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Colunista

Ideologia flexível: esquerda, direita e a admiração por Putin

A identificação seletiva que cada lado faz de Putin o transforma em ídolo de dois espectros que se odeiam

Por Thiago de Aragão

11/05/2022 | 14:51 Atualização: 11/05/2022 | 14:51

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O presidente da Rússia, Vladimir Putin. Foto: AP
O presidente da Rússia, Vladimir Putin. Foto: AP

A autoproclamação de ser de “esquerda” ou de “direita” tem mais a ver com o que uma pessoa não sabe do que com o que uma pessoa sabe. O senso de pertencimento dita, em grande parte, a decisão de um indivíduo de abraçar a autoproclamação sem necessariamente buscar compreender o que cada lado possui como ideias centrais e relevantes.

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Na América Latina contemporânea, a esquerda e a direita se caracterizam mais pela ausência de simpatia pelo oposto do que necessariamente por abraçar conceitos oriundos de cada lado. Dentro de um ambiente personalista como o nosso, a esquerda se fortalece pelo ódio ao indivíduo que representa a direita e vice-versa.

Como nossos governantes de “esquerda” ou de “direita” não sabem bem o que os define, identificamos inúmeros pontos que os fazem mais parecidos do que diferentes. Ao mesmo tempo, os símbolos que cada um carrega para se justificar de esquerda ou de direita tendem a ser secundários dentro do que a esquerda e a direita se propõem. A intervenção estatal (Petrobras, agências reguladoras) ocorreu tanto em governos ditos de “esquerda” como de “direita”. O subsídio a setores específicos também segue em governos dos dois lados do “espectro ideológico”.

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A confusão entre o que é “Estado” e o que é “Governo” também está presente em governos tanto de um lado como de outro. A esquerda brasileira, que sempre defende a existência de empresas públicas enquanto narrativa eleitoral, promoveu privatizações sob o nome de concessões. Já a direita brasileira, que argumentou contra o fim de auxílios sociais, percebe que se trata de um importante veículo de popularidade. No fim, a convergência ao centro se torna inevitável por conta do perfil do eleitorado brasileiro que elege indivíduos sem levar em consideração o partido ao qual cada um pertence. Assim, nosso centro político fica inflado e determinante na governabilidade tanto da esquerda como da direita.

Onde entra o presidente russo Vladimir Putin nessa história? Bem, Putin representa a confusão entre eleitores da esquerda e da direita que enxergam apenas as características que convêm para colocá-lo como um ícone de qualquer um dos lados. Putin conseguiu um feito notável ao colocar do seu lado, mesmo com a grande parcela da comunidade internacional condenando a invasão da Ucrânia, países como Venezuela, Cuba e Argentina, China e Coreia do Norte (identificados como de esquerda) e países como Hungria, Sérvia e Brasil (identificados como de direita). Grupos como a Internacional Socialista e o principal líder do Partido Republicano americano, Donald Trump, também mostram simpatia ao líder russo. Extremistas de direita e de esquerda olham o presidente russo apenas pelo ângulo que os satisfaz, quando, na realidade, Putin não transita nem na esquerda e nem na direita.

Novamente, o que faz com que Putin seja o ídolo de dois espectros que se odeiam se resume à identificação seletiva que cada lado faz dele. Tanto membros da esquerda como da direita pinçam apenas os elementos que reforçam suas visões de mundo, eliminando todo o resto que poderia contradizê-las.

Para a esquerda, Putin representa um símbolo na luta contra o imperialismo americano, o fortalecimento da aliança com a China comunista, a exaltação de lideranças soviéticas como Lenin, Stalin e Andropov. Representa a confiança e a ajuda financeira e militar da Venezuela e de Cuba. Para a direita, Putin representa o novo nacionalismo que ignora o “globalismo”, suas interpretações de família cristã, sem homossexuais e seus direitos. Representa a luta contra a “nefasta” União Europeia e Emmanuel Macron, seu representante “progressista”. Para alguns, o simples fato de Putin simpatizar com Trump já justifica o apoio. Para outros, o fato do presidente russo simpatizar com Xi Jinping e Nicolás Maduro também justifica, mesmo sendo Xi Jinping antagonista de Donald Trump nas tensões estabelecidas entre os dois durante o governo do americano.

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No Kremlin, Putin deve se divertir com isso. O fato de ser tão fácil conquistar o apoio de um lado como do outro reforça um dos seus objetivos históricos de enfraquecimento do Ocidente. A velha máxima: “Se não pode convencê-los, confunda-os” é mais atual do que nunca. O presidente russo é um cristão que abertamente exibe sua amante em vários eventos pelo mundo. Um “anticomunista” que diz que o fim da União Soviética foi a maior tragédia do Século XX.

Putin se aproxima de Xi Jinping pela necessidade, não pelo apreço ideológico. Também se alinhou com Trump por oportunidade e não por acreditar no “America First”. Recebeu Bolsonaro pois, curiosamente, o Brasil se encontra como membro do Conselho de Segurança da ONU e ter apoio interno ameniza o direito de veto que a Rússia possui. Além disso, vale a pena para Putin tratar bem o Brasil enquanto a Rosatom, agência nuclear russa, assinou um memorando de cooperação com o governo brasileiro. Por outro lado, Lula ameniza a invasão russa colocando a culpa compartilhada em Zelensky, EUA, Otan e UE.

O presidente russo possui uma retórica precisa e universal. Claro que não consegue convencer a enorme maioria de que a guerra se trata de uma “Operação Militar Especial”, mas convenceu importantes personagens da esquerda e da direita global que, sob suas óticas especiais, enxergam uma guerra global entre conceitos ideológicos mal compreendidos. Minar a importância da ONU, Otan, UE faz bem a Putin. Ele entende que tanto esquerda quanto direita não gostam de organizações supranacionais que não sejam ligadas aos seus interesses imediatos. Para a Rússia de Putin, ver a esquerda e a direita se destruindo em cada país, enquanto ao mesmo tempo apreciam o que ele diz, é o melhor dos mundos para justificar seus atos e suas palavras.

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