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O bitcoin parece viver em um eterno paradoxo: ao mesmo tempo em que se propõe a ser um dinheiro eletrônico descentralizado e longe do controle do Estado, o ativo digital necessita do aval de instituições financeiras e órgãos de regulação para ganhar relevância no mercado financeiro. Sem esse reconhecimento institucional, o preço da criptomoeda tende a perder fôlego e deixa de ser atrativo para os investidores.
Para Edemilson Paraná, pesquisador e professor universitário da LUT University, na Finlândia, esses contrapontos anulam qualquer expectativa de uma consolidação do ativo digital como uma moeda global ou reserva de valor. Segundo o especialista, o bitcoin não reúne condições econômicas e políticas necessárias para alcançar esse status e, caso conquiste, precisaria abandonar a sua ideia central: a de ser um dinheiro “técnico” e livre de qualquer amarra política.
“O bitcoin não tem lastro do poder tributário, político, social e de instituições públicas, em um arranjo institucional bem articulado. Está ancorado unicamente como qualquer ativo especulativo na expectativa do seu preço futuro”, diz Paraná.
Ainda assim, Paraná não considera o projeto como um completo fracasso. Ele ressalta que as inovações dos sistemas de pagamento e até as discussões de moedas digitais controladas por Bancos Centrais (CBDCs, na sigla em inglês) são reflexos do avanço das criptomoedas.
“As criptomoedas vieram para ficar e vão crescer em importância na economia global”, diz o especialista.
Autor do livro “Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico”, Paraná explicou ao E-Investidor os conceitos teóricos da maior criptomoeda do mercado e as razões por trás do seu sucesso.
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E-Investidor – O bitcoin ganhou relevância com os avanços regulatórios nos Estados Unidos. Na sua avaliação, a moeda está se consolidando como uma espécie de “reserva de valor digital” ou esse movimento é mais uma narrativa de mercado?
Edemilson Paraná – O bitcoin está se consolidando como um ativo de reserva para grupos específicos de investidores, mas ainda está muito longe de se tornar uma reserva de valor no sentido clássico, como títulos públicos de alta liquidez ou ouro. Em termos econômicos, o bitcoin não tem lastro do poder tributário, político, social e de instituições públicas, em um arranjo institucional bem articulado. Está ancorado unicamente como qualquer ativo especulativo na expectativa do seu preço futuro. Mas vejo que as criptomoedas vieram para ficar e vão crescer em importância na economia global. Não há dúvidas disso. Agora, afirmar que esses ativos são a nova forma de dinheiro global ou que vão ser a principal forma de reserva de valor na economia no futuro, isso já não têm base com a realidade.
Se o bitcoin está se consolidando para grupos específicos, por que vem despertando o interesse dos investidores institucionais?
Temos um ambiente de liquidez e política monetária global favorável, vinculado a um ambiente de grande incerteza e turbulência global do ponto de vista geopolítico. Junto de tudo isso, há uma crise de confiança política e social nas instituições de forma generalizada, de desigualdade crescente e de insatisfação com o sistema financeiro. Essas narrativas encontram nesse ambiente um terreno fértil para se desenvolverem. Mas, olhando de perto, a dinâmica de preços e a atratividade das criptos são típicas de ciclos especulativos do que propriamente uma mudança estrutural do sistema monetário.
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No seu livro, publicado em 2020, o Sr. classifica o bitcoin como uma “utopia tecnocrática do dinheiro apolítico”. Esse conceito ainda é válido para o cenário de hoje?
Todo dinheiro em uma economia complexa, como a nossa, é uma instituição política e é responsável por organizar as relações de poder. Já a ideia do bitcoin é dizer que os agentes intermediários produzem problemas na nossa vida econômica, mas a maneira como isso é definido é uma forma de ideologia política. Essa narrativa encapsula ainda uma fantasia meritocrática tecnológica que é muito forte no nosso tempo. A ideia de que quem acredita cedo, quem entende a tecnologia, quem assume o risco, é corajoso, inovador, empreendedor, vai ser recompensado por um mercado que é supostamente neutro e objetivo. Portanto, o bitcoin não é um dinheiro neutro. É um projeto profundamente político, travestido de neutralidade técnica e de neutralidade tecnológica. Mas alguém pode dizer: “e se os Estados Unidos bancarem uma criptomoeda como a moeda global?” Bem, deixa de ser uma criptomoeda e passa a ser a moeda dos Estados Unidos.
Partindo desse pensamento, podemos dizer que o bitcoin deixou de ser cripto em El Salvador?
O caso de El Salvador é diferente de muitas maneiras, mas confirma exatamente o argumento central do livro. El Salvador não é, claro, a maior economia do planeta, nem emissor da moeda de referência global, o dólar. A adoção do bitcoin como moeda de curso legal foi um fracasso em vários aspectos, inclusive quanto à taxa de adoção entre a população, que permaneceu muito baixa ao longo de todo o período. Adicionalmente, do ponto de vista macroeconômico, isso deixou o país altamente vulnerável às flutuações de preço do bitcoin, o que afetou as reservas do governo e sua situação fiscal. Por fim, depois dessa experiência desastrosa, o bitcoin deixou de ser moeda de curso legal em El Salvador em 2025.
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Se o objetivo central do Bitcoin é uma utopia, seu projeto pode ser considerado um fracasso?
Depende como definimos o que é sucesso e fracasso. Se o sucesso é se tornar dinheiro no sentido amplo do termo, esse projeto está fadado ao fracasso. Agora, se você observar o bitcoin na perspectiva da sua capacidade de funcionar como um investimento especulativo, de ser incorporado pelos agentes hegemônicos, de crescer em valor de mercado, é possível dizer que é um sucesso. Vale destacar que as discussões sobre as moedas digitais de Banco Central (CBDCs, na sigla em inglês), os sistemas de pagamento online, as infraestruturas digitais públicas, como o PIX, têm relação com o advento das criptomoedas. Então, nesse sentido, o bitcoin (assim como as outras criptos) veio para ficar.
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