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Mercado

Vice-presidente do Bradesco vê guerra no Irã como principal risco e mantém visão de queda de juros no Brasil

No Brazil Investment Forum, Bruno Boetger avaliou impacto do petróleo, fluxo estrangeiro forte e maior volatilidade nos mercados

Por Isabela Ortiz

07/04/2026 | 15:24 Atualização: 07/04/2026 | 15:24

Bruno Boetger é vice-presidente do Bradesco e comenta os impactos da guerra comercial no Brasil e no mercado acionário (Foto: Bradesco/Divulgação)
Bruno Boetger é vice-presidente do Bradesco e comenta os impactos da guerra comercial no Brasil e no mercado acionário (Foto: Bradesco/Divulgação)

Nesta terça-feira (7), o Bradesco BBI realizou, em São Paulo (SP), a 12ª edição do seu evento anual para investidores, casas e corretoras, o Brazil Investment Forum (BIF). O encontro reuniu cerca de 150 empresas e mil investidores, com mais de 2 mil reuniões e 21 painéis ao longo do dia, contando com a participação de CEOs de companhias como Marfrig (MBRF), JBS, Sabesp e Minerva, além do vice-presidente do banco, Bruno Boetger, que falou à imprensa. Segundo Boetger, o pano de fundo do evento é um mercado ainda fortemente influenciado pelo cenário geopolítico.

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“A gente obviamente tem foco na guerra do Irã, com preocupação do ponto de vista econômico: o preço do óleo acima de US$ 100 é altamente inflacionário e impacta na queda da taxa de juros“, afirmou. Apesar disso, ele destaca que o mercado trabalha com um cenário-base mais benigno, no qual o conflito se encerraria em um prazo relativamente curto.

Nessa hipótese, os preços do petróleo tenderiam a recuar para a faixa de US$ 80 a US$ 85 por barril, o que teria efeitos limitados sobre a inflação e abriria espaço para cortes de juros até o fim do ano.

“Poderíamos ver um impacto pequeno na inflação e permitiria que até o fim do ano víssemos uma queda nos juros. Juros para baixo são melhores para o mercado de equities [valor que pertence aos acionistas de uma empresa] “, disse.

A expectativa do banco é que a Selic encerre o ano em 12,5%.

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Ele pondera, contudo, que o desfecho do conflito ainda é incerto e pode ser determinante para o humor dos mercados. “Saberemos hoje à noite se possivelmente a guerra acaba rápido ou se haverá uma negociação”, comentou. Enquanto isso, a consequência mais imediata tem sido o aumento da volatilidade.

“Vemos uma volatilidade ruim para os mercados porque você perde a noção de qual é o preço das coisas”, explicou.

Ainda assim, Boetger sugere olhar o cenário também pelo lado positivo. O início do ciclo de queda de juros é visto como um fator relevante de sustentação para os ativos de risco. “Foi bastante positivo esse início do ciclo”, disse. Ele lembra que, mesmo em meio às incertezas, a bolsa brasileira segue em patamares elevados, próxima de suas máximas históricas, com valorização de cerca de 20% no ano.

Fluxo estrangeiro continua sustentando o mercado local

Outro ponto de destaque é o fluxo estrangeiro, que continua sustentando o mercado local. De acordo com o executivo, a entrada de capital externo não foi interrompida, mesmo com o início do conflito. “Os investidores estrangeiros continuam entrando no Brasil, não parou o fluxo”, afirmou, citando um volume próximo de R$ 54 bilhões na B3, praticamente o total observado em todo o ano passado.

Esse movimento tem sido crucial, sobretudo em um contexto de fragilidade do investidor local. Boetger observa que houve uma migração relevante de recursos da renda variável para a renda fixa, impulsionada pelos juros ainda elevados.

“O investidor local sofreu bastante com resgates, com muita migração de liquidez de equities para renda fixa, buscando rendimento em fundos de crédito”, explicou.

Com isso, as assets (ativos) locais de ações enfrentaram um período mais desafiador, ao contrário do investidor estrangeiro, que segue mais ativo.

No mercado de capitais, a instituição ainda enxerga uma janela de oportunidades, embora mais restrita. A estimativa é de cerca de 10 operações ao longo do ano, entre follow-ons (emissão de novas ações) e IPOs (Oferta Pública Inicial), somando aproximadamente R$ 15 bilhões, um patamar semelhante ao de 2025, mas já revisado para baixo por conta do aumento da incerteza.

“A expectativa baixou por conta da guerra, ela traz incerteza e volatilidade. Foi um impacto que não dá para negar, mas vamos continuar tendo oportunidades”, afirmou.

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Ele ressalta que as ofertas subsequentes tendem a ser mais viáveis no curto prazo, enquanto o mercado de IPOs permanece mais desafiador. Ainda assim, há pelo menos um nome no pipeline.

“IPO especificamente não tem projeção, mas tem pelo menos um nome”, disse, acrescentando que há demanda para ofertas relevantes dentro desse conjunto.

Setores ligados à infraestrutura seguem como destaque, com maior apetite, especialmente de investidores estrangeiros. “Infraestrutura, energia, saneamento, rodovias – várias concessões acontecendo, leilões, portos”, listou. Segundo ele, essas operações têm registrado participação estrangeira entre 50% e 60%, reforçando o papel do capital externo na dinâmica recente da bolsa.

Eleição não é o que mais preocupa agora

Para o executivo, diferentemente de outros momentos, o cenário político doméstico não figura entre as principais preocupações dos investidores neste momento.

“Eleição, surpreendentemente, não é a principal preocupação. A principal é guerra, juros e volatilidade”, afirmou.

O nível elevado das taxas, inclusive, segue pressionando os balanços das empresas e reforça a sensibilidade do mercado ao cenário internacional.

No segmento de renda fixa, o ambiente também mudou. Eventos corporativos recentes levaram a uma postura mais cautelosa por parte dos investidores. “O mercado local de renda fixa ficou mais seletivo, deu uma parada para respirar. As assets estão reavaliando o preço do risco”, explicou. Como reflexo, os spreads de crédito se ampliaram entre 40 e 70 pontos-base.

Além disso, houve uma inversão no fluxo de captação dos fundos. Após entradas líquidas de cerca de R$ 40 bilhões no ano passado, 2026 registra saída de aproximadamente R$ 6 bilhões até agora, especialmente em fundos institucionais e de infraestrutura. “Os recursos que estão saindo dos fundos de renda fixa estão indo para caixa ou ativos mais conservadores, como CDBs de bancos”, disse.

Para o ano, a expectativa é de emissões totais de cerca de R$ 550 bilhões, abaixo dos R$ 740 bilhões registrados em 2025, um ano considerado atípico e histórico, já na esteira de volumes elevados desde 2024.

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No mercado internacional de dívida, o cenário também se tornou mais exigente. Segundo Boetger, os mesmos eventos corporativos impactaram a percepção de risco, elevando a demanda por papéis de maior qualidade. “Hoje tem uma busca maior por emissões high grade e um desafio maior para nomes de high yield [alto rendimento]”, afirmou. A estimativa é de emissões entre US$ 20 bilhões e US$ 25 bilhões neste ano, ligeiramente abaixo dos US$ 26 bilhões de 2025.

O executivo destaca que ainda é difícil estimar quanto tempo o mercado levará para absorver os choques recentes e retornar a níveis anteriores de precificação. “É muito difícil dizer quanto tempo o mercado demora para voltar a patamares anteriores”, afirmou. Ele reforça, no entanto, que um eventual prolongamento do conflito tende a ser o principal risco. “Se a guerra perdurar muito mais, é prejudicial, principalmente pelo impacto prolongado no preço do petróleo“, concluiu.

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