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Colunista

Empresas da B3 voltam a valer R$ 5 trilhões e reacendem o debate sobre um novo ciclo no mercado brasileiro

Alta histórica do Ibovespa reflete reprecificação de ativos, fluxo estrangeiro e uma mudança gradual na percepção de risco sobre o Brasil

Por Einar Rivero

22/01/2026 | 11:00 Atualização: 22/01/2026 | 9:01

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Observar o Ibovespa é olhar para o preço. Observar o valor de mercado agregado da bolsa é olhar para o ciclo. (Imagem: Adobe Stock)
Observar o Ibovespa é olhar para o preço. Observar o valor de mercado agregado da bolsa é olhar para o ciclo. (Imagem: Adobe Stock)

O pregão de 21 de janeiro de 2026 não foi apenas mais um dia de alta para o mercado acionário brasileiro. Com valorização de 3,33%, o Ibovespa registrou a quarta maior alta diária desde janeiro de 2021 e a mais expressiva desde abril de 2023, segundo levantamento da Elos Ayta. O índice encerrou o dia aos 171.816,67 pontos, renovando sua máxima histórica pela terceira vez no ano.

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O número chama atenção, mas o movimento ganha real dimensão quando observado fora da lente do curto prazo. No mesmo pregão, o valor de mercado total das empresas listadas na B3 voltou a superar R$ 5 trilhões, patamar que não era visto desde 27 de setembro de 2021, quando o mercado brasileiro ainda surfava os efeitos combinados da recuperação pós-pandemia e de uma intensa onda de IPOs.

Não se trata de coincidência. O Ibovespa sobe porque o mercado brasileiro, como um todo, volta a ser precificado de forma menos defensiva.

O que está por trás da alta em 2026

Analistas convergem em um ponto central: o rali do Ibovespa em 2026 não nasce de um fator isolado, mas da convergência entre fluxo externo, valuation e composição setorial.

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O primeiro vetor vem de fora. Nos Estados Unidos, o mercado passou a operar com maior previsibilidade em relação à política monetária. A percepção de que o ciclo de juros se aproxima de um platô, ou ao menos de uma fase menos restritiva, reduz o prêmio pago pelos ativos considerados livres de risco e reabre espaço para a realocação de capital em mercados emergentes.

É nesse contexto que o Brasil reaparece no radar. O País combina três atributos raros em um cenário global ainda cauteloso: empresas grandes, líquidas, geradoras de caixa e negociadas a múltiplos historicamente baixos. O resultado aparece no fluxo: em janeiro de 2026, o saldo líquido de capital estrangeiro já supera R$ 7,5 bilhões, indicando uma mudança clara de postura do investidor internacional.

No plano doméstico, o mercado se beneficia de uma característica estrutural do Ibovespa: sua elevada exposição a setores menos sensíveis ao ciclo econômico de curto prazo. Bancos, energia, commodities e utilities funcionam, neste momento, como uma âncora de previsibilidade em um mundo ainda marcado por incertezas.

O pregão do dia 21 sintetiza esse movimento. Apenas uma ação da carteira do índice fechou em queda (TIMS3), enquanto o restante acompanhou a alta. O destaque ficou com a COGN3, que avançou 10,96%, maior valorização diária do papel, em um movimento típico de recuperação de ativos que ficaram excessivamente pressionados em ciclos anteriores.

Valor de mercado: o indicador que revela o ciclo

Observar o Ibovespa é olhar para o preço. Observar o valor de mercado agregado da bolsa é olhar para o ciclo.

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Em 23 de janeiro de 2020, pouco antes do choque da pandemia, as empresas listadas na B3 somavam R$ 4,78 trilhões em valor de mercado. Dois meses depois, no auge do pânico global, esse montante caiu para R$ 2,72 trilhões, em 23 de março de 2020. Não foi apenas uma correção: foi uma destruição abrupta de valor, refletindo a suspensão quase completa das expectativas econômicas.

O movimento seguinte, em 2021, foi igualmente extremo, mas na direção oposta. A combinação de recuperação econômica, liquidez global abundante e uma onda inédita de IPOs levou o valor de mercado da bolsa ao recorde histórico de R$ 5,68 trilhões em julho daquele ano.

Desde então, o mercado passou por um longo período de acomodação. Juros elevados, deterioração fiscal e maior aversão ao risco global comprimiram preços e limitaram a expansão do valor agregado das empresas.

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O retorno ao patamar de R$ 5 trilhões em 2026, portanto, carrega um significado distinto. Diferentemente de 2021, o movimento atual não é inflado por novas ofertas em massa, mas pela reprecificação dos ativos já existentes, impulsionada por fluxo estrangeiro e melhora gradual da percepção de risco.

Vale ressaltar que o cálculo do valor de mercado considera todas as empresas listadas em cada data, independentemente de ainda estarem ativas, o que torna a série histórica um retrato fiel dos ciclos de expansão e contração do mercado de capitais brasileiro.

Brasil e EUA: uma dinâmica interligada

O avanço do Ibovespa em 2026 não é um fenômeno isolado, nem exclusivamente doméstico. Ele reflete uma engrenagem global em que juros americanos, apetite ao risco e fluxo de capitais operam de forma sincronizada.

Com os Estados Unidos oferecendo menor retorno marginal ajustado ao risco e o Brasil apresentando ativos descontados, dividendos elevados e empresas resilientes, o capital internacional volta a encontrar justificativa econômica, e não apenas tática, para se posicionar no mercado brasileiro.

Se esse fluxo se mantiver, o movimento observado em janeiro pode representar mais do que um rali pontual. Pode sinalizar o início de uma fase em que a bolsa brasileira volta a recuperar valor de forma mais estrutural, menos dependente de euforia e mais ancorada em fundamentos.

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Em mercado, isso costuma ser o tipo de alta que não faz barulho no começo, mas deixa marcas duradouras nos gráficos de longo prazo.

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