Payroll, IPCA e juros: por que um único dado não muda o rumo da Selic e o que realmente move Bolsa e câmbio (Foto: Adobe Stock)
O mercado financeiro atravessa um daqueles dias em que um conjunto de eventos, e não um dado isolado, pode redefinir os preços dos ativos no Brasil e no exterior. Nesta sexta-feira (9), o Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou oÍndice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de dezembro, que fechou em alta de 0,33%, ante um avanço de 0,18% em novembro. Além disso, o mercado ainda aguardo o payroll nos Estados Unidos. Somadas à reação do dólar e aos ruídos geopolíticos na América Latina, com a Venezuela no radar, formam um pano de fundo que influencia diretamente juros futuros, Bolsa e câmbio, com reflexos no bolso do investidor.
Embora parte dos analistas acompanhe com atenção o IPCA fechado de dezembro (o resultado acumulado em 12 meses foi de 4,26%, ante taxa de 4,46% de novembro), há quase unanimidade em afirmar que um único dado não “vira o jogo” da política monetária. O que importa é a consolidação das informações (inflação, atividade, mercado de trabalho e cenário externo) e como elas se traduzem nas expectativas para os juros.
Para Alexandre Mathias, estrategista-chefe da Monte Bravo, a política monetária é calibrada a partir de projeções, não de surpresas pontuais.
“Não existe um dado singular mais importante. A queda recente da inflação, tanto nos índices cheios quanto nos núcleos, combinada com acomodação da atividade e estabilidade do câmbio, faz com que a projeção de inflação esteja apenas alguns décimos acima da meta”, afirma.
Segundo ele, o IPCA de dezembro deve registrar alta em torno de 0,4%, levando a inflação acumulada de 2025 para cerca de 4,3%, em linha com o consenso.
“Uma surpresa muito grande seria um desvio acima de 0,15 ponto percentual, algo improvável. Mesmo se isso acontecer, o impacto tende a ser mitigado quando se olha o quadro geral”, diz.
Juros futuros e cortes na Selic, o que vem por aí?
Essa leitura ajuda a entender por que a queda recente dos juros futuros não deve ser interpretada como uma aposta explícita contra o Banco Central. O movimento reacendeu a tese de que o mercado estaria “correndo na frente” do Comitê de Política Monetária (Copom) e antecipando cortes da Selic, mas especialistas veem o ajuste como gradual e relativamente alinhado ao discurso oficial.
Marcelo Freller, estrategista de produtos de investimento do C6 Bank, contesta a ideia de que houve uma reação abrupta à última reunião do Copom.
“Eu não vejo o juro futuro caindo com força após a decisão. Pelo contrário, a reação foi compatível com uma reunião que não sinalizou corte já em janeiro”, afirma.
Na avaliação de Freller, o alívio na curva esteve mais ligado a fatores externos, como a queda do petróleo, dados mais fracos da economia americana e o recuo dos rendimentos dos Treasuries, do que a uma mudança de postura do Banco Central brasileiro.
Em dias como o atual, com payroll no radar e maior volatilidade do dólar, esse canal externo ganha ainda mais peso.
“O Copom está se mostrando bastante duro no combate à inflação, e o mercado está entendendo isso. A precificação de cortes ao longo de 2026 está alinhada com os próprios modelos do Banco Central”, diz.
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Hoje, a curva futura embute uma Selic em torno de 12,5% ao fim do ciclo, cerca de 250 a 300 pontos-base abaixo do nível atual de 15%. Para Freller, isso não foge do padrão típico dos ciclos monetários: o mercado tenta antecipar, mas sem exageros evidentes.
Ainda assim, o pano de fundo segue sensível. As expectativas de inflação de longo prazo permanecem desancoradas, com inflações implícitas próximas de 6% ao ano, o dobro da meta.
“O mercado não acredita que a inflação brasileira vá ficar nem perto da meta“, afirma Freller, explicando por que os juros futuros seguem elevados em termos históricos.
Além do número: a composição da inflação no radar do Banco Central
Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, reforça que o Banco Central olha o “filme”, não a “foto”. “Um dado isolado não muda o jogo. O foco está nas medidas subjacentes, especialmente nos serviços intensivos em trabalho, que seguem pressionados”, diz.
Segundo Cardoso, embora as expectativas de inflação tenham caminhado na direção correta, a maior resistência ainda está nos serviços.
“Surpresas nesses itens perenes têm mais peso para a reação do Banco Central do que oscilações pontuais no índice cheio”, ressalta.
Para ele, o IPCA de dezembro não deve alterar a expectativa de início do ciclo de cortes em março e, se houver mudança, a inclinação é mais para postergação do que antecipação.
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Alexandre Maluf, economista da XP, reforça que dezembro deixou de ser um mês “especial” após a mudança do horizonte da política monetária para um regime móvel. Ainda assim, o dado é observado pelo seu conteúdo, sobretudo em serviços. “O Banco Central quer atuar onde os preços refletem o ciclo da economia”, afirma.
A influência do mercado de trabalho
Maluf destaca que o mercado de trabalho segue forte, com criação robusta de vagas, desemprego em mínimas históricas e crescimento salarial, o que sustenta a atividade, mas também pressiona a inflação.
“Janeiro, para corte de juros, está praticamente fora do radar. Nosso cenário base é março”, diz.
Se o IPCA vier melhor do que o esperado, com composição mais benigna, a reação tende a ser clássica: queda dos juros futuros, valorização da Bolsa e apreciação do real frente ao dólar. O impacto sobre crédito e consumo, porém, é defasado e depende do acúmulo de sinais de reequilíbrio da economia.
Na prática, a curva já conta uma história diferente da Selic “parada” em 15%. Lais Costa, analista da Empiricus, chama atenção para o descompasso entre taxa corrente e expectativa futura. “A curva longa já mostra rendimentos mais baixos. Se o investidor olha só para a Selic, pode criar uma expectativa errada de retorno”, explica.
Esse movimento ajuda a entender por que o fechamento da curva longa foi um dos principais motores da forte alta da Bolsa em 2025. O Ibovespa caminha para encerrar o ano com valorização superior a 30%. Para Filipe Ferreira, professor do Insper e sócio da CTW Consultoria, o movimento reflete correção, não euforia. “Uma queda de dois pontos percentuais no custo de capital gera um impacto enorme no valor presente das empresas”, afirma.
No fim das contas, o dia reforça uma mensagem central: não é um dado isolado (seja IPCA, payroll ou câmbio) que define o rumo dos mercados, mas a combinação entre inflação, atividade, política monetária e cenário externo. Para o investidor, entender a curva de juros, e não apenas a Selic do presente, segue sendo essencial para calibrar risco, retorno e proteger o bolso em dias de maior volatilidade.
Como isso impacta o investidor
Diante desse quadro, o impacto prático para o investidor pessoa física depende, sobretudo, do perfil de risco. Para Freller, investidores conservadores e moderados ainda encontram uma oportunidade rara de “surfar” juros elevados com baixo risco, por meio de títulos pós-fixados do Tesouro, como as LFTs.
“É um juro muito alto, sem volatilidade relevante e com risco soberano”, afirma.
Já investidores com maior tolerância a oscilações podem considerar alongar prazos em NTN-Bs (títulos públicos atrelados à inflação) longas, fixando juros reais elevados por décadas, mas sempre com cautela. “Esses papéis chacoalham bastante. O risco é o investidor conservador entrar e sair no pior momento”, alerta.
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A queda dos juros futuros não indica, por ora, que o mercado esteja “correndo na frente” do Banco Central de forma descolada. O que se vê é uma antecipação gradual e relativamente alinhada ao discurso oficial, combinada a fatores globais e expectativas inflacionárias ainda frágeis. Para o investidor, entender a curva (e não apenas a Selic do presente) é essencial para calibrar expectativas, riscos e oportunidades em renda fixa, Bolsa e crédito privado.