Parceria Livelo e Dotz leva pontos ao caixa de lojas: o que o cliente ganha com isso?
Integração com a Dotz permite usar pontos diretamente no varejo físico, mas especialistas alertam para riscos de consumo impulsivo e perda de percepção de valor
Uso de pontos no caixa físico avança no varejo brasileiro, levantando debate sobre economia real, consumo consciente e planejamento financeiro. (Foto: Adobe Stock)
A possibilidade de usar pontos da Livelodiretamente no caixa de lojas físicas, por meio de uma nova integração tecnológica com a Dotz, marca mais um passo na transformação dos programas de fidelidade em instrumentos de pagamento no varejo tradicional. A parceria inédita permite que o processo de compra seja mais simples. O consumidor informa o Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), o sistema identifica o saldo disponível e permite o abatimento imediato de parte da compra, sem necessidade de resgate prévio.
“Estamos transformando os pontos em uma nova forma de pagamento, integrada à rotina de consumo e à operação dos varejistas”, diz Ricardo Magalhães, Vice-presidente de Loyalty da Dotz.
A novidade amplia a conveniência, mas levanta a dúvida se usar pontos no caixa melhora, de fato, o orçamento das famílias, ou se apenas muda a forma de consumir.
Para Thaisa Durso, educadora financeira da Rico, o impacto depende do contexto. “Transformar pontos em pagamento no caixa pode gerar economia pontual, especialmente quando os pontos têm bom valor de troca e o desconto é aplicado em despesas que já fazem parte do orçamento”, afirma. Segundo ela, quando o benefício é usado para reduzir gastos recorrentes (como supermercado ou farmácia) ele funciona como ferramenta de eficiência financeira, liberando recursos para objetivos como reserva de emergência ou investimentos.
Dicas para utilizar os pontos da melhor forma
O problema surge quando o consumidor deixa de enxergar o ponto como patrimônio. “O uso direto no caixa aumenta a probabilidade de perder a noção do valor real, pois o desconto aparece como ‘pontos abatidos’ em vez de dinheiro saindo da conta”, alerta Durso. Para evitar a armadilha do chamado “dinheiro invisível”, ela recomenda converter o saldo em reais antes de decidir pelo uso e comparar com outras alternativas. Se o retorno for inferior a 1% sobre o gasto original que gerou os pontos, o resgate pode não compensar financeiramente.
Wanessa Guimarães, planejadora financeira CFP, avalia que a conveniência altera a percepção de gasto. “Como não há etapa consciente de resgate nem saída de dinheiro da conta, a transação deixa de ser percebida como uma troca financeira clara”, diz. Isso pode reduzir a comparação de preços e estimular consumo menos refletido.
Ela destaca que o valor do ponto varia conforme a forma de utilização. No varejo físico, o retorno costuma girar entre R$ 0,007 e R$ 0,01 por ponto; no cashback, entre R$ 0,01 e R$ 0,012; e, em milhas bem utilizadas, pode chegar a R$ 0,02 ou R$ 0,03 por ponto, especialmente em promoções com bônus de transferência.
“O principal critério deve ser entender quanto vale cada ponto em reais em cada tipo de uso”, afirma.
Para quem viaja com frequência e acompanha campanhas promocionais, milhas tendem a oferecer maior retorno. Para quem busca previsibilidade, o cashback pode ser mais transparente. Já o uso no varejo tende a fazer sentido quando os pontos estão próximos do vencimento ou quando não há estratégia estruturada.
Rafael Carelli, diretor de Negócios na Unicred do Brasil, reforça que pontos não são “dinheiro extra“, mas benefício vinculado a consumo anterior. “A economia real acontece quando o uso dos pontos substitui um gasto já planejado, e não quando cria um novo”, afirma. Na avaliação dele, a decisão deve considerar o objetivo financeiro. Se houver possibilidade de converter pontos em algo que fortaleça o patrimônio no longo prazo (como aporte em previdência) essa alternativa pode ser mais alinhada ao planejamento.
Verifique o custo do programa
Outro fator frequentemente ignorado é o custo do programa. Cartões com anuidade elevada podem consumir parte relevante do retorno obtido com pontos ou cashback, caso não haja critérios claros de isenção. Sem essa conta, o benefício aparente pode ser reduzido ou até anulado.
Carlos Castro, planejador financeiro CFP pela Planejar, explica que “os pontos funcionam como uma moeda.” Para ele, quanto menor a fricção no uso (como ocorre no pagamento direto no caixa) maior o risco de gasto impulsivo.
“É preciso fazer comparação, acompanhar desvalorizações e avaliar custo de oportunidade”, diz. Em alguns casos, pode ser mais vantajoso acumular pontos para uma viagem planejada do que utilizá-los imediatamente no varejo.
Fique atento à sua conta ao longo do tempo
Os especialistas também alertam para o fenômeno da desvalorização dos programas de fidelidade, que tendem a exigir mais pontos ao longo do tempo para os mesmos resgates. Nesse cenário, acumular indefinidamente pode não ser a melhor estratégia, mas usar sem critério tampouco.
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No consenso dos especialistas, o benefício existe, mas é complementar. Para famílias com volume relevante de gastos no cartão, o retorno anual pode representar algumas centenas ou pouco mais de R$ 1.000,00, dependendo da estratégia.
“Os pontos podem melhorar o orçamento, mas não transformam a realidade financeira”, resume Carlos Castro.
O que faz diferença estrutural continua sendo controle de gastos, definição de metas e consumo alinhado à renda.
A integração entre Dotz e Livelo amplia as possibilidades de uso dos pontos e reforça a tendência de torná-los parte do pagamento cotidiano. O efeito final, porém, dependerá menos da tecnologia disponível no caixa e mais da capacidade do consumidor de tratar cada ponto como um ativo, e não como um bônus sem custo.