Mas todas essas expectativas foram quebradas meses depois com a decisão do governo de alterar as metas fiscais em abril. A medida piorou o risco do País em relação às contas públicas e a relação da Faria Lima com Brasília. Nem mesmo o pacote de corte de gastos anunciado no fim de novembro foi capaz de reverter o estrago.
O resultado da sequência desses eventos fez preço tanto na Bolsa de Valores quanto no mercado de renda fixa. O Ibovespa, principal índice da B3, entrou em sequência de perdas e encerrou 2024 com uma queda de 10% no acumulado do ano, aos 120.750,96 pontos. Já os títulos públicos prefixados encerraram o ano com prêmios superiores a 15%, enquanto os indexados ao IPCA+ apresentaram rentabilidades próximas a 8% de ganho real.
Por outro lado, o ambiente desfavorável para os ativos de Bolsa não se tornou um problema para um grupo seleto de companhias cujas ações tiveram um desempenho contrário à média do mercado. É o caso dos papéis Embraer (EMBR3) que encerraram 2024 com um avanço de 150,96% no acumulado do ano, sendo a maior alta entre as ações que compõem a carteira do Ibovespa.
Os motivos por trás da valorização estão relacionados com os novos negócios em sua divisão de Defesa e Segurança. Segundo a Ágora Investimentos, além do interesse dos membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), as aeronaves C-390 e A29 Super Tucano ganham cada vez mais espaço no mercado global. Há ainda possibilidades de novos pedidos feitos pela Índia e pela Arábia Saudita.
“O mercado de aviação executiva tem se mostrado aquecido, o que somado ao fluxo da aviação comercial, permitiu à companhia dar sequência ao processo de recuperação operacional pós-pandemia. Além disso, o segmento de Serviço e Suporte também tem ganhado maior relevância”, destacaram os analistas da Ágora Investimentos em relatório publicado no último dia 20.
Veja as ações mais rentáveis do Ibovespa em 2024
| Ações |
|
| Embraer (EMBR3) |
150,96% |
| Marfrig (MRFG3) |
104,93% |
| BRF (BRFS3) |
87,99% |
| Santos Brasil (STBP3) |
69,42% |
| JBS (JBSS3) |
58,24% |
| Fonte: Ágora Investimentos |
As ações das empresas ligadas ao setor de proteínas também saíram ilesas da depreciação da Bolsa de Valores com o aumento do risco fiscal do País. Assim como a Embraer, os papéis da Marfrig (MRFG3), BRF (BRFS3) e JBS (JBSS3) estiveram na contramão do Ibovespa e encerraram 2024 com ganhos de 104,93%, 87,99% e 58,24%, respectivamente.
Como mostramos nesta reportagem, o desempenho positivo reflete as características do setor econômico em que essas empresas atuam. Por serem exportadoras e com operações no exterior, as empresas de frigoríficos se beneficiaram com a recente disparada do dólar que rompeu, pela primeira vez, a cotação dos R$ 6. “Sem dúvida, é o setor vencedor dentre os principais do Ibovespa”, ressalta Idean Alves, planejador financeiro e especialista em mercado de capitais. “O efeito da valorização do dólar ajuda a melhorar a linha da receita das companhias. Como a moeda subiu mais de 20% desde o começo de 2024, o ciclo foi muito positivo para as empresas do setor de carnes”, acrescenta.
E a tendência é que 2025 seja um ano tão favorável quanto 2024 foi para o setor. Isso porque alguns bancos de investimentos e gestoras não descartam a possibilidade do câmbio sofrer uma disparada nos próximos meses. O BTG Pactual faz parte desse grupo. Para o banco, a moeda norte-americana pode ultrapassar a marca de R$ 7 se o governo lançar mão de ações que contornem o orçamento, aumentem o gasto parafiscal e minem a credibilidade tanto monetária quanto cambial. Apesar do risco, esse não é o cenário base do banco. A expectativa da instituição financeira é que o dólar encerre o próximo ano em R$ 6,25 e R$ 6,35 no fim de 2026.
A Santos Brasil (STBP3), empresa que estreou na carteira do Ibovespa em setembro, também esteve entre as mais rentáveis do ano ao registrar uma valorização de 69,42% em 2024. Os ganhos das ações refletem o otimismo dos investidores com o papel à medida que a empresa apresentava ao mercado resultados corporativos positivos.
No terceiro trimestre, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) da companhia cresceu 57,6% em relação ao mesmo período do ano passado, atingindo R$ 406,3 milhões. “A alavancagem também é praticamente inexistente em Santos Brasil. Então, a empresa opera de forma muito redonda”, diz Alexandre Pletes, head de Renda Variável da Faz Capital. E assim como as empresas frigoríficas, a companhia também se beneficia com a escalada do dólar. Isso porque parte da sua receita vem de exportações.