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Multiplicando Sonhos

Evandro Mello é CEO e fundador da Multiplicando Sonhos, associação sem fins lucrativos que tem como missão transformar a vida de jovens de escolas públicas através da educação financeira. Nascido na zona leste de São Paulo, é graduando em administração com ênfase em Comércio Exterior e estuda Psicologia Econômica e Tomada de Decisão.

Escreve aos sábados, a cada 15 dias

Evandro Mello

Como levar a educação financeira para dentro dos lares brasileiros?

O comportamento dos pais em relação às finanças afeta diretamente a visão dos filhos sobre o tema

É necessário planejamento financeiro para toda a família (FOTO: Envato Elements-DragonImages)
  • Um estudo mostrou que 60% das pessoas nunca falam sobre dinheiro e 49% evita até mesmo de pensar sobre o assunto para não ficar triste
  • Quando é assunto, o dinheiro na maioria das vezes aparece de forma negativa: a necessidade de economizar, as restrições da família, os problemas relacionados às dívidas e por aí vai
  • Do ponto de vista da neurociência, essa herança negativa de comportamento é explicada porque tendemos a relacionar alguns temas aos sentimentos que eles nos trazem

Um estudo realizado em 2017 pelo Itaú Unibanco com mais de 2 mil pessoas espalhadas por 130 municípios brasileiros mostrou que 60% das pessoas nunca falam sobre dinheiro e 49% evitam até mesmo pensar sobre o assunto para não ficar triste.

Um percentual alarmante de 98% dos jovens brasileiros afirma ter dificuldade em lidar com o seu dinheiro. Mesmo não falando sobre o assunto, 41% ajudam os pais financeiramente.

Pelas minhas andanças nas escolas de São Paulo, pude ver que falar de dinheiro é mesmo um assunto pouco discutido dentro das casas e comprovei isso também em um estudo feito pelo banco Wells Fargo dos Estados Unidos, que falar sobre dinheiro é mais difícil do que falar sobre sexo, morte, religião ou política. Isso porque existe um grande tabu que envolve esse tema e muitas vezes transcorre gerações.

Você mesmo pode perceber isso: os temas anteriormente mencionados são muito mais fáceis de serem encontrados em uma roda de conversa entre amigos do que dinheiro, remuneração ou dívidas, por exemplo. As pessoas têm medo de gerar algum ressentimento ou inveja ao expôr o bom salário que têm, ou sentem excluídos ou com vergonha de divulgar que sua remuneração é mais baixa que a do amigo.

Isso é comprovado em uma pesquisa quantitativa do Datafolha, onde 89% dos brasileiros concordam com a frase: “Todo mundo diz que dinheiro não é tudo, mas se você aparecer mal vestido ou com um carro velho em frente aos amigos, todo mundo vai reparar”. Já 90% dos entrevistados concordam que ganhar mais dinheiro desperta inveja nas outras pessoas.

Além disso, muitas vezes o dinheiro está ligado a sentimentos negativos, seja de culpa pela posse ou incompetência pela falta. Ser capaz de se sustentar e sustentar a sua família é algo que mexe diretamente com a autoestima do ser humano desde o nosso surgimento, quando era preciso caçar e lutar pela sobrevivência.

Dentro dos lares, a falta de diálogo sobre o tema também é comum, apesar do compartilhamento da renda. Muitos filhos não sabem exatamente quanto ganham seus pais e, às vezes, até mesmo as esposas não sabem o valor do holerite de seus maridos. Quando o assunto é dinheiro, na maioria das vezes ele aparece de forma negativa: a necessidade de economizar, as restrições da família, os problemas relacionados às dívidas e por aí vai.

“Na verdade, o dinheiro é um assunto bastante comentado dentro dos lares brasileiros, principalmente pela sua falta. O que é pouco discutido é o planejamento financeiro”,diz André Massaro, professor de finanças e conselheiro da Multiplicando Sonhos. Segundo ele, a maioria das famílias brasileiras são deficientes do ponto de vista de planejamento, o que acaba perpetuando uma situação de instabilidade.

Do ponto de vista da neurociência, essa herança negativa de comportamento é explicada porque tendemos a relacionar alguns temas aos sentimentos que eles nos trazem a partir das experiências que vivemos desde a infância, explica Renata Taveiros de Saboia, neuroeconomista e conselheira da Multiplicando Sonhos.

Funciona assim: se nosso cérebro associa um tema a sentimentos bons, automaticamente identificamos aquilo como positivo e prazeroso. Caso contrário, tendemos a fugir e nos sentir incomodados ou ameaçados por aquilo.

Isso significa que, se os pais têm um comportamento negativo em relação ao dinheiro, mencionando-o sempre como algo sujo, fazendo dele motivo de conflito e/ou atrelando-o diretamente à dívidas e escassez, esses conceitos ficarão gravados nos modelos inconscientes dos cérebros dos filhos.

A partir disso, os jovens tendem a repetir o comportamento dos pais ou ir totalmente contra eles. Por exemplo, se a criança sofreu muita repressão financeira na família, ou ele seguirá esse modelo de viver sempre poupando ou acreditando que não tem dinheiro, ou ele, no momento em que tiver sua liberdade financeira, vai extravasar todas as suas vontades reprimidas, tendendo ao descontrole.

Já no caso contrário, se a família é muito indisciplinada com o dinheiro e a criança cresce em meio à essa instabilidade, quando adulta, ela pode seguir esse padrão ou se tornar uma pessoa extremamente preocupada e avarenta em relação às suas finanças. Em nenhum dos casos, se trata de uma relação saudável. Esta só é criada a partir da consciência.

Já que o tema é pouco discutido dentro de casa, para trazer o tema para a consciência e criar uma relação saudável com o dinheiro, é preciso programas de educação financeira. Na Multiplicando Sonhos, entendemos que um bom método para isso começar é nas escolas e com os jovens, já que eles estão iniciando a vida adulta e geralmente têm mais abertura para aprender ou reaprender hábitos.

A ideia é que não somente adquiram esse aprendizado, mas também levem esses conceitos para dentro de suas casas e gerem então uma transformação em toda a família. “A educação financeira familiar é um dos maiores desafios que temos hoje. Não adianta você educar financeiramente uma criança ou adolescente se ele não tiver suporte para colocar isso em prática dentro do lar”, explica Massaro.

Na casa de Selma Bortolli, 59 anos, autônoma, foi exatamente assim. O tema planejamento financeiro só chegou à mesa quando seu filho, João Victor, passou a participar das aulas da Multiplicando Sonhos na escola estadual em que estudava, em São Miguel Paulista. E por sorte, foi muito bem digerido.

“Levávamos uma vida mais restrita e sem planejamento. Eu tinha uma relação de culpa com o dinheiro e costumava encobrir os problemas financeiros”, lembra Selma. “Quando o João Victor chegou em casa depois da primeira aula do programa da Multiplicando Sonhos, ele estava empolgado falando sobre como era possível guardar dinheiro mesmo ganhando pouco e abriu meus olhos para isso também”, comenta.

Incentivada pelo filho, Selma começou a olhar o dinheiro de outra forma. Passou a utilizar planilhas no lava-rápido que administra e se preocupar efetivamente com custo e lucro do serviço que oferece, coisas que antes eram feitas sem nenhum planejamento.

Dentro de casa, a rotina também mudou: se antes ela fazia compras extravagantes quando tinha dinheiro e depois era obrigada a comprar carne “de segunda” quando o dinheiro apertava, agora ela busca manter uma média que a garanta estabilidade no longo prazo. “Dessa forma evito viver entre picos altos e baixíssimos, como era antes”, explica.

No final das contas, a educação financeira é muito mais do que matemática e fazer sobrar: é uma questão de mudança de comportamento. Que tal usar o diálogo dentro de casa como uma ferramenta de transformação? Você costuma conversar sobre finanças? De que forma?

Colaboração: Giovanna Castro

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