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Investimentos

Ações que pagam dividendos são opção para quem busca renda extra

Com preços mais atrativos, alguns desses papéis podem entregar retorno três vezes maior que o da Selic

Por Thiago Lasco

23/04/2020 | 8:00 Atualização: 02/06/2020 | 17:59

Aneel, bandeira tarifária (Foto Marcelo Min/Estadão)
Aneel, bandeira tarifária (Foto Marcelo Min/Estadão)

Em tempos de taxa Selic cada vez mais magra, o investidor sai em busca de alternativas para ampliar os rendimentos mensais de suas aplicações. Um caminho pode ser investir em ações de empresas que pagam dividendos. Com a crise causada pelo coronavírus, muitos desses papéis ficaram com preços bem mais atrativos.

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Dados da Economática indicam que o volume pago de dividendos vem crescendo continuamente nos últimos quatro anos e, em 2019, chegou ao máximo histórico de R$ 119,2 bilhões. Por outro lado, como os dividendos são distribuídos com base nos lucros obtidos no ano anterior, é provável que nos próximos anos essa tendência de crescimento se inverta, na medida em que a crise deve afetar os resultados.

Por isso, para quem quiser investir, o desafio é apostar em empresas que sejam capazes de entregar resultados consistente, mesmo em meio à maré adversa do coronavírus.

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Uma aposta segura para quem está atrás de bons dividendos costuma ser o setor bancário. “Ele tende a sofrer menos que outros setores nesse momento de crise. Itaú e Bradesco são meus papéis preferidos, não só pelos dividendos pagos periodicamente, mas também pelos mensais”, recomenda o chefe de análises da Toro Investimentos, Rafael Panonko. “O Banco do Brasil também paga bem, mas viria em terceiro lugar porque tem um gargalo de eficiência operacional.”

Vale considerar, porém, que o Banco Central baixou no dia 6 de abril uma resolução que limitou a distribuição de dividendos aos acionistas dos bancos ao mínimo obrigatório estabelecido no estatuto social, o que pode trazer diminuição no volume de proventos pagos no futuro.

Queda dos preços ampliou o retorno dos papéis

Com a queda dos preços das ações, mesmo algumas empresas que não pagavam tão bem passaram a ser interessantes. Como o retorno (dividend yield) é medido pela divisão do valor dos dividendos pagos nos últimos 12 meses pelo preço da ação, quando o preço da ação diminui, o produto dessa operação de divisão fica maior. Na prática, isso significa que o investidor passa a ter um retorno maior pelo dinheiro que aplicou na compra do papel.

“O frigorífico JBS não costuma pagar tão bem, mas passou a ter um yield interessante”, diz Ricardo França, analista de research da Ágora Investimentos. “No segmento de construção, indico a Tenda, mesmo com o impacto relevante na demanda por conta da crise.”

O gestor de ações da Infinity Asset, Victor Hasegawa, sugere a compra de ações da Vivo e da Vale. “A Vivo é um business maduro, com fluxo mais previsível. Não será tão atingida pela com a crise, apesar do impacto nos celulares pré-pagos”, afirma. “É uma empresa que paga bem, sem erro.”

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A Vale parou de pagar dividendos aos acionistas em 2018, quando eclodiu o primeiro dos desastres ecológicos de sua responsabilidade, em Brumadinho (MG). Mesmo assim, ele vê perspectivas animadoras para este ano. “Acreditamos que a distribuição de dividendos voltará neste ano. E a Vale tende a se beneficiar com a esperada retomada econômica da China no segundo semestre, que deve aumentar o consumo de minérios.”

A Petrobras vem tendo seus lucros comprometidos por diversos fatores que afetaram o preço do petróleo. Primeiro foi a disputa econômica entre Rússia e Arábia Saudita, no primeiro bimestre deste ano. Depois, a queda brusca no consumo do combustível levou ao colapso dos contratos futuros de óleo WTI para maio, o que fez o produto ter cotações negativas na Bolsa de Nova York pela primeira vez na história.

Em meio a um cenário tão turbulento, fica difícil para a petrolífera brasileira pagar dividendos interessantes enquanto não houver uma recuperação do preço do barril. “Mas ela está tão descontada que, em função do preço baixo da ação, o yield acaba sendo atrativo”, pondera Hasegawa.

Rentabilidade pode ser bem superior à da Selic

Na prática, com o rebaixamento do preço das ações, quem investir em papéis que pagam dividendos pode ter retorno três ou até quatro vezes maior que o da taxa Selic, hoje em 3,75%.

Como era de se esperar, o maior horizonte de rentabilidade está nas chamadas ações defensivas. São empresas que sofrem pouco com as crises, têm lucro previsível e pagam bons dividendos: energia elétrica e infraestrutura são exemplos clássicos.

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“Antes da crise, as elétricas já tinham retorno entre 6% e 7%. Como os preços de suas ações caíram entre 20% e 30%, o retorno dos dividendos superou facilmente a casa dos 10%. Na área de saneamento, a Copasa também caiu bastante e vai pagar dividendo na casa dos 15%”, diz Hasegawa.

Mas o gestor do Infinity garante que não é preciso recorrer às ações defensivas para obter uma rentabilidade nesse patamar. “No cenário atual, você tem várias empresas com yield acima de 10%. Os Itaú, Bradesco e Banco do Brasil são bons exemplos. No caso do Banrisul, como o papel está muito descontado, dá para esperar um retorno em torno de 20%.”

Crise ainda pode ter impacto negativo nos dividendos

Antes de se empolgar demais, porém, o investidor precisa levar em conta um dos mantras do mundo dos investimentos: rentabilidade passada não é garantia de retorno futuro. No caso dos dividendos, não dá para tomar uma decisão de compra com base no histórico de rentabilidade que essas empresas tinham antes do coronavírus.

A primeira razão para isso é bastante óbvia: a crise afeta os resultados das empresas. “Os dividendos nada mais são que o lucro distribuído aos acionistas. A lei obriga uma empresa a distribuir pelo menos 25% de seu lucro sob a forma de dividendos. Mas, se o lucro da empresa cair com a crise, o valor dos dividendos também cairá”, lembra Rafael Panonko, da Toro.

Pode ser também que algumas empresas optem por reduzir a distribuição de dividendos, justamente para se blindar nesse momento difícil. “Elas podem preferir usar os lucros para reforçar seu balanço, garantir sua saúde financeira e evitar problemas de liquidez”, conclui Ricardo França, da Ágora.

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