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Colunista

“Faltam mudanças estruturais de alto impacto”, diz consultor de Orçamento da Câmara após pacote fiscal

Representantes da Câmara discutem uma “PEC Alternativa" para melhora do cenário fiscal

Por Erich Decat

09/12/2024 | 16:15 Atualização: 09/12/2024 | 18:16

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Pacote fiscal do governo ainda gera dúvidas no mercado. (Foto: Adobe Stock)
Pacote fiscal do governo ainda gera dúvidas no mercado. (Foto: Adobe Stock)

Nos últimos dias, o pacote de corte de gastos do ministro Fernando Haddad (Fazenda) tem sido o foco das atenções em Brasília e no mercado financeiro. As propostas apresentadas, no geral, foram consideradas “tímidas”, o que provocou uma disparada na cotação do dólar e pressão na taxa de juros futuros. No paralelo, representantes da Câmara apresentaram uma “Proposta de Emenda à Constituição (PEC) Alternativa”. Para começar a tramitar, ela precisa ter assinaturas suficientes dos congressistas.

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Confira os principais pontos da PEC no bate papo realizado com o consultor de Orçamento da Câmara, Paulo Bijos. Ele foi secretário de Orçamento Federal do ministério do Planejamento até o último mês de julho e participou da elaboração da proposta.

Em linhas gerais, qual é o diagnóstico que o senhor faz do pacote apresentado pelo governo? O que tem de positivo e o que faltou?

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O pacote se apresenta como o resultado politicamente possível alcançado no âmbito do Poder Executivo. Mas a leitura dominante foi de que as medidas anunciadas são insuficientes diante do tamanho do desafio fiscal do País. Esse também é o meu diagnóstico.

Nesse contexto, considero que o lado positivo foi o governo ter dado os primeiros passos na direção da contenção estrutural do gasto público. Mas o que há de substantivamente estrutural é muito pouco. O que falta, então, é promover mudanças estruturais de alto impacto.

  • Leia mais:  Pacote de Haddad vai cobrar imposto sobre dividendos, mas não da maneira que você pensa. Veja exemplos

A “PEC Alternativa” foi considerada mais dura no aspecto da busca do equilíbrio fiscal. No que ela difere da que foi apresentada pelo governo?

A diferença tem muito a ver com a pergunta anterior. A PEC alternativa, proposta pelos Deputados Júlio Lopes, Kim Kataguiri e Pedro Paulo, é essencialmente estrutural e tem maior potência fiscal. O pacote do governo é apenas timidamente estrutural.

Vejamos um exemplo concreto. O pacote do governo propõe uma “microdesvinculação” entre receitas e despesas, restrita apenas ao caso do Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF) e com baixo impacto fiscal. Já a PEC alternativa propõe uma ampla desvinculação de receitas, que alcançaria os pisos da saúde, da educação e da complementação da União ao Fundeb, com alto impacto fiscal.

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Além disso, a PEC de autoria dos referidos deputados propõe a desindexação de despesas frente ao salário mínimo. Essa medida é essencial para equilibrar as contas públicas de forma duradoura.

A PEC Alternativa também dá um enfoque na questão dos subsídios. Qual é a ideia central da proposta, neste ponto? Haveria uma transição?

A ideia é colocar em marcha um processo de redução de 10% no valor dos subsídios tributários de 2026 a 2031, com diminuição mínima de 2% já no primeiro ano. Esse parâmetro de largada é crível. Nos anos seguintes, a redução mínima seria de 1,25% a.a.

Nessa proposta, como é abordada a questão das emendas parlamentares?

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As emendas passariam a observar um limite global fixado como percentual das despesas discricionárias. Vale enfatizar que a substituição da receita corrente líquida (RCL) pelas despesas discricionárias, como base de cálculo para emendas, não é uma mudança meramente formal. Ela altera de forma muito positiva o sistema de incentivos no âmbito do Poder Legislativo.

Pelas regras atuais, independentemente de haver um quadro crítico das despesas discricionárias, as emendas estão garantidas, e isso tende a criar um ambiente de inação no que tange ao controle das obrigatórias. Já nos termos da PEC, que limita as emendas a percentual das despesas discricionárias, haveria maior incentivo para o Congresso Nacional controlar o crescimento das despesas obrigatórias e evitar o estrangulamento das discricionárias. Assim as emendas seriam preservadas.

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E os supersalários. Como ficariam?

As indenizações seriam limitadas a 30% do valor do subsídio dos Ministros do STF. Afinal, é por meio das indenizações que se dá margem para supersalários. Não se questiona a legitimidade em tese das indenizações. Mas é preciso que haja um teto que discipline esse processo, a fim de evitar a incorporação de valores acima do razoável.

Outro tema que tem tido reações até dentro da base aliada é o que trata dos benefícios sociais. A PEC Alternativa traz mudanças nesta área ou isso deve ficar para futuros Projetos de Lei e Projetos de Lei Complementar?

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Traz mudanças no valor futuro de benefícios sociais por meio da desindexação de despesas previdenciárias e do BPC frente ao valor do salário mínimo. Isso viabilizaria a desaceleração do crescimento de despesas previdenciárias com impactos fiscais substantivos.

Por fim, somando tudo o que está proposto na PEC Alternativa, quais são as estimativas de impacto que vocês têm no curto, médio e longo prazo?

A PEC institui o Programa de Equilíbrio Fiscal Estrutural (PEFE) prevendo que, de 2026 a 2031, as despesas objeto de revisão seriam atualizadas apenas pela inflação, sem ganhos reais. Com esse freio de arrumação, somado às demais medidas da PEC, a economia potencial estimada é de R$ 1,1 trilhão em seis anos. Os valores anuais são crescentes e se iniciam com economia de R$ 70 bilhões em 2026.

Já para o longo prazo, a resposta depende das hipóteses adotadas, tendo em vista que a PEC prevê uma sistemática de revisão de critérios de despesas em ciclos de médio prazo. Na hipótese de manutenção da correção de despesas apenas pela inflação, em 10 anos a economia potencial seria da ordem de R$ 3 trilhões. Mas achamos mais realista e prudente trabalhar com projeções de médio prazo.

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A PEC está em foco, afinal, tem como uma de suas características centrais o chamado “fator democrático”. Cada Presidente eleito poderia propor novos critérios de reajustes de despesas no 1º ano de seu mandato. Isso também criaria um ambiente institucional mais favorável à incorporação de aprendizados em políticas públicas e retroalimentação do planejamento de médio prazo com maior realismo e disciplina fiscal.

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