

O novo pacote tarifário anunciado por Donald Trump nesta terça-feira (2) reacendeu os temores de desaceleração econômica global e mais inflação. Com uma alíquota base de 10% para todos os países e sobretaxas de até 34% para rivais estratégicos como a China, os impactos imediatos foram sentidos nos juros dos títulos americanos de 10 anos, que despencaram para 4,10%, e as bolsas caindo no after-market, refletindo o receio de perda de fôlego dos EUA. Um cenário que exige cautela dos investidores.
Para o Brasil, que foi alvo apenas da tarifa mínima de 10%, o efeito direto tende a ser limitado — mas o cenário global pode forçar o Banco Central a manter os juros altos por mais tempo. Já exportadores do agronegócio e setores com concorrência direta com os EUA podem ganhar espaço no mercado internacional, num reposicionamento que pode favorecer o País. “A reação do mercado aponta que a percepção predominante é de que as tarifas colocarão a economia americana em direção à recessão”, aponta André Valério, economista sênior do Inter.
Um possível cenário de alta de preços com desaceleração econômica poderia gerar uma onda inflacionária global, devido ao aumento de custos no comércio internacional. Países emergentes, como o Brasil, seriam afetados. “Os juros seguem em trajetória de alta, e um ambiente de inflação global mais elevada exigiria um aumento ainda maior e por mais tempo”, opina Fernando Bento, CEO e sócio da FMB Investimentos.
Impacto na cesta básica
Os impactos podem ter efeitos até mesmo em produtos da cesta básica, aponta Álvaro Bandeira, coordenador da Comissão de Economia da Apimec Brasil. “Certamente teremos efeitos inflacionários a serem absolvidos no mundo inteiro, que podem atingir setores de formas distintas. Produtos da cesta básica, aço e o alumínio certamente terão tarifas maiores do que 10%”, avalia.
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Gianluca Di Matina da Hike Capital não acredita em impacto sobre a cesta básica, pelo menos, não no curto prazo. “Ainda terá a contraproposta dos países”, diz. As tarifas dos EUA afetam principalmente o comércio internacional e setores industriais, como aço, alumínio, grãos, semicondutores, automóveis e fármacos. “O Brasil é forte produtor de alimentos e menos dependente de exportações no segmento industrial”, ressalta.
Como o Brasil pode se beneficiar
Por outro lado, o Brasil também pode colher ganhos pontuais com o redirecionamento de fluxos comerciais. Produtos que os Estados Unidos deixarem de comprar da China, por conta das tarifas, podem ser substituídos por exportações brasileiras — especialmente no agronegócio. O mesmo movimento pode ocorrer no sentido inverso, aponta o executivo da FMB. Caso a China e Europa reajam com retaliações, o Brasil pode ocupar espaço deixado pelos americanos nesses mercados. Tudo dependeria, agora, das próximas rodadas de negociação. “A gente vai ver concessões sendo feitas ao longo das próximas semanas. Esse foi um convite (de Trump) para a mesa de diálogos”, opina Marcos Freitas, analista macroeconômico da AF Invest.
“O Brasil pode realmente se beneficiar, os EUA estão deixando na mesa uma demanda global”, diz o economista André Perfeito. Na sua avaliação isso abre espaço para um conjunto maior de parceiros comerciais, mas ainda seria cedo para saber exatamente quais deles e quais setores podem absorver essa oportunidade. “Para dizer onde vai cair essa bola, isso ainda vai ser objeto de análise.”
André Diniz, economista-chefe da Kinea, também observa que o comércio mundial terá uma mudança relevante, mas que ainda é necessário tempo para entender os detalhes e os impactos nos países e inflação, “no que seria um novo equilíbrio para as moedas”.
O que o investidor deve olhar
Para os investidores, o momento é de atenção redobrada. As decisões comerciais de Trump não afetam apenas as grandes economias, elas terão reflexos práticos nas carteiras de investimentos. Diante de tantas incertezas, a conselheira do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), Lucy Aparecida de Sousa, recomenda investimentos conservadores. “Na renda variável, ações de empresas que exportam para os EUA devem ser afetadas”, observa. Para ela, com a taxa de juros alta por mais tempo, o melhor caminho seria permanecer em títulos e fundos de renda fixa, tomando cuidado com ativos de alto risco e muita volatilidade.
Além da maior cautela, Gianluca Di Matina diz que o investidor deveria evitar exposição direta ao dólar e a empresas muito endividadas. No mercado acionário ele diz que é bom ficar longe de companhias ligadas ao setor industrial, como aço, alumínio, grãos, semicondutores, automóveis e fármacos, “e com uma maior dependência do mercado americano”.
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Apesar de um efeito de curto prazo ruim com queda no PIB, pressão sobre empresas e reação dos eleitores, as medidas de Trump, que também incluem corte de gastos governamentais e desregulamentação, podem ter um efeito positivo no longo prazo, aponta Felipe Nobre, CEO da Jera Capital. A aposta é de que esse choque corrija distorções, reduza o tamanho do Estado e fortaleça a competitividade americana, “desde que o remédio seja bem dosado”, o que abriria oportunidades na renda variável para quem olha no longo prazo.