Um mês com as tarifas em vigor pode acabar beneficiando politicamente tanto Trump quanto Lula (Foto: Adobe Stock)
As negociações entre Brasil e Estados Unidos caminham para um cenário de alta complexidade. No fundo, trata-se de uma discussão especializada sobre tarifas, mas que vem sendo conduzida sob a lógica de uma negociação política. Isso exige, por parte do Brasil, uma narrativa pública com roupagem política, mesmo que o cerne da questão seja técnico e comercial.
O curto prazo para chegar a uma solução, com a data de 1º de agosto se aproximando, torna improvável que se encontre um desfecho antes disso. Ao mesmo tempo, a própria retórica do governo americano limita o espaço de manobra para que Donald Trump adie ou reverta a imposição das tarifas sem aparentar recuo, já que ele demonstra incômodo com a ideia de “dar o braço a torcer”.
Paradoxalmente, um mês com as tarifas em vigor pode acabar beneficiando politicamente tanto Trump quanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Trump sinaliza firmeza ao não recuar frente a um país relevante, enquanto Lula pode utilizar o episódio para reforçar a retórica de que a culpa recai sobre o governo anterior, dado que a justificativa de Trump está ligada a temas associados a Jair Bolsonaro (PL).
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Na prática, trata-se de uma situação potencialmente arriscada para o Brasil. Um mês de tarifas já acenderia alertas e dispararia alarmes nos setores produtivos. Lula, nesse estágio inicial, pode manter o foco na narrativa política e responsabilizar Bolsonaro. Mas o mercado financeiro e os setores exportadores brasileiros poderiam entrar em parafuso.
Caso o impasse se prolongue por três ou quatro meses, a dinâmica se inverte: a ausência de uma solução passa a expor a dificuldade de articulação do governo brasileiro e a percepção de uma ineficiência negocial ganha corpo.
Além disso, há um agravante pouco discutido. Muitos países estão, simultaneamente, tentando negociar com os Estados Unidos, o que aumenta a complexidade do ambiente diplomático.
O governo americano, por sua vez, tem se mostrado refratário a negociações tradicionais. Em vez de apresentar demandas claras, prefere que o outro lado ofereça concessões de valor. Isso compromete o fluxo de conversas técnicas, especialmente com o USTR (Representante Comercial dos Estados Unidos), o órgão responsável por esse tipo de tratativa. O resultado é um cenário em que a negociação se arrasta, gerando ainda mais incerteza e ansiedade entre os exportadores brasileiros.
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O risco, para o Brasil, é que uma demora em apresentar uma solução técnica bem estruturada dê espaço para que as tarifas dos EUA se tornem permanentes, caso essa seja a escolha de Trump. Nesse cenário, a narrativa pode virar contra o próprio Lula, que passaria a ser visto como inflexível ou pouco habilidoso para negociar.
Do lado americano, haverá crescente pressão de setores empresariais específicos. Mas, caso não se alcance um entendimento, o Brasil ainda pode surpreender com uma resposta inovadora, adotando instrumentos de retaliação pouco usuais até hoje, como questionamentos sobre patentes ou mecanismos regulatórios pouco explorados no passado.
A abertura da investigação com base na Seção 301 (dispositivo da Lei de Comércio americana instituída em 1974) não deveria surpreender ninguém. O próprio Trump já havia sinalizado isso na carta enviada ao Brasil, deixando claro que pediria esse tipo de apuração. Seria ilógico imaginar que ele anunciaria esse movimento sem que ele de fato acontecesse.
Trata-se, portanto, de mais uma camada de pressão sobre o governo brasileiro, dentro daquela lógica típica: usar um argumento político para forçar um desfecho técnico e comercial. Isso aumenta a urgência para que o Brasil formule um pacote de concessões e propostas de negociação mais robusto.
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Ao mesmo tempo, a abertura formal da investigação dificulta politicamente um eventual recuo de Trump no dia 1º de agosto com as negociações entre Brasil e Estados Unidos. Ele pode até voltar atrás, mas está criando obstáculos que tornam essa reversão mais custosa e improvável.