A discussão começou na semana passada após o Banco Central sinalizar que manteria a taxa de juros em 13,75%, mesmo com a queda recente da inflação. Isso gerou questionamentos por parte do governo em relação à autonomia e independência do Banco Central. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a questionar quais foram os ganhos obtidos por conta da independência do BC.
Para não pular nada e ser claro desde o começo, vamos à definição e importância da autonomia do Banco Central, que começou a ganhar força no governo Temer e foi aprovada no governo Bolsonaro.
O Banco Central é responsável pela emissão de moedas, fixação da taxa de juros e atuação no câmbio e em modalidades como controle de garantias (depósitos compulsórios e mais). Ou seja, tudo que pode ser ligado à liquidez no mercado quando falamos de dinheiro.
E quando falamos de liquidez, estamos falando também de inflação. Quanto mais dinheiro no mercado, mais liquidez (dinheiro em circulação), logo, desvalorização da moeda.
A independência do BC, discutida por mais de 30 anos, veio para trazer menos interferência politica nas decisões econômicas, além de intercalar os mandatos do presidente da instituição com o do presidente do País. Campos Neto, por exemplo, fica no posto até o fim do ano que vem, no meio do governo Lula.
Menor interferência e mais independência traz maior credibilidade para o Banco Central e para o Brasil, que passaria a controlar a inflação, juros e câmbio sem impacto das decisões políticas de um governo, exatamente como ocorre no Japão e nos Estados Unidos.
A crítica atual é exatamente por conta disso. O governo que aumentar os gastos e ao mesmo tempo “demanda” uma baixa nos juros para que isso possa impulsionar a economia.
O ponto aqui é que mais gasto gera inflação por si só, o que demandaria maior elevação de juros, não queda.
Ficou claro que o governo não pode decidir a taxa de juros para que não haja um descompasso entre gastos e controle de preços, certo?
Mas será que mesmo o BC independente é quem controla os juros? Vale lembrar que nosso governo atua em déficit, ou seja, gasta mais do que arrecada e por isso é necessário sempre pegar dinheiro emprestado. E quem empresta? Ele, o mercado financeiro.
São os agentes econômicos que emprestam dinheiro ao governo participando dos leiloes que o governo faz de venda de títulos públicos.
Se o governo estiver gastando mais e por decisão politica há uma baixa de juros, você acha que o mercado vai emprestar dinheiro ganhando menos juros em um cenário econômico pior? É obvio que não.
E o sinal foi dado semana passada, em que em um dos leiloes de título houve menos de 15% de demanda pelo mercado na taxa de juros atual, mostrando que para emprestar precisa ganhar mais.
Ou seja: de nada adiantaria o governo obrigar o BC abaixar os juros, ou a instituição agir sem apoio técnico, pois no fim haverá um grande problema, que será o financiamento desse próprio governo.
Resumindo, economia é matemática + expectativa + mercado. Não há política nessa fórmula.
Estou acompanhando de perto os leilões de títulos e informações do relatório Focus para colocar no meu instagram @vmiziara, onde podemos debater sobre o assunto.
Um grande abraço.
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