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Mercado

Fuga de capital estrangeiro da Bolsa comprova ‘lenda’ do mercado financeiro?

Desde 1995, Bolsa brasileira teve 17 baixas no mês de maio; especialistas explicam as causas da 'maldição'

Por Geovani Bucci

23/05/2024 | 13:18 Atualização: 24/05/2024 | 7:07

Painel do Ibovespa. (Fonte: Adobe Stock)
Painel do Ibovespa. (Fonte: Adobe Stock)

Reza a lenda que maio é um mês “amaldiçoado” para o mercado financeiro. “Sell in may and ago away” (venda em maio e vá embora, em tradução livre para o português) é um ditado popular que defende que os investidores vendam suas ações no quinto mês do ano, porque teoricamente haveria maior tendência de queda neste período.

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Coincidência ou não, vem sendo registrada uma fuga cada vez maior de capital estrangeiro na B3, a Bolsa brasileira.

Originada em Londres, no Reino Unido, essa frase deriva de outra, mais longa e mais antiga: “Sell in may and go away, and come back on Saint Leger Day”. Trata-se de um conselho para os acionistas retornarem apenas depois do Dia de São Leger – comemorado no dia 15 de setembro.

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Durante as férias de verão no século XVIII, os bancários de The City (distrito financeiro da cidade inglesa) se deslocavam para o interior para participar da Saint Leger Stakes, que é uma das corridas de cavalos mais antigas e prestigiadas do mundo. Com a redução da atividade financeira, popularizou-se uma superstição de que o período não é bom para os investimentos.

  • Veja também: Entenda por que maio é considerado o mês maldito para a Bolsa

De acordo com Ricardo Martins, conselheiro do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), o período corresponde ao “o ano só começa depois do Carnaval” do Brasil. “É um período do Hemisfério Norte em que ocorre as férias dos gestores de ativos, reduzindo liquidez e volatilidade”, diz.

Ainda assim, Martins ressalta que há quem credite esse fato à História. Duas das piores crises que abalaram o mercado de ações ocorreram entre maio e outubro, época do ano que a lenda recomenda que o investidor fique afastado. São as crises de Wall Street, em 1929, e a Segunda-Feira Negra, em 1987.

Para o especialista José Cataldo, superintendente da Ágora Investimentos, não há algo que embase a superstição factualmente, mas é possível fazer correlações. “Historicamente, parte da população americana fica menos posicionada em ativos de risco nessa época. E a questão é que estamos vendo uma saída pesada do investimento estrangeiro do Brasil”, diz. Ele aponta que o fluxo de saída de investimento estrangeiro, em aceleração ao longo deste ano, parece comprovar a superstição do mercado.

Isso se deve aos fatores internacionais relacionados à resistência ao corte de juros pelo Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) por conta da economia pujante e inflação acima da meta, e aos nacionais, que giram em torno da questão de responsabilidade fiscal.

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Segundo um relatório da XP Investimentos, investidores estrangeiros aceleraram a saída da B3 em abril. A venda líquida das ações foi de R$ 11,1 bilhões, acumulando uma queda total de R$31,4 bilhões em 2024 até o mês passado. Mesmo que maio feche em alta, ainda será difícil reverter o quadro.

Trata-se do pior ano de fluxo de capital estrangeiro desde 2008, quando a casa de investimentos iniciou o levantamento. Os especialistas Fernando Ferreira e Jennie Li atribuem a questão ao cenário global adverso, com escalada de conflitos no Oriente Médio, e à mudança na meta de resultado primário pelo Ministério da Fazenda.

‘Sell in may and go away’ se aplica à B3?

Desde 1995 (primeiro ano completo do Plano Real), o Ibovespa – principal indicador da B3 – acumula 17 quedas no mês de maio, representando um percentual de 60,71% de baixas. Enquanto isso, o Dow Jones apresentou 11 baixas no quinto mês do ano no mesmo recorte histórico. Em vários anos, o índice encerrou “de lado” no período, registrando estagnação.

O levantamento foi feito com base na plataforma de dados de mercado da Economatica, a pedido do E-Investidor (veja o gráfico abaixo). Até hoje, o pior mês de maio foi o de 1998, com uma queda de 15,68, precedido pelo melhor em 1997, que obteve uma alta de 13,64%.

Desde 2019 não há um resultado negativo. Este ano ainda é uma incógnita devido às baixas recentes no primeiro trimestre (-4,53%) e em abril (-1,70%).

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Enrico Cozzolino, chefe de análises da Levante Investimentos, confere anualmente os dados referentes ao mês para verificar se o ano foi contemplado com a lenda ou não. Segundo ele, existe o chamado “Halloween Effect”, uma observação histórica que corrobora a teoria.

“Quando a gente olha os 15 maiores índices, é possível notar um aumento de 1,2% em média mensal no período de novembro a abril, nos últimos 50 anos”, explica o analista. “Já entre maio e outubro, esse dado é de 0,9%. Uma performance positiva, porém menor.”

Todavia, replicar a lenda diretamente à Bolsa brasileira é algo estatisticamente falível. Ricardo Martins, da Corecon-SP, afirma que não existe algo que embase a recorrência da superstição.

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“Fazendo uma conta simples com dados de fechamento do Índice Bovespa de maio a setembro, verifica-se que nos últimos 5 anos (de 2019 a 2023) houve apenas um período de retorno negativo, 2021 com -6,66%, justamente quando o mercado avaliou de forma mais precisa a extensão dos danos da pandemia”, diz o economista. “Em 2020, o índice ‘derreteu’ no primeiro momento, por uma situação que chamamos no mercado financeiro de ‘cisne negro’ (evento imprevisível), mas logo corrigiu-se os ‘exageros’.”

Martins ainda menciona o estudo da Fidelity International, uma gestora de investimentos global, que demonstra que a partir de 1986 a estratégia de vender ações em maio foi certa em 14 anos, e errada nos outros 23 anos.

O investidor deve vender suas ações e voltar em outubro?

A lenda diz que os investidores devem vender suas ações em maio e voltar apenas em outubro, quando as férias de verão já estiverem encerradas. No entanto, os especialistas acreditam que esse não seria um movimento sensato.

Para José Cataldo, da Ágora, a Bolsa ainda está atraente, embora haja retirada de dinheiro estrangeiro e desvio do investidor local para a renda fixa. “É importante o investidor estar posicionado em ativos com históricos mais relevantes, consistentes. Em empresas que possuem direcionamentos mais claros e números mais previsíveis”, recomenda.

Enrico Cozzolino, da Levante, salienta dois aspectos principais que devem ser acompanhados com atenção. “Não podemos basear nossas decisões apenas no histórico ou em expectativas preexistentes. Deve-se considerar a inflação, tanto interna quanto externa, e a possibilidade de cortes na taxa de juros“, aponta.

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O analista destaca também o aumento da volatilidade, evidenciado pelo índice VIX (o Termômetro do medo, índice da expectativa de volatilidade), que aumenta tradicionalmente no período de maio a outubro, e não deve ser diferente em 2024 por conta do contexto atual. Isso pode influenciar a saída de capital da Bolsa.

Dessa forma, Cozzolino recomenda que a chave para o acionista é a gestão de risco. “Gerenciar o risco não significa abandonar ações em favor de investimentos mais seguros, mas adotar uma estratégia dinâmica que considere tanto a renda variável quanto a renda fixa. Tal abordagem abre espaço para oportunidades”, afirma.

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