Negócios

Como o JPMorgan se tornou um salvador habitual de bancos

O First Republic Bank não foi a primeira instituição financeira a ser salva pelo gestor de US$ 4 trilhões em ativos

Como o JPMorgan se tornou um salvador habitual de bancos
JPMorgan é o maior banco dos EUA (Foto: Dylan Martinez/Reuters)
  • O acordo do JPMorgan para comprar o First Republic deve aumentar os lucros do banco em US$ 500 milhões este ano
  • Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, também já foi responsável pela aquisição de dois outros bancos e exerce imensa influência no setor bancário dos EUA
  • Dimon se tornou CEO em 2006, menos de dois anos depois de o JPMorgan comprar o Chicago bank, que ele comandava

Ainda faltava bastante tempo para o sol nascer na segunda-feira (1) quando os reguladores federais avisaram aos executivos do JPMorgan Chase que eles tinham derrotado três rivais menores com sua proposta para comprar o malfadado First Republic Bank.

Quando o sol nasceu, o CEO de longa data do JPMorgan, Jamie Dimon, foi mais uma vez visto como o salvador do setor – e o arquiteto de mais um acordo intermediado pelo governo para ajudar sua gigantesca instituição a crescer ainda mais.

O First Republic foi a terceira instituição que Dimon concordou em comprar em uma transação apoiada pelo governo federal, depois de ter adquirido o Bear Stearns e o Washington Mutual durante a crise financeira de 2008. Todas as três aquisições ajudaram a acalmar o pânico, mas também beneficiaram o JPMorgan, que, com quase US$ 4 trilhões em ativos e 14% de todos os depósitos nos Estados Unidos, desfruta de um alcance incomparável na maior economia do mundo.

Publicidade

Invista em oportunidades que combinam com seus objetivos. Faça seu cadastro na Ágora Investimentos

O acordo do JPMorgan para comprar o First Republic deve aumentar os lucros do banco em US$ 500 milhões este ano e vai lhe dar acesso a um número estável de clientes ricos.

No entanto, o acordo, que acontece num momento em que os políticos de ambos os partidos têm ficado cada vez mais receosos com o poder das empresas, provavelmente suscitará mais dúvidas no que diz respeito a se bancos como o JPMorgan cresceram tanto que sufocaram a concorrência e ameaçam o sistema financeiro.

“A venda do First Republic Bank para o maior banco do país apenas agrava ainda mais o problema do nosso sistema bancário ser ‘grande demais para quebrar’”, disse a senadora democrata Elizabeth Warren.

A transação contribui para o legado de Dimon; tem se tornado fácil fazer comparações entre ele e o homem que dá nome ao banco no qual trabalha. Em 1907, John Pierpont Morgan ficou conhecido por ter trancado os colegas de Wall Street em seu escritório e se recusado a deixá-los sair até que concordassem em se juntar a ele no resgate do sistema financeiro tomado pelo pânico.

Desde então, segundo os historiadores financeiros, nenhum líder de uma única empresa teve tamanha influência sobre o sistema financeiro dos EUA.

Publicidade

“Sempre houve essa questão de quem poderia convencer a todos que eles têm os ativos ou a autoridade cultural para impedir uma corrida bancária”, disse Kenneth W. Mack, professor de direito e história da Universidade Harvard. Dada a reputação do JPMorgan de aversão ao risco e a vasta experiência de Dimon no comando do banco, “é natural que ele seja a pessoa em quem as autoridades federais continuam a contar quando o assunto é resgate”.

Dimon se tornou CEO em 2006, menos de dois anos depois de o JPMorgan comprar o Chicago bank, que ele comandava. Após a fusão, o JPMorgan cresceu: tinha mais de US$ 1,1 trilhão em ativos e detinha cerca de 10% dos depósitos do país. E estava prestes a se tornar uma potência do setor.

Dimon tinha conquistado uma posição no setor como discípulo de Sanford Weill, o presidente determinado do Citigroup, cuja missão era construir o maior supermercado financeiro do mundo. No fim da década de 1990, foi o apetite voraz de Weill pelo crescimento que levou Washington a derrubar barreiras que, desde a crise de 1929, limitavam o setor bancário e impediam os credores comerciais de vender um amplo leque de serviços financeiros.

O executivo estava comandando o JPMorgan há quase dois anos quando a crise financeira de 2008 surgiu e lhe proporcionou a oportunidade única de reposicionar o banco – e a si mesmo – como heróis do setor.

Com todo o sistema bancário global no limite, Dimon tornou-se um dos poucos executivos de grande destaque, junto com aqueles no comando do Bank of America e do Wells Fargo, que tentaram se posicionar como salvadores.

Publicidade

O Bank of America comprou o Merrill Lynch e a Countrywide. O Wells Fargo adquiriu o Wachovia. A aquisição de Dimon: o Bear Stearns e depois o Washington Mutual. Em poucos anos, havia uma diferença fundamental entre Dimon e seus concorrentes: as instituições deles enfrentavam problemas – primeiro o Bank of America e, em seguida, o Wells Fargo – e os líderes deixaram os cargos.

Dimon é atualmente o CEO há mais tempo no cargo em Wall Street.

Entretanto, mesmo quando o JPMorgan foi afetado por eventuais escândalos – o caso que ficou conhecido como a “Baleia de Londres” em 2012, no qual o banco perdeu mais de US$ 6 bilhões, foi de longe a mais grave –, Dimon muitas vezes virou o jogo. Enquanto os reguladores se mexiam para punir o banco por má conduta das empresas que ele havia comprado durante a crise, Dimon insistiu em dizer às autoridades federais que estava fazendo um favor a elas e ao país ao comprar as instituições em apuros. Os observadores do setor ficaram maravilhados com a recusa inabalável de Dimon em pedir desculpas.

Em algum ponto ao longo do processo, ele começou a preencher uma lacuna em seu perfil público: o papel de um estadista cujo poder e prestígio transcendia a própria instituição.

Depois de o JPMorgan ter sido pego executando ilegalmente as hipotecas das casas de militares na ativa em 2011, Dimon cofundou uma iniciativa com 11 empresas para contratar mais veteranos militares, comprometendo-se a contratar 100 mil deles até 2020. Depois que a cidade de Detroit declarou falência em 2013, em parte por causa das travessuras dos bancos de Wall Street, o JPMorgan prometeu ajudar a reverter o destino da cidade e Dimon se envolveu pessoalmente na tarefa

Publicidade

Ele começou a opinar sobre uma grande variedade de questões políticas, da educação à imigração, em uma carta que escreve aos acionistas anualmente. Ele se tornou presidente da Business Roundtable (associação com mais de 200 CEOs de diversos setores dos EUA) e trabalhou para fortalecer a influência do grupo com os legisladores. Ele apoiou publicamente o conceito de “capitalismo de stakeholder”, a ideia de que fazer o certo para os acionistas também envolve tratar melhor comunidades, trabalhadores e clientes.

Durante o governo Obama, Dimon foi apontado para um possível cargo público. O investidor bilionário Warren Buffett sugeriu em 2012 que o presidente Barack Obama nomeasse Dimon como secretário do Tesouro. Em 2016, após rumores de que o presidente eleito Donald Trump poderia escolhê-lo para o posto, Dimon disse que tinha avisado à equipe de transição de Trump que ele não estava interessado. Um colunista do New York Post trouxe o nome de Dimon à tona novamente em 2020, após a eleição do presidente Joe Biden, apesar de Dimon insistir que “nunca desejou o cargo”.

Toda essa conversa, no entanto, junto com sua longevidade como CEO e a reputação de estabilidade do JPMorgan, fizeram com que o pedido da secretária do Tesouro Janet Yellen para que o executivo ajudasse com o First Republic não fosse uma surpresa.

“Não estava claro em 2008 que Jamie Dimon seria essa pessoa; foi o que aconteceu desde 2008 que o tornou essa pessoa”, disse Mack.

Buffett manifestou-se da seguinte maneira em um e-mail enviado ao New York Times na segunda-feira: “Jamie está fazendo a coisa certa para o país e a coisa certa para o JPMorgan Chase – exatamente o que eu esperava que ele fizesse”.

Publicidade

Tradução de Romina Cácia

Informe seu e-mail

Faça com que esse conteúdo ajude mais investidores. Compartilhe com os seus contatos