

Nesta quarta-feira (2), o mundo parou para acompanhar o anúncio do presidente americano, Donald Trump, sobre as novas tarifas para os todos os produtos estrangeiros que entram nos Estados Unidos. O Brasil recebeu a alíquota mínima de 10%, enquanto China, Europa, Vietnã e Cambodja ficaram com taxas mais agressivas de até 49%. Além de elevar as tensões comerciais entre os países, as medidas protecionistas, que entram em vigor a partir desta quinta-feira (2), devem alterar a dinâmica do dólar nas próximas semanas.
Para André Valério, economista sênior do Inter, se a economia americana absorver bem o choque das tarifas, com baixo impacto na atividade econômica e na inflação, a tendência é que a divisa americana se aprecie. Do contrário, o dólar poderá enfraquecer frente às outras moedas. “Se o impacto das tarifas for extenso, criando incertezas e desaceleração da economia, ao passo em que os Estados Unidos se isolem do resto do mundo, a tendência é observar a continuidade do movimento de depreciação do dólar“, diz Valério.
Até o momento, o mercado teme que as tarifas de Trump possam desencadear uma recessão econômica nos Estados Unidos. “Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano registraram quedas expressivas superiores a 20 pontos-base no vencimento de 5 anos, sinalizando que uma desaceleração econômica poderá levar o Federal Reserve (FED) a ajustar sua política monetária, possivelmente respondendo ao choque com cortes de juros”, diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
Na sessão desta quinta-feira (3), o dólar à vista iniciou com uma queda de 1,41%, sendo negociado a R$ 5,6280, enquanto o índice DXY, que mede a força do dólar americano frente a uma cesta de moedas de países desenvolvidos, recuou mais de 2% – sua maior queda diária desde 2016. Já o real deve sofrer menos. Para o economista do Inter, o impacto das tarifas deve ser pequeno visto que o fluxo comercial entre o Brasil e os Estados Unidos não é tão relevante.
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“O Brasil tende a ganhar market share de suas exportações, à medida que essas regiões direcionem suas demandas para outro lugar, particularmente o agro, que sofre grande competição com o agro americano”, diz Valério. Além disso, com taxas menores, os produtos brasileiros ficam mais competitivos em relação a outros países, o que pode permitir maiores exportações para os EUA.
Dólar em ritmo de queda
Em março, o dólar caiu 3,5% no acumulado mensal. Já no primeiro trimestre, as perdas chegaram a 7, 25% frente ao real, segundo dados de Einar Rivero, sócio-fundador da Elos Ayta Consultoria. A depreciação do câmbio reflete as incertezas do mercado em torno da magnitude das taxas de importação dos EUA e os seus efeitos para a economia americana. Esse contexto alterou a dinâmica dos investidores estrangeiros que venderam suas posições nas ações de big techs em busca por ativos de proteção, como o ouro, ou para mercados mais atrativos, como o Brasil.
“Com valuations elevados e um ciclo de alta expressiva nos últimos anos, os investidores podem estar buscando alternativas com melhor relação risco-retorno, como ações brasileiras que, em alguns setores, ainda estão descontadas”, diz Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. Na contrapartida, as “7 Magníficas”, grupo que reúne as principais empresas do setor de tecnologia americano, como Apple (AAPL) e Tesla (TSLA), perderam mais de US$ 2 trilhões em valor de mercado em 2025.
Aliado a isso, houve também a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), no dia 19 de março, que sinalizou a possibilidade de retomar o ciclo de afrouxamento monetário em 2025 após manter inalterados os juros americanos. Se isso acontecer, a tendência é que o mercado brasileiro fique mais atrativo para os “olhos” do investior estrangeiro devido à diferença entre as taxas.
“Teremos uma diferença de juros que resula em um prêmio interessante para o gringo. Isso favorecia uma vinda de capital estrangeiro ou a continuidade dela”, diz Enrico Cozzolino, head e sócio de análise da Levante Investimentos. Até o momento, esses fatores contribuíram para a vinda do capital gringo em direção ao Brasil, embora em volumes tímidos. Em 2025, segundos dados mais recentes da B3, esse fluxo permanece com um saldo positivo de R$ 10,5 bilhões.
Mercados reagem às tarifas de Trump
A magnitude das tarifas de importação surpreendeu os mercados que esperavam medidas mais brandas. Como mostramos aqui, o reflexo mundial foi imediato. Na manhã de quinta-feira (3), os futuros de Novas York sofreram perdas acima de 3%, enquanto as ações da Apple (AAPL) que depende de outros países asiáticos, como a China, para a produção dos seus iPhones, tombavam 7%. Já as bolsas asiáticas fecharam a sessão de quinta (3) em baixa. O índice Nikkei, no Japão, e o Hang Seng, em Hong Kong, caíram 2,77% e 1,52%, respectivamente.
A tensão dos mercados é que as medidas protecionistas de Trump possam desencadear reataliações dos países atingidos com as maiores alíquotas. No Canadá, os comerciantes fizeram campanha para boicotar os produtos americanos e valorização a produção local. No Brasil, embora tenha sido com a alíquota mínima, o Congresso aprovou um projeto de lei para responder as ações unilaterais de países ou de blocos econômicos. O texto aguarda a sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
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Com informações do Broadcast