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Negócios

Como o JPMorgan se tornou um salvador habitual de bancos

O First Republic Bank não foi a primeira instituição financeira a ser salva pelo gestor de US$ 4 trilhões em ativos

Por Emily Flitter, The New York Times

04/05/2023 | 14:27 Atualização: 04/05/2023 | 14:33

JPMorgan é o maior banco dos EUA (Foto: Dylan Martinez/Reuters)
JPMorgan é o maior banco dos EUA (Foto: Dylan Martinez/Reuters)

Ainda faltava bastante tempo para o sol nascer na segunda-feira (1) quando os reguladores federais avisaram aos executivos do JPMorgan Chase que eles tinham derrotado três rivais menores com sua proposta para comprar o malfadado First Republic Bank.

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Quando o sol nasceu, o CEO de longa data do JPMorgan, Jamie Dimon, foi mais uma vez visto como o salvador do setor – e o arquiteto de mais um acordo intermediado pelo governo para ajudar sua gigantesca instituição a crescer ainda mais.

O First Republic foi a terceira instituição que Dimon concordou em comprar em uma transação apoiada pelo governo federal, depois de ter adquirido o Bear Stearns e o Washington Mutual durante a crise financeira de 2008. Todas as três aquisições ajudaram a acalmar o pânico, mas também beneficiaram o JPMorgan, que, com quase US$ 4 trilhões em ativos e 14% de todos os depósitos nos Estados Unidos, desfruta de um alcance incomparável na maior economia do mundo.

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O acordo do JPMorgan para comprar o First Republic deve aumentar os lucros do banco em US$ 500 milhões este ano e vai lhe dar acesso a um número estável de clientes ricos.

No entanto, o acordo, que acontece num momento em que os políticos de ambos os partidos têm ficado cada vez mais receosos com o poder das empresas, provavelmente suscitará mais dúvidas no que diz respeito a se bancos como o JPMorgan cresceram tanto que sufocaram a concorrência e ameaçam o sistema financeiro.

“A venda do First Republic Bank para o maior banco do país apenas agrava ainda mais o problema do nosso sistema bancário ser ‘grande demais para quebrar’”, disse a senadora democrata Elizabeth Warren.

A transação contribui para o legado de Dimon; tem se tornado fácil fazer comparações entre ele e o homem que dá nome ao banco no qual trabalha. Em 1907, John Pierpont Morgan ficou conhecido por ter trancado os colegas de Wall Street em seu escritório e se recusado a deixá-los sair até que concordassem em se juntar a ele no resgate do sistema financeiro tomado pelo pânico.

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Desde então, segundo os historiadores financeiros, nenhum líder de uma única empresa teve tamanha influência sobre o sistema financeiro dos EUA.

“Sempre houve essa questão de quem poderia convencer a todos que eles têm os ativos ou a autoridade cultural para impedir uma corrida bancária”, disse Kenneth W. Mack, professor de direito e história da Universidade Harvard. Dada a reputação do JPMorgan de aversão ao risco e a vasta experiência de Dimon no comando do banco, “é natural que ele seja a pessoa em quem as autoridades federais continuam a contar quando o assunto é resgate”.

Dimon se tornou CEO em 2006, menos de dois anos depois de o JPMorgan comprar o Chicago bank, que ele comandava. Após a fusão, o JPMorgan cresceu: tinha mais de US$ 1,1 trilhão em ativos e detinha cerca de 10% dos depósitos do país. E estava prestes a se tornar uma potência do setor.

Dimon tinha conquistado uma posição no setor como discípulo de Sanford Weill, o presidente determinado do Citigroup, cuja missão era construir o maior supermercado financeiro do mundo. No fim da década de 1990, foi o apetite voraz de Weill pelo crescimento que levou Washington a derrubar barreiras que, desde a crise de 1929, limitavam o setor bancário e impediam os credores comerciais de vender um amplo leque de serviços financeiros.

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O executivo estava comandando o JPMorgan há quase dois anos quando a crise financeira de 2008 surgiu e lhe proporcionou a oportunidade única de reposicionar o banco – e a si mesmo – como heróis do setor.

Com todo o sistema bancário global no limite, Dimon tornou-se um dos poucos executivos de grande destaque, junto com aqueles no comando do Bank of America e do Wells Fargo, que tentaram se posicionar como salvadores.

O Bank of America comprou o Merrill Lynch e a Countrywide. O Wells Fargo adquiriu o Wachovia. A aquisição de Dimon: o Bear Stearns e depois o Washington Mutual. Em poucos anos, havia uma diferença fundamental entre Dimon e seus concorrentes: as instituições deles enfrentavam problemas – primeiro o Bank of America e, em seguida, o Wells Fargo – e os líderes deixaram os cargos.

Dimon é atualmente o CEO há mais tempo no cargo em Wall Street.

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Entretanto, mesmo quando o JPMorgan foi afetado por eventuais escândalos – o caso que ficou conhecido como a “Baleia de Londres” em 2012, no qual o banco perdeu mais de US$ 6 bilhões, foi de longe a mais grave –, Dimon muitas vezes virou o jogo. Enquanto os reguladores se mexiam para punir o banco por má conduta das empresas que ele havia comprado durante a crise, Dimon insistiu em dizer às autoridades federais que estava fazendo um favor a elas e ao país ao comprar as instituições em apuros. Os observadores do setor ficaram maravilhados com a recusa inabalável de Dimon em pedir desculpas.

Em algum ponto ao longo do processo, ele começou a preencher uma lacuna em seu perfil público: o papel de um estadista cujo poder e prestígio transcendia a própria instituição.

Depois de o JPMorgan ter sido pego executando ilegalmente as hipotecas das casas de militares na ativa em 2011, Dimon cofundou uma iniciativa com 11 empresas para contratar mais veteranos militares, comprometendo-se a contratar 100 mil deles até 2020. Depois que a cidade de Detroit declarou falência em 2013, em parte por causa das travessuras dos bancos de Wall Street, o JPMorgan prometeu ajudar a reverter o destino da cidade e Dimon se envolveu pessoalmente na tarefa

Ele começou a opinar sobre uma grande variedade de questões políticas, da educação à imigração, em uma carta que escreve aos acionistas anualmente. Ele se tornou presidente da Business Roundtable (associação com mais de 200 CEOs de diversos setores dos EUA) e trabalhou para fortalecer a influência do grupo com os legisladores. Ele apoiou publicamente o conceito de “capitalismo de stakeholder”, a ideia de que fazer o certo para os acionistas também envolve tratar melhor comunidades, trabalhadores e clientes.

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Durante o governo Obama, Dimon foi apontado para um possível cargo público. O investidor bilionário Warren Buffett sugeriu em 2012 que o presidente Barack Obama nomeasse Dimon como secretário do Tesouro. Em 2016, após rumores de que o presidente eleito Donald Trump poderia escolhê-lo para o posto, Dimon disse que tinha avisado à equipe de transição de Trump que ele não estava interessado. Um colunista do New York Post trouxe o nome de Dimon à tona novamente em 2020, após a eleição do presidente Joe Biden, apesar de Dimon insistir que “nunca desejou o cargo”.

Toda essa conversa, no entanto, junto com sua longevidade como CEO e a reputação de estabilidade do JPMorgan, fizeram com que o pedido da secretária do Tesouro Janet Yellen para que o executivo ajudasse com o First Republic não fosse uma surpresa.

“Não estava claro em 2008 que Jamie Dimon seria essa pessoa; foi o que aconteceu desde 2008 que o tornou essa pessoa”, disse Mack.

Buffett manifestou-se da seguinte maneira em um e-mail enviado ao New York Times na segunda-feira: “Jamie está fazendo a coisa certa para o país e a coisa certa para o JPMorgan Chase – exatamente o que eu esperava que ele fizesse”.

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Tradução de Romina Cácia

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