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Confronto EUA e China: a nova lógica da disputa entre as potências

Tarifas perderam espaço para os controles de exportação e a corrida tecnológica — sinal de uma rivalidade que redefine a economia global

Por Marcelo Toledo

22/10/2025 | 16:13 Atualização: 22/10/2025 | 16:13

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Tensões entre EUA e China dominam o debate nas reuniões do FMI. (Foto: Adobe Stock)
Tensões entre EUA e China dominam o debate nas reuniões do FMI. (Foto: Adobe Stock)

Duas vezes por ano, durante as reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial ocorrem conferências paralelas que reúnem autoridades, investidores e acadêmicos para debater temas relacionados à economia global e mercados financeiros.

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Em abril desse ano, todas as atenções estavam voltadas para as chamadas “tarifas recíprocas” que os EUA haviam anunciado. Foi justamente na semana das reuniões do FMI que houve uma inflexão no posicionamento americano, para uma postura de abrir negociações e pausar as tarifas mais radicais. Dessa vez, a questão tarifária teve papel muito menos relevante. O grande tema para a economia global, no momento, são as disputas econômicas e em outras áreas entre EUA e China.

Colocada de forma simplificada, essa disputa envolve dois pontos principais:

  1. Desconectar as economias nos setores considerados estratégicos ou críticos (especialmente nas áreas de computação e militar);
  2. Reequilibrar a produção e comércio de bens (os EUA entendem que perderam a liderança na indústria global e desejam recuperar terreno).

Existem dois instrumentos, pelo lado dos EUA, que têm sido utilizados para perseguir esses objetivos: controles de exportação e tarifas. A China, por sua vez, é acusada de utilizar o controle da taxa de câmbio e subsídios para seguir apoiando sua expansão industrial global. Entretanto, o país asiático também tem grandes trunfos para utilizar no campo dos controles de exportações e medidas recentes tornaram a situação crítica.

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Aqui me permito uma pequena digressão para sugerir um livro relativamente conhecido, A Guerra dos Chips, que conta uma história rica sobre as disputas envolvendo a tecnologia de computação. Essas disputas são tanto econômicas quanto militares. Os EUA sempre estiveram de um lado dessa disputa, travada inicialmente com outros países, mas que se concentrou na rivalidade com a China na última década.

  • Leia também: Guerra comercial entre EUA e China cria efeito “duplo” para o Brasil – veja onde investir

Voltando ao capítulo recente, a ampliação do controle de exportações de minerais críticos pela China foi recebida com perplexidade pelos americanos. Sem entrar em detalhes, que estão longe da especialidade de economistas, o controle de exportações envolve elementos minerais essenciais para equipamentos elétricos e computação, atingindo especialmente materiais usados na indústria de defesa de ponta.

Em abril, restrições leves para a exportação desses minerais já haviam sido anunciadas. Mais recentemente, esses controles foram ampliados para dificultar não apenas a autorização de exportação desses minerais da China para outros países, mas também restringir a reexportação desses minerais ou produtos contendo esses minerais entre países terceiros.

Desde 2018, os EUA têm gradual e consistentemente ampliado seus controles de exportação com foco na China, em especial em semicondutores avançados. É uma política que tem tido suporte dos dois partidos americanos. A conclusão é que mais do que tarifas, o tema global do momento são os controles de exportações mútuos entre EUA e China (e que restringem também países terceiros). A negociação sobre tarifas é algo relativamente viável. Muito mais cautela, a meu ver, devemos ter em relação à probabilidade de uma negociação que reduza a escalada nas medidas de controle de exportações.

O posicionamento dos outros blocos econômicos durante as reuniões do FMI também é revelador da situação global. Estão todos distantes da fronteira tecnológica e econômicas dominada por EUA e China.

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A União Europeia demonstra um misto de esforço e consciência do que precisa ser efeito para retomar o dinamismo, ao mesmo tempo em que exibe grande frustração sobre a incapacidade de se mover com maior agilidade e coesão.

O discurso de Mario Draghi realizado em setembro, um ano depois da divulgação de seu relatório com propostas para a reforma do bloco, revela esse sentimento que será difícil permanecer em posição competitiva. A região tem ainda o desafio de precisar dedicar recursos não apenas ao avanço tecnológico e industrial, mas também à segurança do bloco e à substituição de fontes de energia. Parece ser difícil atingir todos esses objetivos simultaneamente.

Por fim, a América Latina está relativamente bem-posicionada nesse contexto global. O México provavelmente terá sucesso em negociar a continuidade do acordo comercial com os EUA (talvez de forma mais bilateral do que de forma conjunta com o Canadá). Brasil, Chile, Peru e outros países da região são fortes, como se sabe, na produção de minerais, energia e agronegócio.

A Argentina também poderia estar nesse grupo, mas ao contrário do clima de “otimismo cego” nas reuniões de abril, dessa vez não havia motivos para comemoração. O país recorreu a mais um programa de socorro, dessa vez diretamente com os EUA.

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O desfecho, infelizmente, provavelmente será como em outros programas de ajuste e tentativas de estabilizar a economia por meio da taxa de câmbio: por maiores que pareçam os recursos, a defesa de um patamar de câmbio não é possível. Passadas as eleições legislativas desse final de semana, será preciso reconhecer essa inviabilidade. Não está claro qual será o plano B possível.

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