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Colunista

Como a disparada recente do dólar vai impactar os balanços das empresas

Despesa financeira poderá reduzir em mais de 60% o lucro EBIT do segundo trimestre

Por Einar Rivero

24/07/2024 | 15:21 Atualização: 24/07/2024 | 15:21

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De abril a junho de 2024, a cotação do dólar teve registrou uma alta de 11,26%. (Foto: Zuev Ali em Adobe Stock)
De abril a junho de 2024, a cotação do dólar teve registrou uma alta de 11,26%. (Foto: Zuev Ali em Adobe Stock)

Ao longo do segundo trimestre deste ano (abril a junho), o dólar teve registrou uma alta de 11,26% – a nossa referência aqui é o Dólar Ptax (taxa de referência para as operações de câmbio no mercado financeiro, calculada pelo Banco Central). Como essa valorização da moeda americana impactou os resultados das empresas brasileiras no mesmo período?

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Ainda não temos resposta definitiva, mas, com base nos demonstrativos financeiros padronizados que as companhias de capital aberto entregam à CVM (Comissão de Valores Mobiliários), já conseguimos estimar o tamanho desse impacto.

Vejamos, antes, os critérios adotados para a análise. Primeiro, consideramos as empresas que informaram sua dívida em moeda estrangeira de curto e de longo prazo dentro do plano padrão de contas definido pela CVM. A amostra compreende, portanto, 105 empresas de capital aberto. Outras 67, que não divulgaram dados referentes ao primeiro trimestre, ficaram de fora – dentre elas, Petrobras (PETR4), Vale (VALE3), CSN (CMIN3), Marfrig (MRFG3), Neoenergia (NEOE3) e Raízen (RAIZ4).

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Segundo, levamos em conta que 100% da dívida em moeda estrangeira das empresas foi contraída em dólares. Embora, na prática, as empresas possuam coberturas cambiais, como hedge cambial ou hedge natural, para este levantamento desconsideramos esses instrumentos financeiros. Além disso, a cotação da moeda americana utilizada é a da taxa Ptax; em 31 de março de 2024 ela estava em R$ 4,996 e saltou para R$ 5,559 em 30 de junho último.

Dívida em moeda estrangeira

A dívida total bruta dessas 105 empresas é de R$ 875,16 bilhões, dos quais R$ 295 bilhões, ou 33,7%, foram adquiridos em moeda estrangeira. O endividamento de curto prazo é de R$ 60,5 bilhões e o de longo prazo é de R$ 234,4 bilhões, o que representa, respectivamente, 20,5% e 79,5%.

Impacto da variação cambial

Considerando que toda a dívida em moeda estrangeira foi contraída em dólares, o estoque total em março, quando se encerrava o primeiro trimestre, era de US$ 59 bilhões, com o Dólar Ptax Venda a R$ 4,996.

Porém, no segundo trimestre, o Dólar Ptax subiu para R$ 5,559, uma valorização de 11,26%. Assim, mantido o mesmo estoque, estima-se que a dívida total em moeda estrangeira dessas 105 empresas tenha passado de R$ 295 bilhões para R$ 328,3 bilhões.

Essa despesa financeira “extra” de R$ 33,2 bilhões, fruto da variação cambial, representa 62,5% do lucro EBIT (lucro antes dos juros e tributos) das empresas no primeiro trimestre de 2024, que foi de R$ 53,1 bilhões.

Liquidez e caixa

O caixa das 105 empresas analisadas foi de R$ 288,2 bilhões no primeiro trimestre, equivalente a 97,69% do total da dívida em moeda estrangeira. A relação caixa versus dívida de curto prazo em moeda estrangeira era de 4,76 vezes. Já a dívida líquida ficou em R$ 586,8 bilhões.

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Empresas sem cobertura adequada podem ver seus custos aumentarem substancialmente devido à depreciação da moeda local. Os dados vistos até aqui deixam claro como a gestão de risco cambial é imprescindível para minimizar efeitos adversos da volatilidade do câmbio nos balanços das empresas. Entram aí estratégias como o hedge cambial, que envolve contratos futuros ou opções para travar a taxa de câmbio, e o hedge natural, pelo qual empresas tentam equilibrar receitas e despesas na mesma moeda.

Resta pouca dúvida de que a valorização do dólar no último trimestre irá impactar significativamente o lucro EBIT das empresas não financeiras, afetando, por conseguinte, seu lucro final. A despesa extra gerada pela variação cambial tem o potencial de corroer uma parte importante dos lucros, o que, na ausência de alguma estratégia de cobertura cambial, pode afetar negativamente não apenas o balanço das companhias, mas também sua capacidade de investimento e expansão.

Gestão proativa e eficaz desses riscos é essencial para assegurar a estabilidade financeira das empresas em um ambiente econômico globalizado. A projeção de impacto do dólar feita aqui sublinha a necessidade de medidas robustas para proteger as empresas contra as oscilações do mercado e garantir a continuidade dos negócios mesmo em condições econômicas desafiadoras.

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