Nesta sexta-feira (27), o setor de saúde da Bolsa ganhou um novo concorrente. O Bradesco (BBDC3; BBDC4), terceira maior instituição financeira do Brasil, anunciou a criação da Bradsaúde, em uma reorganização societária que concentra seus ativos de saúde na estrutura da Odontoprev (ODPV3), que passará a adotar o novo nome. A operação reorganiza as participações do grupo, incorpora os demais negócios de saúde e transforma a empresa já listada em Bolsa na controladora de um ecossistema que reúne planos, hospitais, clínicas e serviços de diagnóstico.
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Por volta das 15h30 (De Brasília), as ações preferenciais do Bradesco, BBDC4, subiam cerca de 2,24%, a R$ 21,45, enquanto as ordinárias, BBDC3, avançavam 1,70% a R$ 18,56. A Odontoprev (ODPV3) registrava alta de 12,45%, com preço R$ 14,45. No mesmo horário, o Ibovespa recuava 0,77%, pressionado pelo ambiente macroeconômico. Entre as empresas do setor, a Qualicorp (QUAL3) caía 15,10%, refletindo o prejuízo do quarto trimestre e a percepção de que enfrentará uma disputada mais integrada e capitalizada.
Mais cedo, às 12h25 (de Brasília), a Odontoprev chegou a saltar 24,59%, renovando máxima em 12 meses e atingindo R$ 16,57, antes de moderar os ganhos. O Bradesco também acelerou na abertura, com BBDC4 tocando R$ 21,72 na máxima intradiária. Na outra ponta, a Qualicorp aprofundou as perdas e chegou à mínima de R$ 1,83, refletindo a leitura de que a nova estrutura eleva a competição e consolida a verticalização no setor.
A estrutura escolhida foi a de IPO reverso. IPO é a sigla em inglês para oferta pública inicial de ações, quando uma empresa abre capital e vende papéis ao mercado para captar recursos novos. No modelo reverso, no entanto, não há oferta inicial nem entrada imediata de dinheiro no caixa. Em vez disso, uma empresa que não tinha ações negociadas em Bolsa se une a outra já listada e passa a acessar o mercado por meio dessa companhia aberta. Foi o caminho adotado: a Odontoprev, que já tinha capital aberto, incorpora os negócios de saúde do Bradesco (não contemplados até então) e se transforma na holding Bradsaúde.
Segundo o banco, trata-se do maior IPO reverso já realizado no País, considerando o porte dos ativos envolvidos. O conglomerado nasce com cerca de R$ 52 bilhões em receitas anuais, R$ 3,6 bilhões em lucro líquido e mais de 13 milhões de beneficiários, somando planos de saúde e odontológicos, hospitais, clínicas, diagnóstico e tecnologia. O presidente do banco, Marcelo Noronha, afirmou que analistas já estimam valor de mercado próximo de R$ 50 bilhões para a nova companhia, patamar que a colocaria entre as maiores do setor na América Latina.
Na avaliação do Banco Safra, a combinação tende a ser positiva para o lucro por ação da nova empresa. Pelas estimativas do banco, considerando o lucro consolidado projetado para 2025 e o novo total de ações após a incorporação, o ganho por papel pode ficar cerca de 24% acima do registrado hoje pela Odontoprev de forma isolada. O Safra aponta ainda possibilidade de reavaliação das ações, embora mantenha recomendação neutra.
Do ponto de vista regulatório, o Bradesco destacou potencial impacto favorável sobre o índice de Basileia, indicador que mede a relação entre o capital próprio do banco e os ativos ponderados por risco, usado como parâmetro de solidez financeira. A conclusão da operação depende de aprovações societárias e de órgãos reguladores.
No setor, o movimento aprofunda a verticalização do grupo ao reunir plano, hospital, diagnóstico e atenção primária sob a mesma estrutura. Empresas como Hapvida (HAPV3) e Rede D’Or São Luiz (RDOR3) passam a ser monitoradas com maior atenção pelo mercado diante da nova escala do concorrente.
Como o Bradesco ficará com mais de 90% do capital da Bradsaúde, a companhia deverá realizar, em momento posterior, uma oferta subsequente de ações para ampliar o percentual de papéis em circulação, conforme exigem as regras do Novo Mercado. Até lá, a movimentação das ações indica que o mercado já começou a precificar o novo desenho do braço de saúde do banco.