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Negócios

Como ficam as ações da Uber com o aumento do preço da gasolina?

Empresa enfrenta série de desafios e papéis caem 24% em 2022

Por Jenne Andrade

23/03/2022 | 9:40 Atualização: 23/03/2022 | 9:40

Aumento dos juros e dos preços dos combustíveis afetam empresa - Foto: Brendan McDermid/Reuters
Aumento dos juros e dos preços dos combustíveis afetam empresa - Foto: Brendan McDermid/Reuters

Nos últimos três meses, o barril de petróleo Brent subiu 44%, passando de US$ 79,32 para US$ 114,55. O principal motivo para essa escalada de preço é a guerra entre Rússia e Ucrânia, que desestabilizou as cadeias energéticas. O país comandado por Vladimir Putin, que agora sofre sanções econômicas, é um importante produtor e exportador de petróleo e gás natural.

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A falta de insumos russos eleva o preço do petróleo no mundo e, no final, dos combustíveis. No Brasil, a gasolina e o diesel já estão quase 20% mais caros do que no início do ano, o que deixou a Petrobras em evidência.

Entretanto, não somente a petroleira fica na ‘corda-bamba’ diante desse cenário. A Uber também é pressionada quando os preços dos combustíveis sobem. A empresa de transporte por aplicativos tem capital aberto na Nyse (UBER) e BDRs distribuídos na B3 (U1BE34).

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Em 2022, os papéis da companhia negociados no exterior apresentam em queda de 24,12%, enquanto os recibos negociados na bolsa brasileira caem 34% no mesmo período.

Na última semana, a Uber anunciou que as corridas ficarão 6,5% mais caras. O dilema da empresa está em conseguir reter e atrair motoristas, por meio do aumento de remuneração, sem afastar os passageiros. Esse desafio, entretanto, não é o único que a empresa teve nos últimos meses. Desde o início da pandemia, a plataforma vem enfrentando dificuldades para conseguir novos parceiros.

“Se ampliarmos o horizonte de análise, nos últimos 12 meses as ações do Uber acumulam uma queda de 40%”, afirma William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities. “Além do aumento dos combustíveis, que é um problema, durante a pandemia houve a dificuldade de atrair mão de obra, principalmente nos EUA. Até porque havia o risco de contaminação pelo coronavírus e uma remuneração que ficava cada vez menor.”

Já Rodrigo Lima, analista de investimentos e editor de conteúdo da Stake, vê a empresa se mobilizando para diminuir a dependência da frota dos combustíveis fósseis. “A Uber já vinha dando incentivos para os motoristas britânicos comprarem carros elétricos, e agora isso está se estendendo aos EUA. A empresa está dando um subsídio de US$ 6 mil para a compra de um veículo elétrico da Nissan, o que não é pouca coisa, é quase 20% do valor do carro”, afirma. “Já em 2025, a Uber espera que todas as corridas em Londres e Amsterdã sejam realizadas por veículos elétricos. Então o impacto dos preços dos combustíveis não será tão grande para a companhia.”

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Lima também ressalta que os maiores gastos da companhia não são relacionados aos motoristas parceiros, mas às campanhas de marketing da plataforma. Sobretudo no segmento de entregas, que ainda é pouco lucrativo. No último mês, por exemplo, a Uber Eats anunciou a saída do Brasil.

“A Uber simplesmente não conseguiu concorrer com o Ifood [e saiu do país]. O que é algo que a empresa vem fazendo: o desinvestimento em áreas não lucrativas”, afirma. “As margens de delivery deles são muito baixas, até por conta desses gastos com o marketing. Já o segmento de corridas costuma ser lucrativo.”

Subida dos juros

A dificuldade em manter motoristas por conta da alta dos combustíveis se alia a um risco maior: o fenômeno global de aumento das taxas de juros para conter a inflação provocada pela pandemia e pelo atual salto das commodities.

A Uber é uma empresa que ainda não possui grande lucratividade e que tem muito do seu valor de mercado associado às expectativas de crescimento futuro – como a maior parte das companhias de tecnologia, cujos papéis são chamados ‘growth stocks’ (ações de crescimento).

Os juros mais altos tendem a dificultar esse crescimento e diminuir o valor associado ao Uber e demais companhias de tecnologia. A taxa Selic, por exemplo, deve chegar ao fim do ano em 12,75%, enquanto nos EUA os juros devem oscilar entre 0,25% e 0,5% ao ano.

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Essa alta das taxas acaba afastando os investidores das chamadas “growth stocks”, que são trocadas por ações de valor (empresas consolidadas da ‘velha economia’, como é o caso das companhias de commodities e instituições financeiras tradicionais).

Para Natan Epstein, portfolio manager da Catarina Capital, um choque monetário (subida de juros) de maior intensidade pode levar os EUA para uma recessão, o que reduziria a demanda pelos serviços da Uber .“Por um lado, podemos esperar que o número de corridas caia, conforme a economia esfria. Por outro, o choque no preço dos combustíveis, com o conflito na Ucrânia, obrigará a Uber a aumentar a remuneração dos seus motoristas, o que poderá pressionar as margens da companhia”, diz Epistein.

Lima, da Stake, ressalta que a Uber possui uma alavancagem financeira grande e registrou EBITDA (Lucro antes dos Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) positivo pela primeira vez nos últimos dois trimestres de 2021. A companhia também revisou para cima as expectativas para o EBTIDA do primeiro trimestre deste ano, para um montante entre US$ 100 milhões e US$ 130 milhões.

A expectativa é que a plataforma esteja recuperando o volume de viagens de antes da pandemia. “A Uber ainda investe muito em marketing no mundo todo, mas conseguiu se consolidar como líder global do setor de mobilidade, que tem concorrentes fortíssimos”, afirma Lima. “No setor de delivery, ela já encontra uma competitividade muito forte. Um grande risco da Uber hoje é essa verticalização dos serviços.”

Perspectivas

Apesar de ser uma companhia inovadora e de muita relevância mundial, Alves tem dificuldade de enxergar valor no modelo de negócio. “Admiro os empreendedores que realmente criaram um novo mercado, mas acho difícil de ver potencial de valor. Isso porque é uma empresa que ainda investe muito, queima caixa, e sem conseguir muita lucratividade e sendo impactada por diversos fatores”, afirma o especialista da Avenue. “O preço do combustível sobe e dificulta a vida da Uber, falta mão de obra, isso dificulta a vida da Uber também.”

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A Uber está investindo em inovação para fugir desses riscos. Um desses investimentos é o Uber Explore, em que o passageiro pode marcar reservas ou comprar ingressos para eventos pela plataforma e já deixar a corrida agendada. Ainda assim, o cenário é difícil. “Tenho um certo ceticismo, não consigo ver como um modelo de negócio lucrativo”, explica Alves.

Essa também é a visão de Epstein, da Catarina Capital. “Dentro do Fundo Newton nós estamos evitando expor os investidores a ações de empresas ainda não comprovadamente rentáveis, motivo pelo qual não recomendamos a compra de Uber por enquanto. Uma vez que a empresa comece a gerar caixa para os investidores, revisamos o caso”, afirma,

O gestor ressalta os grandes desafios da Uber para o médio prazo. “Escalar o modelo de assinatura da empresa, algo que concorrentes como o DoorDash já fazem”, afirma Epistein. “O segundo desafio é o de agregar uma maior gama de produtos à sua base. Ao mesmo tempo que a Uber é líder no mercado de caronas ao redor do mundo, ainda existe um espaço muito grande para se conquistar em outros setores como logística e entregas.”

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