Apple avança e Microsoft cai: o que mudou na avaliação da IA e como o investidor ainda pode lucrar
Resultados fortes já não bastam: investidores passam a cobrar retorno claro sobre os bilhões investidos em IA, e a reação oposta às duas gigantes sinaliza o fim do “cheque em branco” no setor
Reação oposta às ações de Apple e Microsoft após os balanços reforça que o mercado passou a diferenciar quem monetiza a inteligência artificial de quem apenas amplia investimentos. (Foto: Adobe Stock)
Os balanços fiscais de Apple (AAPL) e Microsoft (MSFT), divulgados na última quarta-feira (28) e quinta-feira (29), respectivamente, marcaram um ponto de inflexão na narrativa da inteligência artificial (IA) nos mercados globais. Embora ambas tenham reportado crescimento de receita e lucro acima das expectativas, a reação dos investidores foi completamente oposta: enquanto a ação da Apple chegou a saltar mais de 3% no after hours de Nova York na quinta, no mesmo dia a Microsoft chegou a perder cerca de 10% de valor de mercado no pregão. O movimento deixa claro que a fase do “cheque em branco” para investimentos em IA ficou para trás. Agora, só sobe quem entrega retorno concreto e estratégia clara.
Para Marina Valentini, estrategista global da J.P. Morgan Asset Management, a divergência simboliza uma mudança estrutural na forma como o mercado avalia as gigantes de tecnologia. Segundo ela, os investidores deixaram de tratar as chamadas Magnificent 7, Apple, Microsoft, Amazon (AMZN), Alphabet (GOOGL), Meta Platforms (META), Tesla (TSLA) e Nvidia(NVDA) como um bloco homogêneo e passaram a analisar empresa por empresa, com foco em eficiência de capital, visibilidade de retorno e execução.
“O que diferenciou a percepção do mercado não foi simplesmente ‘quem faz melhor IA’, mas a assimetria entre intensidade de capital, horizonte de monetização e posicionamento estratégico da tecnologia dentro do negócio”, afirma.
No caso da Microsoft, o problema não esteve nos números absolutos (que foram robustos), mas na frustração frente a expectativas excessivamente elevadas. A companhia reportou lucro ajustado de US$ 4,14 por ação no trimestre fiscal encerrado em dezembro, com receita de US$ 81,27 bilhões, alta anual de 28% e 17%, respectivamente, acima do consenso. Ainda assim, o mercado reagiu mal.
A principal decepção veio do Azure. As vendas da divisão de computação em nuvem cresceram 38% em moeda constante, abaixo das expectativas do buy side (quem investe o dinheiro), que projetavam algo acima de 39%. Para o trimestre de março, a própria empresa indicou crescimento entre 37% e 38%, reforçando a percepção de leve desaceleração. O guidance(projeções) de receita também ficou aquém das projeções, o que bastou para acionar uma forte realização.
As ações chegaram a cair 3% no after hourse fecharam o pregão seguinte com queda próxima de 10%, rompendo médias técnicas relevantes. Pelo menos 16 analistas de Wall Street revisaram seus preços-alvo para baixo após o balanço.
Segundo Enzo Pacheco, da Empiricus Research, esse movimento ilustra o novo nível de exigência do mercado.
“Quando a expectativa está esticada, qualquer décimo de desaceleração vira gatilho. Não é uma crise da Microsoft, é uma crise de expectativa”, diz.
Para ele, o peso adicional veio do Capex (Capital expenditure, em inglês, que significa investimento) recorde, que já se aproxima de US$ 37,5 bilhões, concentrado em data centers, chips e infraestrutura para IA.
Outro ponto sensível foi o avanço das Remaining Performance Obligations (RPOs, na sigla em inglês), que refletem receitas futuras contratadas, muitas delas ligadas ao ecossistema da OpenAI. Parte dos investidores passou a questionar se esses compromissos conseguirão se converter em geração de caixa suficiente para justificar o nível atual de investimento.
Já a Apple seguiu um caminho quase oposto, e isso ajuda a explicar por que sua ação reagiu de forma tão diferente. Em vez de transformar a IA em um centro de custo isolado, a empresa vem integrando a tecnologia diretamente ao ecossistema de produtos e serviços, reforçando sua lógica de monetização no consumo.
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Um símbolo dessa estratégia foi a aquisição da startup israelense Q.AI, avaliada em cerca de US$ 2 bilhões, uma das maiores compras da história recente da Apple. A empresa desenvolveu uma tecnologia capaz de interpretar microexpressões faciais para permitir “falas silenciosas”, uma forma de comunicação não verbal que pode ser incorporada a fones de ouvido e óculos inteligentes.
O movimento é visto como uma resposta direta à corrida liderada por Meta, Google e OpenAI no desenvolvimento de dispositivos vestíveis voltados à interação com IA. Ao optar por comprar tecnologia pronta e integrá-la ao seu ecossistema, a Apple acelera sua presença nessa nova fronteira sem assumir os custos massivos de construir modelos e infraestrutura do zero.
Para Celso Brandão, CEO da AVEX AI LAB, essa diferença de abordagem foi decisiva para o mercado.
“A percepção foi clara: quem está monetizando IA versus quem está gastando com IA. A Apple usa IA como valor agregado ao hardware e aos serviços; a Microsoft precisa justificar um centro de custo gigantesco”, afirma.
Os números reforçam essa leitura. Enquanto a Microsoft ampliou fortemente seus investimentos, a Apple reduziu o Capex para cerca de US$ 2,3 bilhões no trimestre e ainda assim entregou um fluxo de caixa acima do esperado. Além disso, o crescimento robusto do segmento de serviços, com margens superiores a 70%, ajudou a sustentar a confiança dos investidores.
João Pedro Moreno, da Nexgen Capital, explica que “disciplina de capital passou a pesar mais do que promessa tecnológica. O mercado quer retorno sobre o Capex de IA, não apenas narrativa”.
O investidor no meio da IA: vale a pena?
Depois de anos em que a narrativa da IA sustentou múltiplos elevados e investimentos praticamente ilimitados, 2026 começa com mais volatilidade, mais cobrança e menos tolerância a promessas de longo prazo sem retorno visível.
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“Quem tentou escolher vencedores isolados errou muito. Já quem investiu via ETFs [Exchange Traded Funds] amplos, como o Nasdaq 100, acabou participando das grandes revoluções tecnológicas”, afirma Rafael Costa, fundador da Cash Wise Investimentos
Para Valentini, da J.P. Morgan Asset Management, o episódio reforça um processo que já vinha se desenhando desde 2025. “As preocupações em torno da IA já estavam se acumulando, com episódios recorrentes de correção em ações de tecnologia ao longo do ano”, afirma. Ainda assim, ela ressalta que há pouco fundamento para questionar o boom estrutural da tecnologia.
Os números ajudam a explicar esse movimento. Desde o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, o setor de tecnologia vem entregando crescimento expressivo de lucros. As chamadas Magnificent 7 registram avanços de dois dígitos desde o início de 2023, com surpresas positivas superiores a 10% nos trimestres mais recentes, bem acima da média de 7,5% do restante do S&P 500.
No último trimestre, as receitas de computação em nuvem dos grandes hyperscalers cresceram, em média, 27% na comparação anual, sinal de que a IA já está sendo monetizada, ao menos na camada de infraestrutura. O mercado projeta, inclusive, crescimento de lucro de cerca de 25% para as Magnificent 7 em 2026, contra 11% para as demais empresas do índice.
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O ponto de inflexão, portanto, não está na existência do crescimento, mas em quem consegue capturá-lo de forma eficiente.
“A monetização já está em curso, mas segue fortemente concentrada na camada de infraestrutura”, afirma Valentini. Mesmo após um aumento de cerca de 170% nos investimentos dos hyperscalers em infraestrutura nos últimos dois anos, a oferta segue restrita. Dos cerca de 125 gigawatts de data centers existentes no mundo, apenas 20 GW estão aptos a rodar cargas de IA. Para atender à demanda projetada, serão necessários ao menos mais 100 GW de geração de energia.
Esse desequilíbrio favorece segmentos mais previsíveis, enquanto nas camadas próximas ao usuário final a história é menos linear e mais dependente de modelos de monetização ainda em maturação.
Nesse contexto, a seletividade ganha protagonismo. Para Brandão, da AVEX AI LAB, a tecnologia deixou de ser um bloco homogêneo. “No mesmo trimestre, uma gigante pode subir enquanto outra cai 10%”, afirma. Com o setor já representando mais de 30% do S&P 500, divergências internas tendem a ampliar a volatilidade.
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Na visão dele, faz mais sentido olhar para ETFs mais específicos (seja em infraestrutura de IA, semicondutores ou nuvem) do que apostar indiscriminadamente em “tecnologia”. Entre os segmentos mais resilientes, Brandão destaca serviços em nuvem, com a Amazon bem posicionada.
A expectativa é de crescimento da AWS acima de 20% em 2026, com consenso amplamente positivo entre analistas. Moreno, da Nexgen Capital, concorda. “A nuvem é a estrada por onde a IA passa. Já ecossistemas como o da Apple controlam o cliente final e conseguem monetizar IA com mais facilidade”, diz.
Ainda assim, o alerta permanece para ETFs temáticos. André Rosenblit, da Nest Asset Management, lembra que produtos focados exclusivamente em IA tendem a ser mais voláteis, por concentrarem empresas ainda pouco lucrativas ou altamente dependentes de ciclos de investimento.
“Saímos da fase em que ‘tudo que tem IA no nome sobe’ para um cenário em que a monetização é determinante”, afirma.
Olhando para frente, balanços como o da Amazon, divulgado nesta quinta, devem seguir testando essa nova régua. Crescimento de cloud continua sendo bem-vindo, mas projeções de Capex sem retorno claro seguem como risco relevante. A revolução da IA continua, mas agora exige mais critério, mais diversificação e menos fé cega em promessas infladas. Para analistas, quem souber separar eficiência de narrativa terá vantagem no próximo capítulo desse ciclo.