não tem tempo de ensinar. E, sem querer, passam a mensagem de que escolhas podem ser renegociadas a cada dificuldade, como se sustentar um “sim” fosse opcional, porque sempre haverá alguém para ajudar a recalcular a rota.
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O dinheiro costuma ser um excelente campo de treino para esse aprendizado.
Orçamentos raramente fracassam no Excel. Eles fracassam no cotidiano. No “só hoje”, no “esse mês foi atípico”, no “ano que vem eu organizo”. O dinheiro é um espelho pouco gentil que revela se o sim é convicção ou apenas desejo.
Com projetos acontece algo parecido. Dizer sim para uma ideia é empolgante. Sustentá-la exige atravessar a parte menos charmosa do processo: repetição, ajustes, erros, dúvidas e longos períodos sem aplauso. Muita gente abandona bons projetos não por falta de talento, mas por não tolerar o trecho silencioso do caminho.
Na carreira, o custo de não sustentar o sim costuma ser ainda mais alto. Sim ao desenvolvimento significa dizer não a atalhos. Sim ao aprendizado pede paciência com o começo. Autonomia só existe quando a pessoa sustenta as próprias escolhas.
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Trocas impulsivas de curso, de emprego ou de direção raramente são sinal de liberdade. Muitas vezes, são apenas dificuldade de sustentar escolhas quando elas começam a exigir mais do que entusiasmo.
Talvez o maior erro dos nossos tempos seja confundir maturidade com saber impor limites aos outros, sem assumir a responsabilidade de sustentar os próprios compromissos.
Maturidade, na prática, está em sustentar aquilo que escolhemos quando o entusiasmo acaba.
Por isso, neste começo de ano, vale inverter a pergunta clássica.
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Em vez de “a que eu vou dizer não?”, talvez seja mais honesto perguntar:
Qual sim eu estou disposto a sustentar quando ele parar de dar alívio e começar a cobrar maturidade?
E, para quem gosta de listas – porque listas ajudam a organizar o pensamento -, seguem cinco “sins” que valem a pena sustentar, mesmo quando perdem o charme:
1. Sim ao desconforto que ensina
Desconforto não é sinal de erro. Estudar quando cansa, insistir quando dá vontade de largar, continuar quando a dúvida aparece: isso não é fracasso, é processo. Quem foge de todo desconforto acaba preso ao conforto errado.
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2. Sim à realidade do dinheiro
O dinheiro não exige heroísmo, exige honestidade. Honestidade com o padrão de vida, com os limites e com o famoso “isso não cabe agora”. Sustentar esse sim é menos emocionante do que prometer mudanças e muito mais eficaz.
3. Sim ao projeto que cresce devagar
Projetos reais não viralizam no capítulo dois. Eles crescem no silêncio, no erro, na repetição e na revisão. Quem abandona cedo não fracassa: apenas não ficou tempo suficiente para dar certo.
4. Sim ao aprendizado que não dá status imediato
Cursos sem glamour, tarefas básicas, começos humildes. A carreira não avança por visibilidade instantânea, mas por competência acumulada.
5. Sim à responsabilidade pelas próprias escolhas
Este é o mais indigesto e o mais libertador. Responsabilidade não é culpa. É parar de terceirizar, parar de renegociar consigo mesmo e aceitar que toda escolha cobra manutenção.
Dizer não é fácil. Difícil, e profundamente transformador, é sustentar o sim.
Porque a verdadeira resolução não será o “não” decidido no começo do ano, mas a capacidade de sustentar o “sim” ao longo dos 365 dias deste ano que acaba de entrar.
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