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Colunista

Como atrair o capital de finanças climáticas para o Brasil?

Iniciativas que alinhem os interesses de atores públicos e privados, como blended finance, podem ser uma solução

Por Fernanda Camargo

25/10/2022 | 15:40 Atualização: 25/10/2022 | 15:40

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Investimentos em finanças climáticas vêm crescendo se tornando relevantes para diversos atores do mercado | Foto: Envato Elements
Investimentos em finanças climáticas vêm crescendo se tornando relevantes para diversos atores do mercado | Foto: Envato Elements

A ciência da mudança climática é clara: somente uma ação coordenada e convicta irá prevenir consequências desastrosas para a população e a economia mundial. Se continuarmos fazendo (quase) nada para cortar as emissões globais em 50% até 2030, não vamos conseguir limitar o aquecimento global a 1,5°C. Isso parece pouco, mas já causaria um sofrimento humano incalculável e prejuízos na ordem de centenas de trilhões de dólares, desestabilizando economias, especialmente países em desenvolvimento.

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Segundo estudo da McKinsey, atualmente cerca de 80% do investimento privado em infraestrutura em países de renda média e baixa foi nos setores de energia não renovável e transporte. Globalmente, esses setores estão entre os maiores emissores de CO2. E embora as indústrias de combustíveis fósseis tenham gerado a maior parte da riqueza para investidores privados nas últimas duas décadas, elas estão prestes a se tornar menos atraentes à medida que o esforço global para descarbonizar incorpora metas de carbono zero nos planos econômicos de muitos países.

Segundo o International Institute of Finance (IIF), espera-se que os fluxos de financiamento climático privado para os mercados emergentes ultrapassem US$ 14 bilhões em 2022, mas eles ainda representam apenas 2% do total de fluxos de capital de mercados emergentes.

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Os países da OCDE, grupo das economias mais avançadas do mundo, já se comprometeram com planos nacionais para reduzir suas emissões e adaptar a mudanças climáticas, como parte do Acordo de Paris. Mas esse esforço global só será bem-sucedido se países em desenvolvimento também fizerem sua parte e aumentarem muito o nível de investimentos em transição climática.

O investimento anual em energia limpa em economias emergentes e em desenvolvimento precisa aumentar mais de sete vezes – de menos de US$ 150 bilhões no ano passado para mais de US$ 1 trilhão até 2030 para colocar o mundo no caminho certo para atingir emissões líquidas zero até 2050. As informações são do relatório Financiando Transições de Energia Limpa em Economias Emergentes e em Desenvolvimento do IEA (International Energy Agency).

A menos que uma ação muito mais forte seja tomada, as emissões de dióxido de carbono relacionadas à energia dessas economias – que estão principalmente na Ásia, África e América Latina – devem crescer em 5 bilhões de toneladas nas próximas duas décadas.

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Investimentos em finanças climáticas vêm crescendo rapidamente no mundo e se tornaram relevantes para atrair o olhar de diversos atores do mercado: mais de US$ 640 bilhões foram investidos globalmente em 2020. Três quartos dos investimentos climáticos globais foram concentrados no Leste Asiático e Pacífico, Europa Ocidental e América do Norte, enquanto as regiões restantes receberam menos de um quarto.

O Leste Asiático e Pacífico representaram quase metade (US$ 292 bilhões) dos investimentos climáticos globais rastreados em 2019/2020. Estima-se que 81% dos investimentos na região do Leste Asiático e Pacífico estejam concentrados na China.

Desse montante, a quantia destinada à América Latina foi minúscula, menos de 6% do total. Apesar do Brasil ter uma maior representação na economia da região, o mercado de capitais mais consolidado e amplo acesso a fontes de energia renováveis, estamos perdendo a chance de ser o grande protagonista da região nessa transição climática. De um total de US$ 33 bilhões emitidos em títulos verdes (green bonds) na América Latina, somente US$ 11 bilhões vieram do Brasil (atrás do Chile).

Além da falta de investimentos do setor privado, precisamos de ambição política para mudar o status quo e introduzir novas regulações. A falta de uma taxonomia ambiental para a economia também prejudica a transição para uma economia verde.

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Essa taxonomia facilitaria por exemplo, a rotulação de produtos financeiros sustentáveis, como fundos de investimento, e daria mais confiança a investidores que queiram aproveitar oportunidades de investimento no tema.

Tanto o setor privado quanto público podem e devem fazer mais. Uma das alternativas é o Blended Finance (financiamento customizado) – o uso estratégico de diferentes tipos de capital, tanto público como privado, capital catalítico, dívida subordinada, participação em resultados, associados ao capital intelectual (assistência técnica) para o desenvolvimento de negócios sustentáveis nos países em desenvolvimento.

Iniciativas como o BNDES Blended Finance, anunciado em setembro deste ano, podem alavancar o capital investido e atrair a participação de investidores tradicionais. Nesse modelo, utilizam recursos não reembolsáveis e filantropia visando engajar capital de terceiros para realização de iniciativas com impacto socioambiental.

Essas estruturas híbridas podem combinar instrumentos diversos para apoio aos projetos, como por exemplo: dívida, equity, garantias, seguros, programas ou fundos garantidores, grants, pagamento por resultados e assistência técnica. Desse modo, melhoram o perfil de risco e retorno de projetos que teriam dificuldade de atrair capital.

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Essa não é a única solução, mas pode ser o empurrão inicial para que investidores institucionais saiam da inércia e comecem a olhar seriamente para o tema. A nossa economia e ambiente futuros dependem disso.

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