

Os mercados globais enfretaram um novo dia de caos nesta sexta-feira (4), com um novo capítulo da guerra comercial iniciada pelo presidente americano Donald Trump. Em dois dias, as ações dos Estados Unidos perderam US$ 5,4 trilhões, segundo informações do Financial Times. Após o anúncio do pacote de taxas, na quarta-feira (2), a China, uma das principais afetadas pela medida, anunciou uma retaliação às importações americanas.
O gigante asiático foi um dos principais afetados pelo tarifaço dos EUA, com alíquotas de 34% a importações chinesas, que se somam à tarifação anterior de 20% que está em vigor. Como resposta, Pequim anunciou taxas de 34% a todos os bens importados dos EUA já para o próximo dia 10.
Separadamente, o Ministério do Comércio da China disse que adicionou 11 empresas americanas à sua lista de “entidades não confiáveis”, impedindo-as de fazer negócios na China ou com empresas chinesas. O ministério impôs um sistema de licenciamento para restringir as exportações de sete elementos de terras raras que são minerados e processados quase exclusivamente na China e são usados em tudo, de carros elétricos a bombas inteligentes.
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Breno Falseti, gestor de investimentos e sócio da Rubik Capital, explica que a elevação do tom pelas duas maiores economias do mundo intensificam as preocupações com uma possível recessão global, dado o potencial de desaceleração do comércio internacional e da atividade econômica. A escalada nas tensões comerciais pode resultar em uma fragmentação das cadeias globais de valor e em um aumento do protecionismo, afetando negativamente o crescimento econômico mundial, destaca.
Por isso, a reação tão negativa dos mercados. “Para os mercados emergentes, o ambiente de fragmentação comercial e aumento do protecionismo global traz riscos relevantes. A redução no crescimento das grandes economias tende a gerar fluxos de capital mais voláteis, menor demanda por commodities e menor crescimento nos países exportadores. Em especial, aqueles que dependem fortemente da China ou da Europa como destino de exportações – como o Brasil – precisam se preparar para um cenário de maior incerteza e menor dinamismo global”, diz Falseti.
O risco, segundo ele, não é apenas o impacto econômico direto das tarifas, mas a ruptura de um sistema comercial baseado em previsibilidade, integração e eficiência. “Esse novo ambiente de múltiplas frentes de guerra comercial exige cautela redobrada para os emergentes, que, geralmente, possuem equilíbrios econômicos mais frágeis, em especial com moedas mais voláteis e dependência comercial e financeira de países desenvolvidos”, afirma.
Bolsas em queda, no Brasil e no mundo
O Ibovespa abriu o pregão desta sexta-feira em queda forte e permaneceu assim ao longo do dia. O índice encerrou em baixa de 2,96%, a 127.256 pontos. Na mínima da sessão, às 11h45, chegou a cair 3,20%, na casa dos 126 mil pontos. “O mercado está acompanhando as tendências externas. O incomum foi o desempenho descolado de ontem. Com um risk-off global, não tem como ficarmos imunes“, destaca Wellington Lourenço, analista da Ágora Investimentos.
As Bolsas de Nova York tiveram um novo tombo. O Dow Jones caiu 5,50%; o S&P 500, 5,97%; e o Nasdaq derreteu 5,82%. Os índices aprofundaram as perdas durante o discurso do presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, que sinalizou expectativas de alta da inflação no curto prazo em razão das tarifas anunciadas por Trump. Powell afirmou que “é incerto dizer qual é a trajetória correta para a política monetária” e reiterou que o Fed tem tempo e que “não precisa ter pressa” antes de decidir por novos cortes de juros.
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O contra-ataque chinês também fez o VIX, índice de volatilidade conhecido como “termômetro do medo” em Wall Street, saltar mais de 40%. É o maior nível desde agosto de 2024.
As bolsas europeias também fecharam em queda nesta sexta-feira, ampliando os tombos da véspera, à medida que investidores seguem evitando ativos de maior risco – caso das ações – após o último tarifaço do governo Trump. O índice pan-europeu Stoxx 600 recuou 5,12%, a 496,33 pontos, depois de amargar queda de 2,57% na quinta-feira.
Em Londres, a queda foi de 4,95%, enquanto a bolsa de Paris perdeu 4,26% e a de Frankfurt cedeu 4,95%. Com baixa mais expressiva, a bolsa de Milão fechou em desvalorização de 6,53%.
Entre as principais bolsas da Ásia, o índice Nikkei caiu 2,75% em Tóquio, a 33.780,58 pontos, atingindo o menor nível desde 5 de agosto do ano passado, à medida que a última rodada de tarifas dos EUA gerou incertezas sobre a perspectiva de crescimento global e a trajetória do juro básico do Banco do Japão (BoJ). Ações de chips e financeiras lideraram as perdas no mercado japonês.
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As bolsas da China continental, de Hong Kong e de Taiwan não operaram hoje em função de um feriado.
Depois da queda, dólar volta à alta forte
O mercado de câmbio passou por uma virada nesta sexta-feira, com impacto especial nas moedas emergentes. O dólar hoje teve alta forte de 3,68% ante o real, a R$ 5,8350. O desempenho reverte toda a queda registrada na véspera, quando a moeda americana se desvalorizou 1,2% e bateu o menor valor desde outubro de 2024, a R$ 5,62.
“O movimento reflete a busca dos investidores por ativos considerados mais seguros diante do aumento da incerteza. A retaliação chinesa intensificou os receios de uma possível recessão global, levando a uma reprecificação generalizada dos ativos de risco”, afirma Leandro Ormond, analista da Aware Investments.
Commodities também sofrem
A resposta da China aos EUA também ajudou a derrubar o preço das commodities no exterior. Na New York Mercantile Exchange (Nymex), o contrato de petróleo WTI para maio caiu 7,41%, fechando a US$ 61,99 o barril. O Brent para junho, negociado na Intercontinental Exchange (ICE), cedeu 6,50%, alcançando US$ 65,58 o barril. No acumulado da semana, o contrato do WTI teve perda de quase 10%, enquanto o do Brent desvalorizou mais de 9%.
Os preços do ouro também fecharam em queda nesta sexta-feira e perderam o patamar de US$ 3.100 por onça-troy, pressionados pela forte volatilidade nos mercados globais. O contrato do metal para junho recuou 2,76%, encerrando o pregão a US$ 3.035,4 por onça-troy na Comex, divisão de metais da Nymex.
Quinta-feira já tinha sido de perdas globais
Na quinta-feira (3), o pregão já tinha sido caótico. O Brasil conseguiu se segurar, com uma leve queda de 0,04% no Ibovespa e um alívio no câmbio, que bateu R$ 5,62 após uma perda de 1,2% do dólar. Lá fora, no entanto, o impacto foi maior.
Em Nova York, o Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq tiveram a maior queda diária desde março de 2020, com baixas de 3,98%, 4,84% e 5,97%, respectivamente. As Sete Magníficas – grupo composto pelas maiores empresas americanas de tecnologia Apple (AAPL), Microsoft (MSFT), Amazon (AMZN), Nvidia (NVDA), Alphabet (GOOGL), Meta (META) e Tesla (TSLA) – perderam US$ 1,032 trilhão em valor de mercado. Desde a posse de Trump, em 20 de janeiro, as big techs já diminuíram em US$ 3,4 tri.
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As bolsas europeias e asiáticas também não escaparam. Em Londres, o FTSE 100 recuou 1,55%, enquanto o DAX, de Frankfurt, caiu 3,08%. O CAC 40, de Paris, teve queda de 3,31%, e, em Madri, o Ibex 35 caiu 1,08%. Já o FTSE MIB, de Milão, recuou 3,60%.
Na Ásia, o clima dos mercados também foi negativo. O índice japonês Nikkei caiu 2,77% em Tóquio, sob o peso de ações de chips e de bancos, enquanto o Hang Seng recuou 1,52% em Hong Kong, e o sul-coreano Kospi cedeu 0,76% em Seul. Na China continental, o Xangai Composto teve perda modesta, de 0,24%, e o menos abrangente Shenzhen Composto recuou 1,10%.
*Com informações do Broadcast
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