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Colunista

Tarifaço dos EUA: dificuldades para o mundo e as oportunidades para o Brasil

Guerra tarifária instaurada pelos EUA eleva cautela mundial, mas abre margem para benefícios comerciais

Por Bruno Funchal

09/04/2025 | 9:24 Atualização: 09/04/2025 | 11:10

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Entenda os impactos das tarifas dos EUA para o Brasil. (Foto: Adobe Stock)
Entenda os impactos das tarifas dos EUA para o Brasil. (Foto: Adobe Stock)

Dia 2 de abril foi um dia marcante para a economia mundial. Os Estados Unidos anunciaram aumentos substanciais nas tarifas de importação para todo o mundo, redesenhando uma nova ordem mundial para comércio com impacto ainda difícil de ser previsto com precisão. O aumento médio das tarifas impostas fica ao redor de 20 pontos percentuais, com uma tarifa mínima de 10 p.p. por pais, elevando a tarifa a um nível mais alto desde 1909 na economia americana.

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Apesar de ser difícil de fazer qualquer previsão neste momento, dadas as respostas que serão dadas pelos países, como a dura retaliação da China e a resposta da União Europeia (anunciada no momento que escrevo esta coluna), algumas consequências macroeconômicas podem ser previstas a partir da hipótese de que o mundo está mais fechado ao comercio global.

Desde a década de 80, o mundo vive movimentos de globalização, com uma China mais aberta, o fim da União Soviética, a maior integração entre países vizinhos e blocos econômicos para comércio, como União Europeia, Nafta, Mercosul e Asean. Essa maior integração trouxe ganhos no crescimento e na geração de renda. De acordo com uma publicação do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2007, essa maior integração traz um aumento médio de crescimento de 1,5 a 2 pontos percentuais por ano.

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Esse movimento de integração tem sido diminuído, em vários sentidos, tanto em relação a questões imigratórias quanto a comerciais. O exemplo mais recente foi o Brexit. Os efeitos têm sido significativos para a Inglaterra, sendo estimado um Produto Interno Bruto (PIB) de longo prazo de 3% a 6% menor do que sem o Brexit, 20% menos comércio e de 20% a 30% menor investimento estrangeiro, por conta desse movimento.

A partir disso, podemos dizer que é possível esperar uma desaceleração da economia americana e da economia global, vinculada à magnitude da guerra tarifária, e que o aumento de preços que podem se traduzir em inflação.

Algumas estimativas já começam a ser feitas, apontando uma queda de PIB americano em torno de 2%, e de 1% do PIB global. Em paralelo, aumentos de preços podem afetar os americanos diretamente.

O S&P 500 caiu mais de 9% em dois dias, enquanto que a Treasury (títulos emitidos pelos EUA) de 10 anos se valorizava, indicando uma busca por ativos mais seguros. Investidores temem que as tarifas dos EUA possam desencadear uma guerra comercial global, aumentar a inflação e reduzir o crescimento econômico, possivelmente forçando o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) a cortar taxas de juros, apesar das pressões inflacionárias.

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A retaliação da China e da UE traz mais um elemento de volatilidade e de desvalorização para os mercados. Em paralelo, aumentos de preços podem afetar os americanos diretamente. De acordo com o Yale Budget Lab, o cidadão médio americano pode enfrentar um aumento de preços de 2,3%, o que representa um aumento médio de gasto anual de USD 3.800.

Como o Brasil será afetado pelas tarifas dos EUA?

Esses efeitos se espalham de forma bastante heterogênea em todo o mundo, dependendo de quão afetado foi cada país. O Brasil é um bom exemplo de quem pode acabar se beneficiando, no relativo, apesar de encarar um mundo com maiores preços e menor crescimento. O Brasil acabou sendo “premiado” com a tarifa mínima de 10%

Com essa reconfiguração no tabuleiro comercial global, agora é hora de analisar as oportunidades que surgem e como aproveitar as mudanças de preços relativos que fazem com que nossos produtos fiquem mais baratos que os asiáticos para aumentar o comercio com os Estados Unidos. Além disso, aproveitar os novos preços relativos para aumentar nossas penetrações na Asia em substituição aos produtos americanos.

Alguns exemplos surgem de imediato. O setor de calçados pode se beneficiar da redução brutal de competitividade dos produtos asiáticos da China, Vietnam e Indonésia nos Estados Unidos, bem como produtos têxteis e de vestuário com a maior taxação da India e de Bangladesh, e, da mesma forma, a exportação de aviões pode ser beneficiada com a maior taxa sobre produtos do Canada, uma vez que a canadense Bombardier é a principal concorrente da Embraer.

Na Ásia, com a China reagindo às tarifas americanas, o Brasil pode ampliar suas exportações à China em várias frentes como a soja, que já foi beneficiada na guerra comercial em 2018. A China tende a evitar a soja americana por questões de segurança alimentar e geopolítica.

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Outros setores potencialmente beneficiados são papel e celulose e minério. Assim, a realocação de cadeias globais, com EUA e China reduzindo o comércio entre si, abre espaço para exportadores alternativos ocuparem nichos tanto nos EUA quanto na China — e o Brasil pode se posicionar bem em alguns desses casos.

Com todos esses movimentos de grande magnitude é muito difícil estimar o efeito exato, até porque precisamos saber onde as negociações vão acabar, mas uma coisa é certa, teremos um futuro com mais volatilidade e com um volume de comercio menor, com menor integração entre os países. Isso leva a um crescimento global menor que nos afeta, mas pode ser suavizado se for bem administrado e se nossa liderança souber aproveitar as oportunidades dessa nova ordem mundial de comercio com as tarifas dos EUA.

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