Números do 4T25 do MRV mostram retomada de geração de caixa no Brasil, enquanto a operação nos EUA segue como principal risco da tese (Foto: Adobe Stock)
A prévia operacional do quarto trimestre de 2025 da MRV (MRVE3) mostra ao investidor o momento delicado, mas com sinais de inflexão, vivido pela maior incorporadora do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV). Os números revelam resiliência operacional no Brasil e uma melhora relevante na geração de caixa, ainda que alguns pontos sigam pressionando a tese, especialmente no exterior.
Na leitura da XP Investimentos, a companhia entregou “dados operacionais ligeiramente positivos” no 4T25 da MRV, com lançamentos e vendas acima ou em linha com as expectativas.
A MRV Inc. somou R$ 2,85 bilhões em lançamentos, praticamente estável na comparação anual e com forte avanço trimestral, enquanto as vendas líquidas alcançaram R$ 2,76 bilhões, crescimento de 6% em relação ao ano anterior.
Para a casa, o desempenho comercial foi um dos destaques do período, ajudado também pelo aumento das transferências de unidades para os bancos, que chegaram a 9,9 mil no trimestre.
Esse movimento é relevante porque reduz o descasamento entre unidades produzidas e efetivamente transferidas, um gargalo que vinha pressionando o caixa da companhia nos trimestres anteriores.
A XP observa que a diferença entre produção e transferências caiu para apenas 29 unidades negativas, contra mais de 2 mil no terceiro trimestre, sinalizando maior eficiência operacional.
Do ponto de vista de velocidade de vendas, o desempenho também foi sólido. O índice de vendas sobre oferta (VSO) atingiu 24,2%, mostrando recuperação frente ao trimestre anterior, embora ainda abaixo do nível observado um ano antes.
Publicidade
Segundo o BTG Pactual, a taxa de vendas sobre lançamentos ficou em torno de 23%, um patamar considerado saudável para o segmento de baixa renda, sobretudo em um ambiente ainda desafiador para o crédito imobiliário.
Prévia da MRV: melhora no caixa, mas com pontos de atenção
A principal mudança de narrativa, no entanto, está no caixa.
Após três trimestres consecutivos de consumo de recursos, o BTG destaca que a MRV voltou a gerar caixa livre (free cash flow) no Brasil, com um saldo positivo de R$ 145 milhões no quarto trimestre. Esse resultado veio principalmente do segmento de baixa renda, que gerou R$ 175 milhões, compensando as queimas ainda observadas na Luggo, braço de renda média para locação, e na Urba, voltada a loteamentos.
A XP também reconhece a melhora, mas pondera que a geração de caixa ainda ficou abaixo do esperado. Considerando ajustes, a MRV Inc. gerou R$ 206 milhões de caixa livre, ante uma estimativa de R$ 275 milhões da casa. Ainda assim, houve avanço frente ao trimestre anterior, quando o consumo de caixa havia sido maior.
“A dinâmica relatada na MRV Inc. foi a notícia positiva da noite”, afirma a XP, embora ressalte que Luggo e Urba decepcionaram no período.
O grande ponto de atenção continua sendo a operação internacional. A Resia, subsidiária da MRV nos Estados Unidos, voltou a queimar caixa no trimestre.
Segundo o BTG, o consumo foi de US$ 27 milhões no 4T25, reflexo de uma estrutura elevada de despesas administrativas, custos financeiros e investimentos para conclusão de projetos em andamento. A XP faz leitura semelhante e destaca que a queima ocorreu em um trimestre sem vendas de ativos, pressionando o resultado consolidado do grupo.
Publicidade
Apesar disso, o BTG observa sinais operacionais mais construtivos na Resia, com avanço na ocupação dos empreendimentos e projetos já estabilizados e prontos para venda. A companhia reiterou um plano de desinvestimento de cerca de US$ 800 milhões, que, se executado, pode aliviar de forma relevante a alavancagem nos próximos períodos.
Em termos de preços, há nuances
A XP aponta que o preço médio das unidades vendidas subiu 3,9% na MRV Inc., mas ficou abaixo da inflação do período, o que indica dificuldade de repasse integral dos custos. Ainda assim, a casa avalia que isso não chega a ser uma grande preocupação no cenário atual, embora seja um ponto de monitoramento para as margens.
Na visão do BTG Pactual, o conjunto de resultados do quarto trimestre “trouxe mais pontos positivos do que negativos”, justamente por atacar a principal preocupação do mercado, a geração de caixa no Brasil.
O banco acredita em reação positiva das ações e mantém recomendação de compra, com preço-alvo de R$ 12, destacando que o papel negocia a múltiplos deprimidos, em torno de 6 vezes o lucro estimado para 2026.
Ambas as casas convergem na leitura de que a trajetória de desalavancagem ainda será irregular. O BTG é explícito ao afirmar que “o caminho até uma redução mais significativa da dívida será turbulento”, mas vê potencial de valorização relevante à medida que a recuperação se consolida.
Publicidade
A XP, por sua vez, reforça que a melhora operacional no core business é um passo importante, embora a queima de caixa fora do Brasil siga como um risco relevante.