

O tarifaço de Donald Trump ainda vai levar um tempo para redefinir o comércio mundial, mas seus efeitos já podem ser sentidos nos juros. Desde a quarta-feira (2), dia do anúncio, as taxas do Tesouro Direto não pararam de corrigir para baixo, num reflexo da curva de juros futuros, que passaram a projetar menor inflação, inclusive no Brasil. Mas cautela ainda é a chave para proteger o patrimônio e, na renda fixa, os papéis de curto prazo parecem entregar a melhor solução, por enquanto.
“As taxas do Tesouro Direto derivam da curva de juros futuros. Por definição, os títulos mais longos estão suscetíveis a maior volatilidade e as políticas tarifárias tendem a reduzir o patamar de juros”, explica Laís Costa, analista da Empiricus Research.
Na quarta-feira (2), o presidente dos Estados Unidos anunciou uma nova leva de tarifas recíprocas a países que impõem impostos de importação a produtos americanos. O Brasil ficou no grupo dos países taxadas com o piso mínimo de 10%, enquanto as importações chinesas serão taxadas em 34% pelos EUA e as do Vietnã, no teto de 46%.
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No Brasil, houve efeito imediato do anúncio nos títulos do Tesouro. O Tesouro Prefixado com vencimento em 2028 saiu de 14,50% no início da quarta (2) para 14,20% na tarde de quinta (3), enquanto o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2029, caiu de 7,86% para 7,84%. A menor diferença, na quinta, entre a taxa nominal dos juros prefixados e a taxa real do IPCA+ indicam que os investidores também estão precificando uma menor inflação por aqui. Entenda neste artigo o conceito de inflação implícita.
Brasil tem seus próprios problemas
Mas por que investir no curto prazo, se as taxas estão caindo? Laís Costa alerta que o movimento reflete a agenda do governo Trump de dólar mais fraco e uma taxa de 10 anos em patamares menores. A moeda americana fechou a sessão desta quinta-feira (3) com forte queda de 1,20%, a R$ 5,6281. O problema, no entanto, é que o Brasil tem sua própria agenda. “Uma reprecificação significativa das taxas longas no Brasil passam, obrigatoriamente, por uma redução do risco fiscal”, reforça.
No curto prazo, por outro lado, as tarifas protecionistas de Trump são vistas como inflacionárias, com estimativas de aumento de até 1,5% na inflação dos EUA. Apesar disso, o risco de recessão, associado a um crescimento global mais fraco, aumenta a probabilidade de cortes de juros. E é dentro desse caldeirão de forças contrárias que o investidor precisa tomar a decisão de onde colocar seu dinheiro. “Por isso, mantemos nossa preferência por títulos pós-fixados de curto prazo neste momento.”
Apesar de concordar que pós-fixados como Tesouro Selic são uma boa opção, Alexandre Dellamura, mestre em economia e head de conteúdo da Melver, prefere avaliar os impactos de curto prazo. Para ele, a tarifação de Trump pode fazer o sentido oposto e desvalorizar o real frente ao dólar, estimulando o aumento de preços. Por isso, avalia, as taxas para produtos de renda fixa atrelados à inflação e prefixados, como Tesouro IPCA e Tesouro Prefixado, poderiam aumentar.
“Em momentos de tensão externa, os investidores tendem a exigir prêmio maiores para emprestar dinheiro ao governo, o que pode deixar esses títulos mais atraentes”, afirma. Ele concorda, no entanto que, diante das incertezas, o melhor é optar por vencimentos mais curtos. “O investidor pode evitar a compra agora para vencimentos longos, já que as taxas podem subir mais nos próximos dias, oferecendo melhores oportunidades.”
Diversificando no longo prazo
Para o economista Enrico Gazola, sócio-fundador da Nero AI Consultoria, diversificação é essencial. “Pós-fixados trazem segurança no curto prazo, enquanto NTN-Bs (Tesouro IPCA +) intermediárias (2029–2035) oferecem bom carrego com proteção inflacionária”, diz. Para quem tem horizonte longo e tolera volatilidade, títulos longos também abrem oportunidades nesses momentos de estresse. “O segredo é balancear o duration (prazo médio do título ajustado ao risco de juros) e estar atento ao Fed.”
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A analista sênior de Produtos Financeiros de Renda Fixa da Ágora Simone Albertoni concorda que os investimentos de menor duração dão mais segurança. Ela explica que títulos de longo prazo mostram maior sensibilidade, especialmente aqueles de remuneração prefixada ou indexados a juros reais, como o IPCA+. “Títulos atrelados ao CDI apresentam maior resiliência, ajustando-se de forma mais eficiente às oscilações e proporcionando menor volatilidade aos investidores.”
Contudo, avalia, há oportunidades nos níveis atuais de juros para estratégias de buy and hold (compra e segura). “Títulos com remuneração prefixada ou atrelada à inflação (juros reais) têm se mostrado especialmente vantajosos”, diz. Na opinião dela, para horizontes de longo prazo, títulos públicos indexados à inflação, como as NTN-Bs (Tesouro IPCA+), representam uma escolha de baixo risco. “Já para investidores com maior apetite ao risco, debêntures incentivadas oferecem prêmios superiores aos das NTN-Bs, configurando-se como uma alternativa atrativa”, ressalta.
A especialista ainda identifica boas taxas nos CDBs prefixados emitidos por bancos de médio porte, com prazos de até três anos. “Esses instrumentos contam com a proteção do FGC, adicionando segurança à estratégia.” O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) cobre até R$ 250 mil por CPF e instituição em caso de quebra de bancos, corretoras ou financeiras.