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Comportamento

Leilão de dólar: como a 1ª intervenção do Banco Central no câmbio desde 2021 afeta a sua vida?

BC vendeu US$ 1,5 bilhão no mercado à vista com estratégia inédita neste 3º mandado do presidente Lula

Por Murilo Melo

30/08/2024 | 13:23 Atualização: 30/08/2024 | 13:27

Foto: Adobe Stock
Foto: Adobe Stock

O Banco Central (BC) anunciou que conseguiu vender US$ 1,5 bilhão em leilão de dólar promovido no mercado de câmbio à vista na manhã desta sexta-feira (30), marcando a primeira intervenção desse tipo durante o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Presidência da República. A medida, tomada em meio a um ambiente de incerteza econômica tanto no Brasil quanto no exterior, visa estabilizar a taxa de câmbio do real frente ao dólar. Mas o que exatamente significa essa intervenção e como ela pode afetar a vida dos brasileiros?

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Em um leilão de dólares, o Banco Central vende uma quantia da moeda americana diretamente ao mercado financeiro, aumentando a oferta, explicam os especialistas ouvidos pelo E-Investidor. A operação, segundo eles, tem o objetivo de conter a valorização excessiva do dólar em relação ao real.

Quando a demanda pela moeda americana aumenta — seja por incertezas econômicas, expectativas de elevação de juros nos Estados Unidos ou por preocupações com o cenário fiscal no Brasil — o dólar tende a subir. A intervenção do BC serve, portanto, como tentativa de segurar a alta, evitando que ela afete negativamente a economia.

Para o superintendente da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, a ideia do leilão foi reduzir a volatilidade cambial no curto prazo, evitando movimentos bruscos que poderiam desestabilizar o mercado financeiro. Assim, o evento foi uma medida de intervenção para manter a estabilidade sem impactos diretos na economia como um todo.

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O diretor da mesa de câmbio da Planner Investimentos, Douglas Ferreira, diz que o leilão de dólares do Banco Central hoje busca reduzir os efeitos de uma prevista saída de cerca de US$ 1 bilhão do País. Ele destaca que o ajuste no índice criou uma expectativa de aumento na procura por moeda estrangeira, o que levou o BC a intervir no dólar para evitar flutuações bruscas no mercado.

Estresse do dólar

Na mesma linha, o mestre em economia pela Faculdade Getulio Vargas (FGV), Caio Dias, explica que o leilão ocorre em um contexto de estresse no mercado de câmbio, impulsionado por fatores como a formação da taxa Ptax — uma média calculada pelo BC usada como referência para diversas operações financeiras — e o rebalanceamento de índices de fundos estrangeiros, como o MSCI Brazil ETF (EWZ), que pode gerar um fluxo de saída de recursos do País.

“A taxa de câmbio tem um impacto direto na inflação e, consequentemente, no poder de compra dos consumidores. Quando o dólar sobe, o preço de produtos importados, como eletrônicos e insumos industriais, tende a aumentar. Combustíveis também podem ficar mais caros, já que o petróleo é cotado em dólares. Esse aumento nos preços, por sua vez, pressiona a inflação, que é o aumento generalizado dos preços de bens e serviços”, diz o economista.

Além disso, a valorização do dólar encarece viagens internacionais, compras em sites estrangeiros e até mesmo cursos no exterior. Em um cenário de real desvalorizado, o orçamento das famílias brasileiras pode ser diretamente afetado, exigindo ajustes financeiros.

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Mas o analista financeiro Paulo Godoi Filho afirma que a intervenção do BC no dólar também tem implicações mais amplas para a economia. Empresas exportadoras, por exemplo, podem se beneficiar de um real mais fraco, pois seus produtos se tornam mais competitivos no mercado internacional. Por outro lado, importadores enfrentam maiores custos, o que pode afetar suas margens de lucro e, eventualmente, os preços ao consumidor final.

“Para investidores, a volatilidade cambial representa tanto riscos quanto oportunidades. Ações de empresas com receitas em dólares ou que são exportadoras tendem a se valorizar em um cenário de real mais fraco. Já empresas endividadas em dólares ou que dependem de insumos importados podem enfrentar dificuldades”, pontua.

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O mercado monitora de perto os próximos passos do Banco Central e os dados econômicos, tanto locais quanto internacionais. Se as pressões sobre o câmbio persistirem, novas intervenções não estão descartadas pelo BC, segundo declaração recente do presidente da instituição Roberto Campos Neto. Para o consumidor, isso significa que é importante ficar atento às variações de preços e planejar seu orçamento para mitigar os impactos da volatilidade cambial.

BC vende US$ 1,5 bilhão após única proposta

De acordo com o BC, no leilão de hoje, uma única proposta foi aceita, correspondendo ao valor total da operação. O leilão ocorreu entre 9h30 e 9h35, usando a taxa Ptax como referência. A última operação similar havia sido colocado em prática em dezembro de 2021, quando foram vendidos US$ 500 milhões. Desde abril de 2022, quando foram ofertados US$ 571 milhões, o BC não realizava um leilão extraordinário de dólares à vista.

O dólar iniciou a sessão desta sexta-feira em queda, com os investidores aguardando a intervenção do BC. Às 9h, a moeda americana registrava uma queda de 0,74%, cotada a R$ 5,5813. No entanto, após o leilão do BC, o dólar inverteu a tendência e começou a subir. Às 10h30, a moeda avançava 1,14%, sendo negociada a R$ 5,684.

A Ptax, uma taxa de câmbio calculada pelo Banco Central com base nas cotações do mercado à vista, é usada como referência para a liquidação de contratos futuros. No último dia útil de cada mês, o dólar geralmente apresenta maior volatilidade devido à formação dessa taxa.

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O BC informou que o diferencial de corte do leilão foi de 0,000170. No dia anterior, a instituição havia comunicado que cada participante poderia enviar até três propostas indicando o volume desejado e o diferencial, com precisão de até seis casas decimais, a ser somado ou subtraído da taxa de câmbio de venda do boletim de fechamento da Ptax do dia do leilão.

Quando atua no mercado à vista, o Banco Central vende parte das reservas internacionais sem a obrigação de recompra, injetando recursos no mercado. Essa estratégia foi mais comum durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, na época do câmbio fixo.

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A operação busca atender ao fluxo de saída de capital causado pelo rebalanceamento de um dos principais índices de referência para investidores em bolsas internacionais, o Morgan Stanley Capital International (MSCI). No mercado, estimava-se uma saída entre US$ 1 bilhão e US$ 1,5 bilhão.

O leilão de dólar aconteceu dois dias após a indicação de Gabriel Galípolo, atual diretor de Política Monetária, para a presidência do Banco Central. Galípolo é responsável por definir a estratégia de atuação da instituição no mercado cambial.

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