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A geopolítica do aço diz muito sobre a economia de um país

A siderurgia diz muito sobre a capacidade de um país de se revelar e se posicionar nas relações internacionais

Por Thiago de Aragão

27/09/2023 | 16:02 Atualização: 27/09/2023 | 16:02

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Foto: Envato Elements
Foto: Envato Elements

A geopolítica do aço não é tão comentada ou debatida fora dos círculos técnicos. Muito se fala da geopolítica de forma geral ou de subcategorias mais específicas como a “geopolítica dos alimentos”, a “geopolítica da energia” ou a “geopolítica da cadeia de produção”.

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Como fornecedor da indústria de base, a siderurgia diz muito sobre a capacidade de um país de se revelar e se posicionar no universo das relações internacionais. Sendo um setor estratégico, o sentido lógico seria o Estado moldar sua narrativa e política externa para se adequar aos seus setores estratégicos, e não o contrário, com o setor e suas empresas (pequenas, médias ou grandes) tendo que se adaptar ao que o governo faz ou deixa de fazer neste âmbito.

O Brasil é um dos principais produtores de aço no mundo (34 milhões de toneladas em 2022). No entanto, estamos a anos-luz da China, que produziu acima de 1 bilhão de toneladas no mesmo período. Existem inúmeras razões para essa disparidade. Porém, o mais importante é o que se faz com o excesso dessa produção.

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A China vive um momento chave de definição do rumo de sua economia. A transição de uma economia à base de investimentos do Estado para uma economia de consumo não ocorre sem deixar uma trilha de mortos e feridos. Esses feridos não estão necessariamente na China.

Com a construção civil vivendo um momento complicado, dada às recentes dificuldades das principais construtoras do país, há uma incógnita sobre como o mercado chinês irá absorver a quantidade de aço produzida. A queda no consumo interno levará a China a exportar cada vez mais, subsidiando o preço do aço a um ponto que inviabilize a competição. Assim, mantém sua indústria rodando e evita um efeito dominó de esfacelamento de outros setores.

Nesse processo de exportação subsidiada (dumping), o Brasil tende a ser um destino interessante para o aço chinês. A produção brasileira não é tratada pelo governo como uma indústria estratégica, fazendo com que o aço chinês que chega aqui encontre uma “avenida” perfeita para expandir ainda mais sua presença.

Países no mundo inteiro buscam se proteger aumentando consideravelmente suas tarifas de importação. No entanto, isso é uma via problemática de mão dupla, pois, em países que possuem um alto grau de dependência em relação à China (como o Brasil), uma ação tarifária considerada hostil tende a gerar uma retaliação por parte de Pequim, que mira, não só o setor em questão, mas outros mais. No nosso caso, o agro certamente estaria na mira chinesa para retaliações em cima de ações que fossem tomadas contra o aço chinês que entra no Brasil.

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Isso coloca a siderurgia brasileira numa sinuca de bico. O setor não precisa de ajuda do governo, precisa antes de mais nada, de definição e eficiência. Em 2027, várias siderúrgicas brasileiras presenciarão o fim da vida útil de seus fornos.

A substituição é custosa e definirá a estratégia de produção dos próximos 30 anos (vida útil dos fornos). Essas empresas deverão adotar fornos com tecnologia de funcionamento a gás, para que seu produto mais sustentável encontre mais espaço na Europa, ou deverão ir pelo caminho tradicional?

A dúvida paira em cima da viabilidade colocada pelo governo brasileiro. Para que um forno funcione a gás, o governo deveria se levantar da cadeira e agir em relação a políticas de hidrogênio e de outros combustíveis sustentáveis. Sem uma ação definitiva, os próximos 30 anos poderão determinar uma inundação de aço chinês no território brasileiro e a asfixia de um setor altamente estratégico para o País.

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