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Mercado

O que pode levar a Vale (VALE3) a novas máximas em 2026 após ação subir 40%?

Mineradora segue atrativa pelos dividendos, pela boa geração de caixa e pelo desconto frente aos pares estrangeiros

Retrato de busto sob fundo azul escuro.
Por Leo Guimarães
Editado por Wladimir D'Andrade

13/01/2026 | 9:34 Atualização: 13/01/2026 | 12:48

Vale (VALE3) tem custos mais sensíveis à volatilidade cambial, que beneficiou a companhia em 2025. (Imagem: Albin Marciniak em Adobe Stock)
Vale (VALE3) tem custos mais sensíveis à volatilidade cambial, que beneficiou a companhia em 2025. (Imagem: Albin Marciniak em Adobe Stock)

Após uma valorização superior a 40% em pouco mais de quatro meses, as ações da Vale (VALE3) entram em 2026 com menos espaço para novas altas, segundo analistas. Mesmo com dividendos robustos e geração de caixa forte, o consenso aponta que o atual patamar de preços reduziu a margem de retorno ao investidor.

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Duas casas estimam valorização de mais 10% até o final de 2026, com preço-alvo da ADR da Vale em Nova York a US$ 15,50 (Santander) e o papel no Brasil a R$ 83 (Ágora). O ADR é um certificado negociado nas bolsas dos Estados Unidos que representa ações de uma empresa estrangeira.

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A Genial se mostra mais conservadora e estima m preço de R$ 80, numa valorização de 6% em cima do valor atual.

Todas, no entanto, indicam compra pelo potencial de VALE3  em relação a suas principais concorrentes.  Historicamente negociada com desconto frente às mineradoras australianas, a companhia brasileira tende a reduzir essa diferença após avanços em governança.

“As ações da Vale sempre negociaram abaixo dos seus pares da Austrália, com desconto histórico na faixa de 20% a 25%. Considerando que a companhia já endereçou parte relevante dos riscos regulatórios e ambientais no Brasil, o que justificava um prêmio de risco maior, acreditamos que a tendência seja o fechamento desse gap (diferença)”, comenta Renato Chanes, analista de Research na Ágora.

Fim dos dividendos extraordinários melhora o caixa da Vale

A companhia vem reduzindo os desembolsos relacionados aos desastres de Brumadinho e Samarco (pelo acordo de Mariana), que comprimiram sua flexibilidade financeira nos últimos anos. Em 2025, esses pagamentos ainda ocorreram em patamares elevados, mas para 2026 –  e principalmente a partir de 2027 – será uma despesa que vai cair de forma relevante, abrindo espaço para uma recuperação da geração de fluxo de caixa livre (FCF).

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“À medida que essas obrigações se dissipam, acreditamos que a companhia passará a operar com uma estrutura financeira mais limpa, menor assimetria de risco e maior previsibilidade de FCF,  um ponto que o mercado ainda parece subprecificar”, diz Guedes da Genial.

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“Essa assimetria fica evidente quando se observa que, mesmo negociando a múltiplos mais baixos, a Vale já apresenta FCF yields (retornos) superiores aos dos pares (2x maior), com esse spread tendendo a aumentar a partir de 2027″, apontando um retorno de fluxo de caixa livre (FCF yields) de 14% contra 7% das concorrentes.

Nos níveis atuais de preço do minério de ferro (US$ 107), Chanes, da Ágora, acredita que a VALE3 vai gerar cerca de 13% de seu valor de mercado em caixa este ano, enquanto seus pares australianos devem chegar perto de 8%. “Isto em mundo que caminha para a redução de juros e a maior busca de renda parece ser um bom atributo para as ações da companhia”, considera.

O indicador citado mostra o quanto a empresa consegue gerar dinheiro depois de pagar investimentos e despesas, comparando esse valor com o preço da companhia na Bolsa de Valores. Atualmente o valor de mercado da Vale é de cerca de R$ 343 bilhões.

Por que a Vale ainda negocia com desconto frente às australianas

Mesmo superando os traumas de Brumadinho e Mariana, a companhia brasileira tem um desconto estrutural em relação aos seus pares. Pesa na operação o risco Brasil, maior distância ao principal consumidor (China), além de maior volatilidade de resultados devido ao efeito cambial nos custos, problemas que as australianas não têm, com suas contas dolarizadas e menor distância do gigante asiático.

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Por outro lado, a mineradora brasileira aparece estruturalmente mais bem posicionada do que seus pares BHP (BHPG34) e Rio Tinto (RIOT34) devido a mudança estratégica do seu portfólio.

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A Vale repaginou seu mix de vendas, reduzindo a participação de volumes de alta qualidade e ampliando a oferta de produtos de qualidade média. “Essa flexibilidade se traduz em vantagem competitiva concreta, algo que não é facilmente replicável pelos produtores australianos devido a questões geológicas”, observa Guedes.

Estimando um múltiplo de 3,8 vezes valor da empresa sobre lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (EV/Ebitda), o Santander também vê desconto relevante da mineradora brasileira em relação ao consenso de mercado e também aos pares globais, como BHP, que tem um valor de mercado 7,5 vezes em relação ao Ebitda, e Rio Tinto (8,6 vezes).

Em relatório, o banco destaca a forte geração de caixa da Vale e sua política de remuneração como atraentes para os acionistas.

Dividendos elevados sustentam a tese de investimento

Fachada do Santander; banco vê potencial de ganho de 7,5% com dividendos da Vale em 2026.
Santander estima rendimento de dividendos de 7,5% para Vale (VALE3) em 2026 e até espaço para pagamento adicional. (Imagem: Casa.da.Photo em Adobe Stock)

Para 2026, o Santander estima dividendos da Vale mínimos de cerca de US$ 4,1 bilhões, equivalentes a um dividend yield (rendimento de proventos) de aproximadamente 7,5%, com espaço adicional para pagamentos extraordinários caso a empresa opere próximo à meta de endividamento.

A combinação de preços sustentados do minério, eficiência operacional, mix de produtos e disciplina de capital sustenta a leitura de que a Vale oferece uma das melhores relações risco-retorno do setor, avaliam os analistas do banco.

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Igor Guedes, analista da Genial Investimentos, enxerga a companhia menos pressionada, negociando com um EV/Ebitda de cinco vezes. “Há de se considerar que as ações subiram 15% em dois meses, o que ajudou a descomprimir o múltiplo. Ainda assim, segue com desconto relativo a BHP e Rio Tinto”. E mesmo já considerando múltiplos mais altos, ele também vê dividend yield maior, de 9,5%, mas sem a possibilidade de proventos extraordinários.

Renato Chanes reconhece que a recente valorização da companhia brasileira reduz a margem de segurança para o investidor. Mas a Ágora mantém a visão positiva apoiada por forte desempenho operacional, custos menores na divisão de minério de ferro (US$ 20 por tonelada), resiliência no preço do produto ao redor de US$ 100/tonelada e uma reestruturação operacional na divisão de metais básicos (VBM).

O que sustenta a visão de Chanes vem do aumento de volume de produção da S11D – maior projeto de mineração de minério de ferro da VALE3, localizado em Canaã dos Carajás (PA). “Continuamos a ver espaço para novas valorizações para as ações.”

O impacto da China no preço do minério de ferro

Igor Guedes, analista da Genial, tem uma visão mais conservadora em relação ao mercado de minério de ferro. “Estimamos uma média de US$95/t”, afirma. O cenário dele está ancorado pela menor demanda por aço na China, devido à fraqueza do setor imobiliário.

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“Esse deve ser o pior ano da crise, iniciada em 2021”, diz, comentando que as siderúrgicas chinesas também estão produzindo menos 4% na comparação anual de janeiro a novembro. “O que reduziria a demanda de minério de ferro em quase 50 milhões de toneladas estimadas em 12 meses.”

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Tudo isso acontecendo num momento de maior oferta global. Guedes reconhece que esses fatores já estavam presentes em 2025, com o minério cotado a US$ 110, mas que esse “descolamento” é resultado de fatores de curto prazo que não devem se repetir, como o acordo comercial assinado em novembro entre EUA e China e valorização da taxa de câmbio chinesa, que melhora o poder de compra em commodities.

Os analistas do Santander divergem dessa visão e defendem que a demanda por minério vai continuar, especialmente na China. Embora o setor imobiliário chinês siga como um risco, esse efeito seria mitigado pelo peso crescente dos investimentos em infraestrutura, pela urbanização estrutural e pela modernização da indústria siderúrgica chinesa.

Simandou pode pressionar a oferta global?

Além disso, o banco vê crescimento estrutural de consumo em mercados como Índia, Sudeste Asiático e Oriente Médio. Entra ainda na conta do Santander “taxas elevadas de depleção das minas” (indicador de vida útil restante da jazida) e custos marginais de produção mais altos.

No lado da oferta, o relatório reconhece o impacto do projeto Simandou, estimando uma contribuição de cerca de 20 milhões de toneladas em 2026, mas avalia que esse volume não é suficiente para provocar um desequilíbrio relevante no mercado.

O Projeto Simandou é um mega-projeto de mineração de ferro de alto teor na Guiné, África Ocidental, num consórcio envolvendo a Rio Tinto, Chinalco, Baowu (China) e o governo da Guiné.

“O aumento da produção em Simandou deverá ser gradual, atingindo a capacidade nominal até o final da década, com a expectativa de que o esgotamento acelerado de outras minas (supleção)  mundo afora compense parcialmente esse impacto”, observa o analista da Ágora.

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