

As aguardadas tarifas de Donald Trump foram anunciadas nesta quarta-feira (2). Em cerimônia na Casa Branca, o republicano definiu uma taxa mínima de 10% a todos os parceiros comerciais dos EUA, bem como tarifas “recíprocas” de dois dígitos a 60 outros países que, segundo autoridades do governo, trataram os Estados Unidos de forma injusta.
De acordo com a Casa Branca, a tarifa geral mínima entra em vigor no dia 5 de abril e as tarifas individualizadas, em 9 de abril. Ao Brasil, será aplicada a taxa mínima de 10%, assim como para Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Chile, Colômbia, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Irã, Panamá, Paraguai, Reino Unido, Turquia, Ucrânia e Uruguai.
Já as tarifas recíprocas para a China serão de 34% – além dos 20% já anunciados anteriormente –, enquanto os produtos da União Europeia serão taxados em 20%. Para o Japão, Coreia do Sul e Índia, as sobretaxas serão de 24%, 25% e 26%, respectivamente. Importações da Suíça terão uma tarifa de 31%, enquanto os produtos da Venezuela serão taxados em 15%.
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Para Paula Zogbi, gerente de research da Nomad, embora o anúncio de Trump tenha como objetivo estimular e expandir a indústria doméstica, o mercado observa potenciais pressões inflacionárias e aumentos nos custos, podendo gerar choques negativos para a atividade econômica. “A volatilidade deve seguir sendo a tônica do mercado enquanto acompanhamos os desdobramentos das medidas, com prováveis novas revisões de expectativas para os resultados das companhias por analistas e uma possível continuidade do fluxo financeiro para teses mais defensivas e outras economias globais”, afirma.
Hudson Bessa, especialista em mercado financeiro na FIPECAFI, explica que os produtos brasileiros podem ficar atrativos, já que o País foi menos taxado do que outros. “Adicionalmente, blocos comerciais vão fazer acordos e negociar em condições que obviamente privilegiam os membros dos grupos, o que pode também criar novas oportunidades”, diz.
As ações brasileiras mais afetadas
Na Bolsa brasileira, empresas exportadoras do setor de siderurgia, agronegócio, papel e celulose podem ter seus resultados pressionados, a depender da exposição de suas receitas em relação aos Estados Unidos. Da mesma forma, empresas com custos dolarizados, mas com receita em real, como as companhias do segmento de varejo e transportes, devem sentir a pressão do câmbio.
Segundo Alexandre Dellamura, mestre de economia e head de conteúdo da Melver, a volatilidade da renda variável pode aumentar no curto prazo, principalmente se houver resposta do governo brasileiro. “Para quem já está posicionado, o melhor é manter a cabeça fresca, pensando no longo prazo e nas alternativas que as companhias brasileiras encontrarão para defender suas receitas e reduzir os seus custos. Já para aqueles que estão em busca de oportunidades, as oscilações nas próximas semanas podem mostrar excelentes oportunidades de compra”, afirma.
Fernando Marx, contribuidor do TC, afirma que empresas exportadoras brasileiras como Randon (RAPT4), Portobello (PTBL3) e Gerdau (GGBR4) podem sofrer com as tarifas. “Todas elas têm operações significativas nos EUA”, ressalta.
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CSN Mineração (CMIN3), Usiminas (USIM5) e CSN (CSNA3) também correm o risco de ser afetadas, na visão de Norberto Sangalli, broker da mesa de alocação da Nippur Finance. A última, inclusive, liderou as perdas do Ibovespa na quarta-feira ao tombar 5,17%.
“A CSN Mineração depende da exportação de minério de ferro para a China. Uma desaceleração na demanda chinesa pode impactar diretamente suas receitas. Como a empresa é menor que a Vale (VALE3), pode ter menos capacidade de absorver choques de preço, levando a uma queda mais acentuada em suas ações”, afirma.
Já Usiminas e CSN, conforme explica Sangalli, dependem fortemente do mercado brasileiro e podem sofrer com um aumento no fluxo de aço chinês, que poderia reduzir os preços domésticos e afetar suas margens de lucro.
Embora ainda impacte setores exportadores, a medida mais branda de Trump para o Brasil pode impulsionar a Bolsa local, com um viés positivo para o pregão de quinta-feira. “O mercado deve reagir a esse cenário mais favorável, com a expectativa de recuperação nas ações. A volatilidade ainda permanece, mas com um clima mais otimista”, diz Hayson Silva, analista da Nova Futura Investimentos.
Mercados estrangeiros devem sofrer
Marx, do TC, acredita que os mercados internacionais devem reagir mal na quinta-feira, principalmente devido à aplicação de tarifas mais severas para países da Ásia, no nível de 30%. “Pelas notícias ventiladas, o pior cenário rondava em torno de 20% a 25% para os mais afetados. A consequência, portanto, é mais incerteza na economia e, logicamente, menos crescimento”, destaca.
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O especialista acredita que a América Latina ficou mais protegida, mas dificilmente vai escapar de um “sell-off global” – termo que se refere à venda em massa de ativos financeiros em um curto espaço de tempo.
Quem tem uma visão um pouco mais positiva para o mercado de renda variável é Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos. “Em geral, eu acho que o mercado vai reagir bem, porque antes Trump chegou a comentar que quem aplicava tarifas de 65% ia receber 65%. Quem aplicava 40% ia receber 40%. No final, foi menos comparativamente”, afirma, ressaltando ser necessário acompanhar agora os desdobramentos do anúncio.
E o dólar?
Quanto ao comportamento do câmbio, André Valério, economista sênior do Inter, argumenta que a dinâmica da moeda americana vai depender de qual fator irá prevalecer em resposta às tarifas. “Se a economia americana absorver bem o choque, com baixo impacto na atividade e na inflação, a tendência é vermos o dólar se apreciar de maneira global. Por outro lado, se o impacto das tarifas for extenso, criando incertezas e desaceleração da economia, ao passo em que os Estados Unidos se isolem do resto do mundo, a tendência é observar a continuidade do movimento de depreciação do dólar”, diz.
O real, em meio a isso, deve sofrer pouco. O economista entende que o impacto sobre a balança comercial brasileira pode ser pequeno, uma vez que o fluxo do Brasil com os Estados Unidos não é o mais relevante. “Por outro lado, o efeito líquido das tarifas tem chances de ser positivo, especialmente se houver retaliação por parte da China e da Europa. O Brasil tende a ganhar participação de mercado com suas exportações, à medida que essas regiões direcionem suas demandas para outro lugar. Isso pode ocorrer particularmente com o setor de agronegócio, que sofre grande competição com o agro americano”, acrescenta.
Além das tarifas de Trump, outro fator tem mexido com o câmbio: o diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos. Vale lembrar que, enquanto o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a Selic por aqui em março, o Federal Reserve (Fed) manteve as taxas de juros estabilizadas nos EUA. “Atualmente, o real é uma das moedas favoritas dos investidores justamente por causa desse fator”, reforça Valério.
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