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Mercado

Frigoríficos na guerra do Oriente Médio: custo sobe, exportação resiste e JBS (JBSS34) lidera

MBRF é a empresa que deve sofrer maior impacto. Em março, exportação de frango para região caiu

Por Leo Guimarães

09/04/2026 | 9:30 Atualização: 09/04/2026 | 9:48

Brasil se especializou no mercado de frango no Oriente Médio com o chamado corte halal, que segue a tradição islâmica. Foto: AdobeStock
Brasil se especializou no mercado de frango no Oriente Médio com o chamado corte halal, que segue a tradição islâmica. Foto: AdobeStock

Depois do impacto inicial causado pelo ataque dos Estados Unidos contra o Irã, as ações dos frigoríficos brasileiros reagiram com queda. Mas um mês depois do início do conflito, voltaram a operar como antes: MBRF (MBRF3) continuou andando de lado, Minerva (BEEF3) caindo e JBS (JBSS32) acentuando a tendência de alta, um  quadro que deve se manter com o acordo de cessar-fogo entre os dois países.

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Questões das próprias empresas e do mercado onde atuam continuam fazendo mais preço do que a guerra iniciada no final de fevereiro na região, que concentra 30% das exportações de carnes brasileiras.

“O Oriente Médio não vai deixar se alimentar”, diz Fernando Iglesias, coordenador de inteligência da consultoria Safras & Mercado. A fala resume a visão de mercado de que a escalada na guerra não  geraria uma disrupção no comércio de proteínas. “O que vai acontecer é um encarecimento para que as cargas cheguem ao seu destino.”

Cessar-fogo não altera crise logística no curto prazo

Esse quadro, aliás, não deve mudar, por enquanto. Analistas preveem que a normalização da cadeia logística global levaria de três a cinco meses. O choque do conflito já foi absorvido pelos preços. A expectativa é que petróleo e commodities agrícolas não devem retornar aos níveis anteriores no curto prazo.

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“Provavelmente a gente vai ter uma safra com preços bem melhores em 2026 e 2027. O estrago já foi feito nas commodities em geral e no petróleo também, não vai baixar de volta lá para os US$ 6o “, comenta o analista de ações da Suno Research, Malek Zein, ponderando que, ainda que o barril não se sustente em US$ 100, dificilmente voltará à faixa de preços de antes da guerra.

Estima-se um custo de mais de US$ 500 mil por dia por navio para cada dia adicional de tráfego, com desvios por rotas alternativas, através do Mar Vermelho, pelo canal de Suez, adotando modais múltiplos, terrestres e marítimos. O encarecimento dos combustíveis, causado pelo fechamento do Estreito de Ormuz, também entra na conta.

China e gripe aviária pesam mais que o conflito

Entre os temas que afetam diretamente o mercado de proteínas, estão a  salvaguarda imposta pela China, que estabeleceu cotas à importação da carne bovina.  O Brasil já exportou mais de 33% da cota de 2026 e a expectativa é que a cota brasileira pode se esgotar até  julho de 2026, forçando as exportações excedentes a pagarem a tarifa de 55%.

A influenza aviária, presente no hemisfério norte e já presente na América do Sul, também faz preço. “O Brasil sofreu muito com a exportação de carne de frango em 2025, em função da influenza aviária e, quando olhamos para a carne bovina, o grande evento do ano é essa imposição de salvaguardas da China para proteger o produtor local”, diz Iglesias da Safras & Mercado.

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No caso da carne de frango, o impacto do conflito é mais direto. Nas outras carnes o efeito está mais ligado a aumento de custos. No final isso significa mais inflação. “O aumento do frete marítimo não é exclusividade do setor carnes, alta dos combustíveis também. Não tem como ninguém escapar”, diz Iglesias.

Por que  a MBRF é a mais exposta ao conflito

Das três companhias do setor, a que deve sofrer o maior impacto na operação é a MBRF. A empresa tem importante mercado de frango no Oriente Médio com o chamado corte halal, que segue a tradição islâmica.

Por volta de 30% das exportações brasileiras de frango vão para a região. A MBRF atua com atua com três unidades de processamento na região. Esses países representam 7% de sua receita global.

Com uma operação mais diversificada, a JBS deverá registrar um impacto menor, assim como a Minerva, cuja atuação se concentra no Brasil e América Latina.

Na visão da Ativa Investimentos, a JBS aparece como a favorita no setor. As recomendações de compra também partem do Santander, que vê a possível entrada da companhia dos irmãos Batista no índice Russell 1000 nos EUA, como catalizador para destravar valor.

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O banco estima a entrada de US$ 230 milhões em fluxos passivos, podendo chegar a US$ 1,1 bilhão com fundos ativos, caso a JBS passe a figurar no índice que é um dos mais importantes dos EUA.

“Nosso preço-alvo JBS é R$ 99,00 para o BDR JBSS32”, diz Lucas Dias, analista de Proteínas da Ativa Investimentos, apontando uma valorização de 10% no papel em relação ao preço atual na casa dos R$ 92.

Para a MBRF3, a Ativa tem recomendação neutra e preço-alvo de R$ 22 (atualmente em R$ 20).

Minerva ainda enfrenta dúvidas sobre estrutura de capital

No caso da BEEF3, a visão é neutra e preço em R$ 27, um valor 6 vezes maior do que os atuais R$ 4,24. “No caso da Minerva, apesar do upside relevante, ainda há questão de estrutura de capital da companhia e competição. A gente prefere manter compra em JBS, mesmo que o upside ainda seja inferior. A gente entende que o carrego de JBS é superior”, diz o analista.

Mesmo reduzindo seu endividamento, a Minerva vem sendo penalizada pelo mercado. No 4T25, a companhia consumiu mais dinheiro do que gerou, num nível acima do que o esperado pelo mercado.

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Além do custo logístico que afeta todas as empresas, e não apenas do setor de alimentos, há também pressão adicional sobre o preço do milho, cujo o Irã é um grande cliente, principal insumo para a alimentação de aves.

“O frigorífico de frango pode sofrer de dois lados. Tem o custo maior para produzir e o custo maior para entregar”, aponta o professor da ESPM Jorge Ferreira dos Santos, especialista em economia internacional.

Exportação segue firme, apesar do Oriente Médio

As empresas, por outro lado, estariam preparadas para repassar os custos, cuja inflação, aliás, não vai afetar apenas as companhias do setor, mas todas as empresas que estão integradas à cadeia de suprimento global.

Em março, o volume de exportação de carne para o Oriente Médio foi afetado, interrompendo crescimento registrado em janeiro e fevereiro. Os dados de exportação foram divulgados na tarde desta terça (7) pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

A carne bovina teve o menor recuo, 9% e o envio de carne de frango teve queda maior de 20%. A região é destino de 30% da produção brasileira de frango. Apesar disso, os números ainda são satisfatórios, na visão de Iglesias. “Nós temos que enxergar o copo da exportação nesse ano de 2026, mais cheio do que vazio”, diz.

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No geral, o  desempenho das exportações de carne bovina supera em 8,7% os embarques de março de 2025 e 6,9% nas carnes de frango.

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