O petróleo WTI para maio negociado na New York Mercantile Exchange (Nymex) fechou em tombo de 16,4% (US$ 18,54), a US$ 94,41 o barril, menor nível desde 25 de março. Já o Brent para junho, negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE), encerrou em baixa de 13,3% (US$ 14,52), a US$ 94,75 o barril, menor nível desde 11 de março. Foram as maiores quedas porcentuais diárias para ambos desde abril de 2020, durante a pandemia de covid-19.
Analistas do ING afirmam que o mercado deve permanecer volátil no curto prazo, à medida que investidores aguardam maior clareza sobre as negociações entre Estados Unidos e Irã após o cessar-fogo temporário. A trajetória dos preços dependerá da evolução das tratativas e de sinais concretos de normalização dos fluxos pelo Estreito de Ormuz, além da consistência do acordo ao longo das próximas semanas, avalia o banco holandês.
O efeito vai além do preço do barril. Para Charles Mendlowicz, o “Economista Sincero”, a reabertura do estreito destravaria uma engrenagem crítica da economia global. “O fim da asfixia na veia de transmissão do petróleo permite que Europa, China e Japão normalizem seus fluxos de energia”, afirma.
Na B3, as ações acompanham o colapso do “ouro negro” e operam em forte queda.
No fechamento, a Petrobras (PETR3; PETR4) recuou com força, com as ordinárias em queda de 4,33%, a R$ 51,24, e as preferenciais cedendo 3,90%, a R$ 46,62. No mesmo movimento, a Prio (PRIO3) caiu 5,71%, a R$ 63,95, enquanto a PetroReconcavo (RECV3) recuou 2,34%, a R$ 13,77, e a Brava Energia (BRAV3) perdeu 3,01%, a R$ 20,65.
Além do choque nos preços do petróleo, o noticiário doméstico adiciona ruído. A companhia estatal informou que não irá importar diesel em maio, enquanto a recente troca na diretoria de Logística — após críticas do governo ao leilão de GLP — segue no radar de investidores, reforçando preocupações com possível interferência na política comercial.
Trégua muda o jogo, mas não encerra o risco
O acordo foi mediado pelo Paquistão e prevê uma pausa bilateral nos ataques por duas semanas, período em que negociações mais amplas serão conduzidas. O Irã se comprometeu a liberar o tráfego no estreito, enquanto os Estados Unidos aceitaram suspender ofensivas.
A solução veio após o próprio Donald Trump ameaçar, horas antes, “exterminar uma civilização inteira” caso não houvesse acordo, retórica que elevou o mercado ao limite antes da reviravolta diplomática.
Apesar do alívio, autoridades americanas reforçam que o cessar-fogo é apenas uma “pausa”. O secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que as forças seguem em prontidão e que o acordo não representa o fim do conflito, mas uma interrupção tática. Segundo ele, os objetivos militares foram alcançados “por ora”, enquanto o comando das Forças Armadas indica capacidade de retomada rápida das operações.
A fragilidade do acordo já começa a se manifestar no campo militar. A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) afirmou que prepara uma “resposta pesada” após ataques de Israel a Beirute. O grupo advertiu que poderá ampliar a reação caso novas investidas ocorram, enquanto Israel confirmou operações contra alvos do Hezbollah e indicou que seguirá atuando por razões de segurança. O episódio reacende o risco de escalada regional mesmo sob um cessar-fogo formal.
Do lado diplomático, há sinalização de continuidade das negociações. O governo do Paquistão afirmou que o Irã confirmou presença em conversas com os Estados Unidos previstas para sexta-feira, em Islamabad, o que abre uma nova frente de diálogo.
O governo iraniano, por sua vez, tem indicado disposição para avançar nas negociações, ainda que sem detalhar o nível de representação nas conversas.
Ao mesmo tempo, o acordo não resolve impasses estruturais, como o programa nuclear iraniano, o desenvolvimento de mísseis e a presença de forças aliadas na região. Exigências de Teerã, como retirada de tropas americanas e suspensão de sanções, seguem distantes de um consenso com Washington e aliados.
Nesse contexto, Mendlowicz pondera que o mercado chegou a flertar com um cenário extremo. “Em um ambiente de conflito nuclear, a análise econômica deixa de fazer sentido. As perspectivas para investimentos simplesmente deixam de existir”, afirma.
Mercados entram em modo rali
Com a queda abrupta do petróleo e a redução do risco imediato de disrupção na oferta, os mercados globais migraram rapidamente para o modo de maior apetite por risco.
Bolsas internacionais sobem, o dólar perde força e os rendimentos dos Treasuries, títulos do tesouro americano, recuam. O movimento também se reflete no Brasil. O EWZ, principal ETF brasileiro em Nova York, avança mais de 3%, enquanto a curva de juros doméstica registra forte fechamento, com quedas de até 50 pontos-base em alguns vértices.
A leitura dominante é de alívio inflacionário. A queda da energia reduz pressões sobre preços globais e abre espaço, ao menos no curto prazo, para um ambiente financeiro menos restritivo.
Pressão regulatória entra no radar
O ambiente para o setor também é impactado por discussões regulatórias. O Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) criticou a proposta de criação de um imposto de exportação de 12% sobre o petróleo bruto, classificando a medida como excessivamente arrecadatória.
Segundo a entidade, o setor já destina cerca de 70% de sua renda a tributos e participações governamentais, e os mecanismos atuais seriam suficientes para capturar ganhos extraordinários com a alta do barril. A avaliação é de que a medida pode afetar a competitividade do petróleo brasileiro e elevar a percepção de risco regulatório, em um segmento intensivo em capital e de longo prazo.
Apesar da correção expressiva, o movimento não elimina o prêmio de risco embutido no barril. Para Noah Barrett, analista da Janus Henderson Investors, mesmo com a reabertura de Ormuz, os preços devem permanecer acima dos níveis pré-conflito, diante das incertezas geopolíticas e dos danos à infraestrutura. O cenário, segundo ele, sugere um novo piso para o petróleo, ainda que com elevada volatilidade no curto prazo.