Publicidade

Colunista

Série “Adolescência”: como o desamparo afeta a saúde mental e as finanças da Geração Z

Uma geração desorientada não é apenas um drama adolescente, mas um risco sistêmico

Série
Série "Adolescência" aborda uso de redes sociais e a psicopatologia da Geração Z. (Foto: Adobe Stock)

Eles não são apenas personagens da série “Adolescência“. São nossos filhos, alunos, vizinhos — e, cada vez mais cedo, consumidores, trabalhadores e devedores. A adolescência retratada na produção britânica que viralizou nos últimos dias não é ficção distante: é o espelho do que temos ignorado por aqui. E custa caro.

Por trás do bullying, das tribos e dos silêncios, há um pedido velado por limites, afeto e direção. Há uma geração Z acuada que se refugia nas telas, nos jogos de azar, nos desafios de curtidas e nos mundos paralelos das redes sociais.

Enquanto muitos pais se afastam, distraídos por suas próprias pressões ou perdidos entre culpas e permissividades, comportamentos financeiros arriscados passam despercebidos — até que o desastre chega. Apostas online, dívidas com agiotas, fraudes, furtos e até suicídios já são realidade entre jovens de todas as classes sociais, como venho alertando em minhas colunas. A escalada é silenciosa, mas brutal.

Publicidade

A escola, por sua vez, ainda patina ao lidar com um jovem que rejeita a autoridade, mas implora por presença. Falta escuta. Falta preparo. Falta coragem para lidar com temas urgentes — como saúde mental, escolhas profissionais, propósito de vida e educação financeira. Sim, porque autoestima e dinheiro também andam de mãos dadas.

Recentemente, uma mãe deu um depoimento devastador sobre seu filho ter sido protagonista em ataque a uma escola no Espírito Santo: “Não faltou amor, nem dinheiro. Mas meu filho não via um futuro.” A frase expõe com precisão a crise de sentido que atravessa a juventude atual. Porque não é só de afeto ou de estrutura material que os filhos precisam. Eles precisam acreditar que têm um lugar no mundo.

Série “Adolescência”: um retrato da geração Z

Essa crise existencial que afeta a nova geração é aprofundada por um desamparo generalizado. A série “Adolescência” tem sido amplamente discutida por abordar temas como bullying, uso de redes sociais e a psicopatologia da Geração Z.

No entanto, a trama revela um aspecto ainda mais alarmante: a falha das instituições fundamentais — escola, família, autoridades e a sociedade como um todo — em fornecer a contenção, direção e conexão necessárias aos jovens. Essa ausência de suporte efetivo leva adolescentes a buscar refúgio em comportamentos prejudiciais, ressaltando a urgência de uma rede de apoio mais presente e estruturada.

Pais e educadores desempenham um papel crucial nesse cenário. Mais do que prover recursos materiais, é essencial estar presente, ouvir atentamente, validar sentimentos e compreender os desafios enfrentados pelos jovens sem julgamentos. Esse acolhimento, aliado ao incentivo à autonomia, fortalece a autoconfiança dos adolescentes. Confiar em suas capacidades, estabelecer expectativas realistas e valorizar cada pequeno progresso são passos fundamentais. Além disso, ensinar valores como gratidão e generosidade — por meio de ações como a doação e o serviço ao próximo — promove respeito, empatia e uma visão positiva da vida.

Publicidade

Uma geração com baixa autoestima dificilmente consegue gerar renda de forma sustentável. É como pedir voo a quem nem sabe que tem asas. E isso vale para todas as idades. Mas, entre os mais jovens, o impacto é mais visível: muitos já não enxergam sentido em estudar ou trabalhar. Outros, superestimulados por modelos inatingíveis de sucesso fácil, pulam etapas e fracassam cedo — seja nas finanças, seja na vida.

Empresas e governos ainda não aprenderam a dialogar com a Geração Z. Ignorar suas angústias, valores e modos de operar é uma miopia que cobra juros altos. O futuro do trabalho passa por eles. A economia do cuidado, da criatividade, da tecnologia e da diversidade precisa deles. E não haverá inovação sem inclusão.

Como escrevi em artigos anteriores, não basta falar sobre os jovens — é preciso falar com eles. Orientar e acompanhar, sim. Controlar, não. Proteger, sim. Blindar, não. Incentivar o pensamento crítico, o autoconhecimento, a autoestima, a responsabilidade financeira e a busca por propósito é a melhor herança que podemos deixar.

Porque uma geração desorientada não é apenas um drama adolescente da série “Adolescência” — é um risco sistêmico. E, convenhamos, o mundo já está instável demais para ignorarmos mais um alerta.

Publicidade

Encontrou algum erro? Entre em contato

O que este conteúdo fez por você?