Os rendimentos dos títulos de renda fixa dos Estados Unidos, os Treasuries, estão em níveis historicamente altos e chegaram a bater o recorde de 5,1969% no dia 19 de maio de 2026, maior patamar desde 2007.
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Os rendimentos dos títulos de renda fixa dos Estados Unidos, os Treasuries, estão em níveis historicamente altos e chegaram a bater o recorde de 5,1969% no dia 19 de maio de 2026, maior patamar desde 2007.
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Apesar de 9 em cada 10 agentes de mercado concordarem que faz sentido investir com os juros na máxima, pois títulos públicos operam com lógica inversa à de ações, quando a vantagem é comprar na baixa, essa aplicação só faz sentido para quem busca proteção em dólar e diversificação cambial. Em outras palavras, os Treasuries americanos não funcionam como substituto da renda fixa brasileira.
“Mesmo com yields (rendimentos) elevados nos EUA, o retorno líquido após custos e impostos tende a ser inferior em termos reais, a menos que haja apreciação relevante do dólar ou queda expressiva da curva de juros americana. Acredito que a decisão passa mais por diversificação e proteção do que por arbitragem de retorno puro”, observa Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
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O maior desincentivo em apostar nas taxas americanas é que o Brasil oferece, hoje, um dos maiores juros reais do mundo. Com a Selic em 14,5% ao ano, após o corte de abril, e o IPCA acumulado em 4,39%, o juro real brasileiro chega próximo de 10% ao ano, enquanto a taxa real de longo prazo nos EUA fica entre 1,5% e 2%. “Nível condizente com o potencial de crescimento da economia americana”, observa Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
Simulação do professor do Insper e sócio da CTW Consultori Filipe Ferreira, feita a pedido do E-Investidor, reforça o argumento. Para Ferreira, mesmo no cenário mais otimista para os EUA, a diferença em relação ao Brasil diminui, mas fica longe de acompanhar a rentabilidade local.
“Como temos taxas de juros muito altas no Brasil, elas acabam premiando quem deixa o dinheiro aqui e isso fica evidente quando a gente vê as tabelas”, afirma. Na visão dele, o investidor local tem a sorte de “ganhar dinheiro no mercado financeiro sem grandes sofisticações”.
| Treasury Americano vs. Títulos do Tesouro Brasileiro | ||||
| Simulação comparativa — Investimento de R$ 10.000 | Horizonte: 5 anos | Dados: Professor Filipe Ferreira | ||||
| PREMISSAS DA SIMULAÇÃO | ||||
| Investimento inicial: | R$ 10.000 (convertido para dólares = US$ 1.994,42 (Taxa R$ 5,01) | |||
| Instrumento analisado: | US Treasury Bond de 30 anos | Yield atual: 5,1% ao ano | Hold: 5 anos | |||
| Cenário Otimista para EUA: | Dólar sobe 20% em 5 anos | Inflação EUA: 2,5% a.a. | |||
| Cenário Neutro para EUA: | Câmbio estável | Sem variação cambial relevante | |||
| Cenário Pessimista para EUA: | Real se valoriza 15% em 5 anos | Inflação EUA: 4% a.a. | |||
| Comparativo: | Tesouro Selic (trajetória de 5 anos) | Valores em dólares americanos | |||
| RESULTADOS AO FINAL DE 5 ANOS (em dólares americanos — US$) | ||||
| CENÁRIO | TREASURY AMERICANO | TESOURO SELIC (Brasil) | ||
| Cenário | Valor Líquido (após IR, US$) |
Valor Bruto (antes IR, US$) |
Valor Líquido (após IR, US$) |
Valor Bruto (antes IR, US$) |
| 🟢 OTIMISTA Dólar +20% | Inf. EUA 2,5% |
US$ 2.284,91 | US$ 2.456,52 | US$ 2.871,15 | US$ 3.204,28 |
| ⚪ NEUTRO Câmbio estável |
US$ 2.387,21 | US$ 2.456,52 | US$ 3.567,52 | US$ 3.845,13 |
| 🔴 PESSIMISTA Real +15% | Inf. EUA 4% |
US$ 2.444,59 | US$ 2.456,52 | US$ 4.287,72 | US$ 4.523,69 |
| Investimento inicial (referência): | R$ 10.000 = US$ 1.994,42 | |||
| * Simulação elaborada pelo professor do Insper Filipe Ferreira. Valores em dólares americanos. Treasury: 30 anos, 5,1% a.a. (yield atual), hold parcial de 5 anos. | ||||
| * IR sobre ganhos de capital (Treasury): 15% para residentes no Brasil conforme legislação vigente. Tesouro Selic: IR regressivo (15% para prazo > 720 dias). | ||||
Além disso, há a barreira tributária. “Um Treasury de 5,2% em dólar, descontados o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) na remessa, o spread cambial (custo de conversão) e a tributação no Brasil, dificilmente entrega retorno líquido superior ao que se obtém em um Tesouro IPCA+ pagando IPCA mais 7,5% ao ano”, diz André Matos, CEO da MA7 Negócios.
“A alocação em Treasuries para esse perfil [conservador] deve ser pensada como hedge cambial e diversificação geográfica, e não como busca por rentabilidade absoluta”, reforça.
A margem de intermediação do banco ou corretora no chamado spread cambial pode chegar a 3% do total convertido em dólar. E sobre esse tipo de remessa com fins de investimento, o IOF incide sobre 1,1% do total. No caso do Imposto de Renda, pago no Brasil, o recolhimento segue a regra dos investimentos internacionais, com alíquota de 15% sobre o lucro a serem pagos no ajuste anual, com possibilidade de compensação de perdas.
Dentre as incertezas, o risco cambial pode reverter o ganho em dólar caso o real se valorize e há mais um fator a ser considerado, a exposição ao mercado de juros, que num título de 30 anos é bem relevante.
Como toda renda fixa com prazo definido, o investidor que adquire Treasuries está se expondo ao risco de juros. Se as taxas subirem após a compra, o preço do título cai, gerando uma marcação a mercado negativa para quem precisar vender antes do vencimento. “Quanto maior o prazo do título, maior essa sensibilidade”, lembra Shahini.
E na visão do especialista da Nomad, com as incertezas de curto prazo causadas pelos conflitos geopolíticos, o futuro ficou mais incerto e isso chega no preço dos títulos de vencimentos mais longos.
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Ele diz que o mercado de juros americanos está passando por uma mudança importante no prêmio de prazo, o term premium, que é a compensação adicional que os investidores exigem para manter um título de longo prazo em vez de rolar sucessivamente títulos de curto prazo.
Esse prêmio reflete incertezas sobre o caminho futuro da política monetária, da inflação e da própria demanda pelos títulos. “Após anos em território negativo ou próximo de zero, o term premium passou por uma mudança relevante e vem numa tendência de alta, sendo estimado atualmente em aproximadamente 80 pontos-base (0,8%) segundo modelos do próprio Fed”, explica o especialista, lembrando que essa característica também está afetando as demais economias desenvolvidas.
No caso dos EUA, o prêmio de prazo mais elevado foi turbinado pela troca de comando do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, com a chegada de Kevin Warsh à presidência da instituição, no dia 22 de maio de 2026. Um dos principais receios do mercado é que o indicado de Donald Trump acabe afrouxando a política monetária enquanto a inflação ainda está pressionada, especialmente com o choque de petróleo por causa do conflito no Irã.
Trump é um crítico dos juros altos nos EUA, mas esse movimento é reflexo de alguns vetores. “A deterioração fiscal americana, com aumento estrutural da emissão de dívida longa, prêmio de prazo mais elevado diante da incerteza sobre o regime de política monetária sob Kevin Warsh, e resiliência da economia dos EUA que posterga cortes de juros”, enumera Lima, da Ouro Preto.
Apesar de mais incertezas refletidas no preço dos títulos, os analistas acreditam que as taxas de longo prazo seguem relativamente sob controle. “Movimentos acima de 5,5% ou 6% (para um título de 30 anos) dependeriam de surpresas inflacionárias ou ajustes mais agressivos do Fed, mas a tendência atual indica manutenção de juros altos por mais tempo”, diz Vitor Moscatelli, diretor de administração fiduciária da Azumi Investimentos.
Os Treasuries são títulos da dívida pública emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos, considerados o ativo de menor risco do mundo. Eles se dividem em três categorias: os Treasury Bills, de curto prazo, com vencimento de até um ano; os Treasury Notes, de médio prazo, entre dois e dez anos; e os Treasury Bonds, de longo prazo, com vencimentos de vinte ou trinta anos.
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Para operar, a pessoa física pode acessar esses títulos de duas formas principais: “o investidor pode comprar diretamente por meio de corretoras com conta internacional, ou indiretamente, via ETFs negociados aqui na B3, como o IB5M11 e o USTB11, que oferecem exposição em reais, ou via BDRs de ETFs americanos”, diz Matos, da MA7.
Há ainda os TIPS (Treasury Inflation-Protected Securities), que seriam a NTN-B (Tesouro IPCA+) dos EUA, títulos que corrigem pela inflação, dando proteção real ao investidor. Veja aqui como comprar Treasury pelo Brasil através de ETFs.
| Os quatro principais tipos de Treasuries americanos | |||
| Títulos públicos emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos — classificação por prazo e estrutura | |||
| Tipo | Prazo / Vencimento | Pagamento de Cupom | Características principais |
| T-Bills (Treasury Bills) |
Até 1 ano | Não paga | Emitidos com desconto em relação ao valor de face (US$ 1.000). O investidor compra abaixo do par e recebe o valor cheio no vencimento. Instrumento de curto prazo e alta liquidez. |
| T-Notes (Treasury Notes) |
2 a 10 anos | Semestral | Os mais negociados do mercado global de renda fixa. Pagam cupons semestrais. Referência para hipotecas e crédito corporativo nos EUA. |
| T-Bonds (Treasury Bonds) |
20 ou 30 anos | Semestral | Títulos de longo prazo. Pagam cupons semestrais. São justamente esses os instrumentos cujos rendimentos ultrapassaram 5% a.a. no cenário atual, atraindo atenção de investidores globais. |
| TIPS (Inflation-Protected) |
5, 10 ou 30 anos | Semestral (ajustado) |
O principal é corrigido pelo CPI (inflação americana). Tanto o valor de face quanto os cupons se ajustam conforme a variação dos preços, oferecendo proteção real ao investidor. |
| Fonte: Nomad | |||
Apesar de não serem páreo para os juros brasileiros, os títulos americanos têm muitas vantagens como veículos de investimento. No mercado institucional, os Treasuries são utilizados como instrumentos de proteção dos portfólios em crises que afetam o sentimento de risco e o crescimento mundial.
“Para se ter ideia, na crise de 2008 um índice de Treasuries de longo prazo rendeu aproximadamente 37% em dólares em resposta ao grande choque na atividade decorrente da crise no setor bancário americano”, lembra Shahini, da Nomad. “Na pandemia não foi diferente: o mesmo índice rendeu quase 20% em um momento em que os bancos centrais cortavam os juros para 0% e a política monetária era reprecificada.”
Para o mercado brasileiro, os juros elevados nos EUA são uma péssima notícia. As taxas elevadas na principal economia do mundo aumentam o custo global de capital e reduzem o prêmio relativo de emergentes, o que tende a pressionar câmbio e reduzir a atratividade dos ativos brasileiros.
“Quando o investidor consegue 5,2% em dólar com risco soberano americano, ele exige um prêmio muito maior para correr risco emergente”, explica Matos, da MA7.
Não por acaso o mercado brasileiro vem sentindo o impacto da reprecificação dos Treasuries. Os juros futuros no Brasil também estão em movimento de abertura. Os títulos DI com vencimento em 2032 aumentaram cerca de 7% nos últimos 15 dias, assim como o dólar passou a valorizar frente ao real — algo em torno de 2,5% no mesmo período. Além disso, em maio deste ano, a Bolsa brasileira viu um forte fluxo de saída do capital estrangeiro, algo em torno de R$ 11,7 bilhões até o dia 20.
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