

A sessão de quinta-feira (3) foi de sangria para as bolsas globais – exceto para o Ibovespa. Os índices americanos S&P 500 e Nasdaq encerraram o dia com perdas de 5,97% e 4,84%, respectivamente. Os mercados europeus também derraparam com a repercussão dos investidores sobre as tarifas de importação do presidente americano, Donald Trump. O índice Euro Stoxx 50 fechou com uma queda de 3,59%. Já o principal índice da B3 conseguiu ficar próximo da estabilidade com um recuo tímido de 0,04%, aos 131.140,65 pontos.
O desempenho mostra que o estresse dos mercados globais com as novas tarifas de Trump não minou o rali da bolsa brasileira. Um levantamento da ComDinheiro-Nelogica, obtido pelo E-Investidor, mostra que o Ibovespa subiu 8,29% desde o dia 20 de janeiro, data da posse do republicano como presidente, até março. Já o Russell 1000, índice americano que reúne as principais empresas de capital aberto dos EUA, sofreu uma perda 11,63% no mesmo período.
Como mostramos aqui, a boa performance do IBOV frente aos índices americanos reflete as incertezas do mercado sobre os efeitos das tarifas de Trump para a economia dos EUA. Com esse cenário, os investidores estrangeiros têm vendido suas posições nas ações de big techs para investir em ativos com uma melhor relação risco-retorno, como o mercado brasileiro dado o seu alto nível de desconto. Em contrapartida, as “7 Magníficas”, grupo que reúne as principais empresas do setor de tecnologia americano, como Apple (AAPL) e Tesla (TSLA), perderam mais de US$ 2 trilhões em valor de mercado em 2025.
Publicidade
“Estamos vendo os investidores deixando teses mais sensíveis (voláteis) para teses mais sólidas de economia real. Quando olhamos para a bolsa brasileira, o investidor se depara com uma economia que o mundo precisa: commodities, banco (dinheiro) e energia”, diz Filipe Ferreira, Diretor de Negócios da ComDinheiro/Nelogica. “As empresas brasileiras estão crescendo e os resultados estão melhorando, mas isso ainda não refletiu no preço das ações”, acrescenta.
Aliado a isso, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) sinalizou, no dia 19 de março, a possibilidade de retomar o ciclo de afrouxamento monetário em 2025 após manter inalterados os juros americanos. Se isso acontecer, a tendência é que o mercado brasileiro fique mais atrativo para os “olhos” do investidor estrangeiro devido à diferença entre as taxas. “Teremos uma diferença de juros que resula em um prêmio interessante para o gringo. Isso favorecia uma vinda de capital estrangeiro ou a continuidade dela”, diz Enrico Cozzolino, head e sócio de análise da Levante Investimentos.
Até o momento, esses fatores contribuíram para a vinda do capital gringo em direção ao Brasil, embora em volumes tímidos. Em 2025, segundo dados mais recentes da B3, esse fluxo permanece com um saldo positivo de R$ 10,5 bilhões.
O que pode barrar o rali do Ibovespa?
Nesta quarta-feira (2), o mundo parou para acompanhar o anúncio do presidente americano, Donald Trump, sobre as novas tarifas para os todos os produtos estrangeiros que entram nos Estados Unidos. O Brasil recebeu a alíquota mínima de 10%, enquanto China, Europa, Vietnã e Camboja ficaram com taxas mais agressivas de até 49%. Além de elevar as tensões comerciais entre os países, as medidas protecionistas, que entram em vigor a partir desta quinta-feira (2), podem desencadear uma recessão econômica nos EUA ou, em um pior cenário, uma estagflação, quando há a combinação rara de alta dos preços junto com uma queda da atividade econômica, fenômeno bastante temido pelos economistas.
Publicidade
Se esse risco se tonar mais factível nas próximas semanas, Fernando Siqueira, head de research da Eleven Financial, acredita que o rali da bolsa brasileira deve estacionar. “Vai gerar aversão ao risco no mercado. Os investidores vão retornar ao dólar e evitar posição em países emergentes, como o Brasil”, diz Siqueira. Além dos riscos em torno da economia americana, o campo fiscal brasileiro pode ser outro fator preponderante para barrar a continuidade das altas.
No ano passado, quando os investidores se depararam com mudanças das metas fiscais e retorno do ciclo de alta de juros para lidar com as projeções de alta da inflação, os rendimentos dos títulos do Tesouro Direto, como os papéis indexados ao IPCA+, alcançaram patamares históricos e roubaram a atratividade da bolsa brasileira. O pessimismo fez o Ibovespa cair 10,36% no acumulado de 2024. O dólar também chegou a superar a marca dos R$ 6, reforçando a preocupação dos investidores com a trajetória da dívida pública.
“Isso preocupa porque nós temos um tripé econômico, formado pelo campo fiscal, monetário e cambial, que continua desacordada. No momento que esse risco começar a ganhar força novamente, o estrangeiro vai ficar de fora do Brasil”, avalia Alan Martins, analista da Nova Futura Investimentos. Esse gatilho pode ser desencadeado com a presença de novas medidas que possam expandir os gastos públicos para melhorar a popularidade do governo federal.
No acumulado do ano, o Ibovespa opera acima dos 130 mil com uma alta de 9,15%.
Publicidade