Segundo relatório da Genial Investimentos, o lucro ficou 40% acima do consenso de mercado (R$ 4,11 bilhões) e 30% acima da estimativa da própria casa (R$ 4,42 bilhões), “por conta principalmente de uma alíquota positiva de imposto”. O lucro antes de impostos (LAIR), porém, somou R$ 4,77 bilhões, queda de 62,5% em relação ao ano anterior e 19% abaixo das estimativas da casa, evidenciando que o resultado final foi fortemente beneficiado por uma alíquota efetiva positiva de 38% (ante +18% no 3T25 e -18% no 4T25), impulsionada pelo pagamento de R$ 1,5 bilhão em juros sobre capital próprio (JCP) e créditos tributários.
O lucro do BB no 4T25 veio 36% acima da previsão dos analistas consultados pelo Prévias Broadcast. A projeção era de ganho de R$ 4,21 bilhões no período, de acordo com a média das estimativas de sete casas consultadas (Citi, BTG Pactual, Itaú BBA, Bank of America, Goldman Sachs, Morgan Stanley e XP).
Mas nem por isso as expectativas são positivas para o desempenho das ações do BB na quinta-feira (12). “Para mim, o mercado pode ‘engolir mal’ os números do Banco do Brasil. Claro que também vai depender do cenário como um todo, do bom ou mau humor da Bolsa brasileira, mas não acho que o resultado vai animar muitos investidores”, afirma Felipe Sant’Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing.
Segundo Sant’Anna, o lucro reportado pela empresa não foi tão satisfatório quanto o de outros bancos. O Itaú (ITUB4) teve lucro líquido recorrente de R$ 12,3 bilhões no mesmo período, enquanto o Bradesco (BBDC3;BBDC4) reportou uma cifra de R$ 6,5 bilhões. “Começa a existir um intervalo considerável entre os resultados, o que pode abrir margem para um giro na carteira do investidor”, diz.
Fernando Siqueira, head de research da Eleven Financial, também enxerga espaço para uma reação negativa no mercado, com a piora nos indicadores de inadimplência. A taxa de inadimplência de 90 dias na carteira de crédito atingiu 5,17% em dezembro, elevação de 66 pontos-base na comparação com setembro de 2025.
Já a inadimplência da carteira de agronegócio atingiu 6,09%, aumento de 125 pontos-base no trimestre. “Tínhamos visto uma piora grande no crédito rural no começo de 2025, depois alguns sinais de estabilização no terceiro trimestre, mas agora no quarto trimestre veio uma piora não esperada, que vejo como o ponto negativo do resultado”, afirma Siqueira.
No 4T25, as provisões do Banco do Brasil para créditos de liquidação duvidosa somaram R$ 19,036 bilhões, alta de 87% em relação ao mesmo período de 2024. Em um trimestre, as provisões subiram 6,2%. No ano, o banco fez R$ 65,405 bilhões em provisões, avanço de 57,9%.
Segundo a Genial, ajustando pelo benefício fiscal, o resultado operacional permanece pressionado pelo custo de crédito elevado, R$ 18 bilhões no trimestre, e pela deterioração contínua do agronegócio. O custo do crédito acumulado em 2025 somou R$ 61,9 bilhões, bem acima do patamar histórico pré-crise agro, que girava em torno de R$ 35 bilhões.
Do total de provisões, R$ 10,5 bilhões foram para a carteira de agronegócio, de R$ 8,769 bilhões nos três meses anteriores. “As provisões não cresceram na mesma intensidade do aumento da inadimplência, o que ajuda a explicar por que o lucro ficou até acima do registrado no trimestre anterior”, explica o head de research.
Relatório do Safra também classificou o resultado como de qualidade inferior, apesar do lucro por ação acima do esperado. O banco destaca que o desempenho foi beneficiado por menores despesas de financiamento, contribuição positiva do Banco Patagonia, cobertura de provisões abaixo da formação de novos inadimplentes e imposto de renda positivo devido a maiores deduções.
Para o Safra, os R$ 22 bilhões em empréstimos renegociados no âmbito da Medida Provisória (MP) 1.314 geraram alívio relevante, elevando o índice de capital principal (CET1) em 144 pontos-base e melhorando a composição da carteira rural. Ainda assim, a casa reiterou recomendação neutra, avaliando que os indicadores de qualidade de ativos seguem pressionados.
Projeções para 2026
O Banco do Brasil apresentou guidance (projeção) para 2026 com lucro líquido ajustado entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões. O intervalo implica crescimento de 6% a 26% frente aos R$ 20,7 bilhões de 2025 e um retorno sobre o patrimônio (ROE) implícito próximo de 12% no ponto médio.
Para a Genial, a projeção frustra expectativas iniciais do mercado, que meses atrás giravam em torno de R$ 29 bilhões (ROE de 14%). Mesmo com revisões recentes, o consenso atual está na faixa de R$ 23,5 bilhões a R$ 24,5 bilhões. “O guidance confirma que a recuperação deve ser mais lenta e gradual do que o esperado”, avalia a casa, que vê o ROE ainda abaixo do custo de capital estimado em cerca de 18% a 19%.
A carteira de crédito total deve crescer entre 0,5% e 4,5% em 2026, indicando praticamente estagnação. A projeção inclui expansão de 6% a 10% em pessoa física, mas variação entre -3% e 1% em pessoa jurídica e entre -2% e 2% no agronegócio. Para o custo do crédito, a estimativa é de R$ 53 bilhões a R$ 58 bilhões, melhora em relação a 2025, mas ainda em patamar elevado frente à média histórica.
Rentabilidade do BB
O Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) do Banco do Brasil, um dos pontos de atenção para os investidores, foi de 12,4% no 4T25, comparado com 8,4% no trimestre anterior e 20,8% um ano antes. A rentabilidade do BB está abaixo da de outros “bancões”. O ROE do Itaú foi de 24,4% e o do BTG Pactual (BPAC11) foi de 27,6% no quarto trimestre, enquanto Santander (SANB11) e Bradesco entregaram indicadores de 17,6% e 15,2%, respectivamente.
Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, avalia que, embora o lucro do Banco do Brasil ter vindo acima do consenso no trimestre seja positivo, a companhia ainda tem um “dever de casa” a cumprir em relação a custos operacionais para conseguir aumentar a rentabilidade. “O ROE ainda está bem abaixo dos outros players do mercado, mas se a empresa fizer o dever de casa, a rentabilidade pode voltar à naturalidade, dada a operação robusta do banco”, diz.
Apesar dos desafios, o BB segue negociando a múltiplos descontados, segundo a Genial. Cerca de 0,74 vez o valor patrimonial e 6,9 vezes o lucro estimado para 2025. A casa mantém recomendação de manter, com preço-alvo próximo a R$ 25, destacando que uma normalização mais clara do crédito rural e eventuais fatores políticos em 2026 podem atuar como gatilhos de reprecificação.
JCP de R$ 1,2 bilhão
O BB também anunciou que irá distribuir R$ 1.234.746.707,80 a título de remuneração aos acionistas sob a forma de juros sobre capital próprio (JCP), relativos ao quarto trimestre de 2025.
Os valores serão pagos em 5 de março e terão como base a posição acionária de 23 de fevereiro, sendo as ações negociadas “ex-diretos” (sem direito aos proventos) a partir de 24 de fevereiro. O valor a ser pago por papel corresponde a R$ 0,21630429188.
Em janeiro, o Banco do Brasil já havia informado que o seu conselho de administração aprovou o payout (porcentagem do lucro distribuída na forma de proventos) de 30% para 2026, via JCP ou dividendos. Confira nesta matéria o calendário completo de pagamento de proventos da empresa para o ano.